DA COSTA SANTOS
Vem, poesia
Vem para mim, de leve, na surpresa,
das veredas do amor indefinido,
que te cinge a cabeça, com leveza,
através do caminho percorrido.
Vem para mim, do azul da natureza,
ou desse mar chorando arrependido;
põe o teu manto feito de tristeza,
veste de luz o tempo já perdido.
Vem para mim, velada de mistérios,
flor dos Jardins lunares de Verona,
lua de amor vestindo os hemisférios.
Eu te darei a glória do renôvo:
- vem para mim, nos braços da Madona,
"Estrela da Manhã", "Rosa do povo!"
Pelo alto mar
Longe, pelo alto mar, onde a ave não se aninha,
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
Soneto do retirante
(À D. Sara Lemos Kubitschek)
Existe em mim um mal que me consome:
é ver o retirante, no abandono
da terra de que foi senhor e dono,
deixá-la castigado pela fome.
Existe em mim a dor, que não tem nome,
- fogo rubro do sol no triste outono -
dor de quem já perdeu a paz do sono,
cavando a terra seca, sem renome.
Eu vejo assim o bravo nordestino
partir chorando, na aventura louca,
cumprindo as ordens do Senhor Destino!
Deixando tudo na aridez do norte,
Maldiz os homens, pela fala rouca,
e caminha sofrendo para a Morte!
(Oceano Perdido/1952)
Página preparada por Zenilton de Jesus Gayoso Miranda, publicada em setembro de 2008. Metadados: metapoesia.
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