CELSO BORGES
Antonio Celso Borges Araujo, poeta maranhense, nascido em 1939. No Instante da Cidade (1983), Pelo Avesso (1985), Persona Non Grata (1990) e Nenhuma das Respostas Anteriores (1996) e Cantanto (1981) são, na opinião do próprio autor, suas obras mais representativas. XXI é uma antologia com um CD gravada com amigos – Chico César, Rita Ribeiro, Zeca Baleiro, entre outros, de onde extraímos os seguintes poemas. Recomendados por amigos e inimigos... Admirável.
De
vinte e um: poemas de celso Borges
São Paulo: A.C.B. Araujo, 2000
benção
tua benção, poesia
em nome do pai
do filho
e do espírito
canto
pária
somos poucos
cada vez menos
somos loucos
cada vez mais
somos além
dessa matéria óbvia
que nos faz dizer
— tá tudo bem.
natureza viva
a fruta cai do galho
não tem prato embaixo
não tem mesa
não tem chão
invento a fruta amassada
em
pleno
vôo
declaração inteira
tenho dez almas:
uma de carne
onde me exponho aos instintos.
a segunda entrego ao zelador
par que o espanador a inflame.
a terceira
quarta
quinta
sexta
sétima
oitava
entrego-as à mulher amada
para seu domínio completo
a nona carrego comigo
para sustentar o que de solidão exala
a décima
o que sobra dessa solidão
haroldiana
de fato uma fada faz parte de uma história malcontada
deum conto do vigário fadado a ter seu fim otário
de fato uma fada é uma falácia
uma flor a mais do lácio despetalada
um sino no exílio um idílio
por quem os signos dobram em delírio
de fato tudo é tudo
quase nada
noves fora fada
mishina urgente
sol
— o caroço da vida —
nem arte nem desarte:
desastre.
só assim nasço: aço
um corte pra morte
primeira garantia:
verexistir paralém da palavra.
punk
a pomba da paz não quer mais migalhas
todos os atos são a partir de agora
instrumentos de força e vício
there is no future
declaro findo os elementos de cortesia
nenhuma concessão de praça ou perdão
na palma da mão napalm
eis a urgência da estética de guerra
now
o sucesso do amanhã é um comércio
que desconheço como poeta
não me cabe exercitar a beleza do futuro
ou colorir utopias quase sempre alheias.
eis o preço que pago por trazer comigo
o presente em estado de emergência.
a posição da poesia é oposição
Página publicada em abril de 2008 |