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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POESIA GOIANA

Coordenação de Salomão Sousa

 


 

YÊDA SCHMALTZ

 

 

Tenho as tuas cartas e bilhetes floridos e perfumados. Desenhados com a percuciência de sua sensibilidade. E, na parede, o meu rosto entre lírios construído com o teu olhar de pintora cibernética. Na orelha de Rayon (1997) — um de seus últimos livros —, declaras: “Eu não sou poeta não, este lirismo todo é só reclamação. Goiana sou: é só observar o não repetido na frase anterior. E também essa quantidade de livros: não creia que sou uma escritora — isso tudo é só teimosia, vontade de contrariar, de desobedecer. Tem cabimento? De uma coisa de nada, faço laboratório e vou preenchendo a vida de (rima) vento. Certo é que escrevo poesia porque é tudo que possuo e sou, não sendo, e não saberia viver sem ela porque, sem ela, eu não me entendo. Rima de novo e muito fingimento.”

 

Não retornarei à tua casa, pois agora já posso encontrá-la à beira de qualquer piscina e passar o dia todo contemplando ao sol a candura de teu rosto e de teus versos. Vejamos o que Gabriel Nascente traz na antologia “Goiás, meio século de poesia”, sobre o rasto de sua biografia:

 

“`YÊDA SCHMALTZ é de Recife (PE), mas sempre viveu em Goiás. Bacharel em Letras Vernáculas e em Direito. Professora da Universidade Federal de Goiás, Instituto de Artes.” E ele segue informando o rol dos livros publicados e das antologias em que figuras expressivamente. E não poderia informar a data de teu falecimento, se a poesia é anterior (foi.em 10/05/2003, aos 61 anos, no Hospital da Beneficência). “Recebeu inúmeros prêmios e distinções”, tu que não precisavas de prêmio algum para ser distinta. Mas cabe destacar alguns prêmios merecidos por tua poesia: da Associação Paulista de Críticos de Arte, melhor livro de poesia, 1985 (Baco e Anas brasileiras); Remington de prosa e poesia, RJ/1980; Simon Bolivar, Fondi, Itália, 1998; prêmio nacional Itanhangá de poesia/1985; Hugo de Carvalho Ramos /1973-1975-l985 e 1995; IV Concurso Nacional de Literatura da Fundação Cultural de Goiás/1979; José Décio Filho, GO, 1990; BEG de Literatura, GO, 96 e 97; Cora Coralina, GO, 1996, etc..

Yêda, assim conversamos sempre, pois, com Cora Coralina, a voz feminina da poesia de Goiás ganhou altura insuspeitável.    SALOMÃO SOUSA

Bibliografia: Caminhos de mim  (poesia),  Goiânia,  Escola  Técnica Federal de Goiás, 1964; Tempo de Semear (poesia), Goiânia, Cerne, 1969; Secreta ária (poesia), Goiânia, Cultura Goiana, 1973; Poesias e contos bacharéis II (antologia, c/ Teles, J. Mendonça e Jorge, Miguel) Goiânia, Oriente, 1976; O peixenauta (poesia), 1ª edição, Goiânia, Oriente, 1975; 2ª edição, Goiânia, Anima, 1983; A alquimia dos nós (poesia), Goiânia, Secretaria da Educação e Cultura, 1979; Miserere (contos), Rio de Janeiro, Antares,1980; Os procedimentos da arte (ensaio), Goiânia, UFG, 1983; Anima mea (seleção de poemas), Goiânia, Anima, 1984; Baco e Anas brasileiras (poesia), Rio de Janeiro, Achiamé, 1985; Atalanta (contos), Rio de Janeiro, José Olympio, 1987; A ti Áthis (poesia), Goiânia, Sec. Cultura  e  Prefeitura, 1988; A forma do coração (poesia), Goiânia, Cerne, 1990; Poesia(antologia poética) , Oficina  Literária  da  Funpel,(xerox), Goiânia,1993; Prometeu americano (poesia), Goiânia, Kelps, l966; Ecos (poesia), Goiânia, Kelps, l966; Rayon  (poesia), Goiânia, Cerne / Funpel, 1997; Vrum  (poesia), Goiânia, Edição da autora, 1999; Chuva de ouro (poesia), Goiânia, Cegraf/UFG, 2000; Urucum e alfenins – Poemas de Goyaz , Goiânia, Cegraf/UFG,2002

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS TEXTOS EN ESPAÑOL

 

De
Iêda Schmaltz
O PEIXENAUTA
Capa de Cleber Gouveia
Ilustrações de Siron Franco
Goiânia: Oriente, 1975.



Esta obra recebeu o Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos - Concurso da União Brasileira de Escritores de Prefeitura de Goiânia. Existe também uma 2a. edição.

 

POEMA BISSEXTO

 

         Aos nascidos em 29 de fevereiro

 

Num ano não bissexto

de meses absurdos

e de horas escritas,

o teu dia não existe,

o teu dia absoluto.

Hoje é a véspera, mas amanhã acabou.

Agora, é cedo ainda

pra eu ir cantar na tua porta,

mas amanhã, é tarde, Inês é morta.

 

Uma interrogação escorre luminosa

sobre o imponderável

do teu dia não-dia,

mas eu dou uma rosa

pro teu dia não-dia,

ante-dia,

adversus,

carpe-diem.

 

No teu ante-aniversário

que não fazes este ano

porque amanhã é primeiro,

não será mais fevereiro,

quisera ver o teu rosto:

a face triste do baiano

e o riso largo do mineiro.

 

Perdido nas estrelas

de um zodíaco azul

ficou teu dia

nadando, peixenauta,

pelo espaço,

— olhando para o céu é que te abraço

enquanto estabilizas tua idade

de sempre criança,

de sem gravidade.

 

E nem temos taças para o ritual,

nem temos a nós mesmos
(dançamos um longínquo carnaval)

nem tenho teus braços

que o vento, que o tempo,

que a nave levou.

Mas um vidro parco

ou acrílico largo

tilinta: trim!

A festa acabou.

 

 


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O DESVIO  

A mim pouco me importa
aberta ou fechada a porta,
vou entrar.
 

E pouco me importa estar
sendo amada ou não amada:
vou amar.
 

Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!
 

A mim pouco me importa
se a tua amada é doente,
se a tua esperança é morta.

E me importa muito menos
se aceitas solenemente
a nossa vida parca e torta.

Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.

A mim pouco me importa
se a lira quebrou a corda:
vou cantar.

E pouco me importa estar
no picadeiro do circo:
vou rodar.

Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!

A mim pouco me importa
se estamos todos presos
por uma invisível corda.

E me importa muito menos
sermos todos indefesos
ante o destino que corta.

Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.

 


AMOR

 

Amor, se houve, eu tive.

De lembrar o amor

em poesia,

minha alma

sobrevive.

 

Do livro A forma do coração (1990)

 

 

Cavalo de Pau

 

Quando amo, sou assim:
dou de tudo para o amado
— a minha agulha de ouro,
meu alfinete de sonho
e a minha estrela de prata.

Quando amo, crio mitos,
dou para o amado meus olhos,
meus vestidos mais bonitos,
minhas blusas de babados,
meus livros mais esquisitos,
meus poemas desmanchados.

Vou me despindo de tudo:
meus cromos, meu travesseiro
e meu móbile de chaves.
Tudo de mim voa longe
e tudo se muda em ave.

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando:
um pandeiro de cigana
com mil fitas coloridas;
de cabelo esvoaçando,
a Vênus que nasceu loura.
(E lá vou eu navegando.)

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando,
enchendo-se os braços curtos
e o amado vai se inflando.

— O que de mais me lamento
e o que de mais me espanto:
o amado vai se inflando
não dos mitos, mas de vento
até que o elo arrebenta
e o pobre do amado estoura.

(Nenhum amado me agüenta.)

Livro: A alquimia dos nós (1979).

 

 

OITANTE

 

Alguém fabricou para mim

Uma estrela particular;

Este calor sem-fim.

 

Receita para se fabricar

uma estrela: é só queimar

átomos de hidro/gênio

por meio da fusão do olhar,

isto é, nuclear.

 

Fórmula: Bill Gates

que é igual a Olavo Bilac,

ovindo as janelas,

(E acreditar que vai brilhar, ter fé.)

 

Mas não se esqueça:

amai para entendê-la.

Quantos celulares fantasmas

há por aqui! Cibernéticos na linha.

Ai, que saudade que eu tenho

do tempo de Ivanhoé!

 

Do livro Rayon (1997)

 

 

CHUVA DE POESIA  I

Está caindo uma chuva de poesia na minha horta.
A poesia está batendo na porta, Carlos,
e pulando pela janela;
a poesia está me afogando em poesia.
Tem uma chusma de poesia no banheiro
e uma alca/teia na esquina.
A poesia parece o Nascimento de Vênus:
saiu nadando da piscina.
A poesia não deixa por pouco; a poesia
não deixa por menos: nobiscum mutambas est,
ou melhor dizendo, com “ela”, é no pau da mandioca,
 no pau da goiabeira.
Meu deus, ela não pode fazer
isto comigo! Caí em decúbito dor-
sal.
A poesia parece nuvem de gafanhoto,
horda de guerreiros.
Está caindo uma horta de poesia na minha chuva;
ela é Pessoa restrita mas não se endireita:
quando cai, é sempre oblíqua e me leva con-
sigo.

Do livro: "Chuva de ouro"


BACANTE A OESTE


A manhã mastiga
o canto do melro:
pão de trigo e mel.
Nossa vida é de sal
e de vinagre

apesar do passarinho
e o sal da terra.
 
Meu canto a Dionísio
é benfazejo
e o que desejo,
é amenizar os caminhos
do homem
com cristais de doçuras
de mulher.
 
E a poesia é doidivanas,
louca e séria
e vai arando
nossos caminhos de sede
e de torturas,
nossos caminhos de fome
e de miséria.
 
De noite
os pirilampos vagam
seus vagos lumes
pelos campos de buritis
e guarirobas.
— Cocos iluminados
de lantejoulas.

Poema do livro Baco e Anas brasileiras.

 

A POBREZA II

(DECLARAÇÃO DE BENS)

Escolhi para mim
— cabeça de poeta,
adolescência pura —
o que não deveria escolher
vivendo no Terceiro Mundo:
dediquei minha vida
à Educação e à Cultura.
Professora da Universidade Brasileira,
não pude comprar fazenda,
chácara, terreno ou boi,
( essa goiana maneira de ser ).
Eu só pude criar,
no meu curral de sonho,
o canto do cavalo,
o canto da boiada
em poesia aberta e hermética;
essa boiada que tanto aflige,
ruminando na janela
da minha aula de Estética.

Apenas com um salário de sucata,
sustentei o filho e as filhas
que partilhei ao gerar,
mas que não dividi na hora
dos divórcios, das partilhas.
(Apenas com o salário,
pois dispensei o tal “alimento”
da descasada profissional.)

Fiquei com a Poesia,
esse  bagulho
terceiromundista,
este meu Bem;
fiquei com a Pobreza,
o meu orgulho:
nunca roubei ninguém.
Não fui grileira e nem
posseira de nada
e, se invadida,
como fui, certa vez,
por astutas fazendeiras,
ora, que bobagem!
A minha obra está datada.
A Poesia
é o meu Patrimônio:
a palavra certa,
a palavra dura.
A poesia canta
e eu fico muda,
de espanto.

Meu Patrimônio maior
é a Literatura. 
 

Poema publicado no livro Prometeu americano.

 

 

A poetisa

 

Canto
o prazer e a esperança,
a loucura e a liberdade.

Cabelos soltos
véus diáfanos
minha flauta
e minha jarra

de vinho.
Que Deus inventou a uva
e Baco inventou o vinho
com seus efeitos.

(Cabelos punk
eus de afanos
minha falta
e minha farra.)

Ao coração humano
medroso, dou alegria
e coragem.

Cabelos soltos
véus diáfanos
minha flauta
e minha garra.

( do livro Baco e Anas Brasileiras-:Yêda Schmaltz.-Rio de Janeiro:Ed. Achiamé,1985)

 

 

 

 

SCHMALTZ, Yêda.  Urucum e alfenins.  Poemas de Goyaz.  Goiânia: Editora UFG, 2002.  145 p.   CM.    Projeto gráfico, editoração eletrônica, capa e ilustrações: Regina Coeli de O. Azevedo. Fotos do urucum: Cleide Vilela. Fotos do alfenin (arte) e cidades: Yêda Schmaltz. Foto da autora: José Afonso. ISBN 85-7274191-7   Seleção de poemas extraídos dos livros Caminhos de mim, Secreta ária, O pexenauta, A alqumia dos nós, A forma do coração, Baco e Anas brasileiras, Prometeu americano, Ecos, Chuva de ouro e inéditos. 

 

 

 

          PLANALTO CENTRAL

 

Se eu abrir esta janela,
não mais verei o mar salgado e as montanhas
e não verei as praias com suas conchas,
os veleiros, as brumas, tana espuma
e nem o encanto alegre das amendoeiras.

Se eu abrir esta janela,
verei mongubas e paineiras;
nenhuma pedra ou montanha: árvores baixas,
retorcidas, parecendo um sofrimento,
verei águas azuis e doces, sem balanços
e um sol, um sol de tudo, um sol de rei.

Se eu abrir esta janela agora,
enxugando com as costas da mão o suor da testa,
de certa forma, apertando os olhos, me verei:
é assim o mundo que eu entendo e gosto—
meu mar salgado é no rosto.

 

 

MINHA ALMA É TRISTE


Minha alma é triste
como o cerrado goiano.

Minha alma existe
sem ter achado o que amo.

Minha alma insiste
ao menos na beleza:

poemas feitos de hibiscos
— brincos rubros de princesa.

 

PAISAGEM

És um momento
de taciturna tarde:
um cavalo ao longe,
contra o crepúsculo.
Dormes de pé:
ah, não te deitas,
não te sujeitas.

Pastas em mim,
nos meus seios de alfafa,
na grama do meu sexo.

E eu quero captar
a mansidade terna
do teu olho equino.

Um cavalo estrábico
que, em sendo um cavalo,
se parece tanto
com um menino.

 

 

RODANDO BOLSINHA

Venho me deitar com a minha paixão.
Minto. Minha paixão está perambulando
por aí, pelas livrarias.
(Ou estaria, na Avenida Goiás,
rodando bolsinha?)
Venho me deitar sozinha,
na verdade, e a minha paixão
é só minha.

(O dono da paixão, que não nego,
mais do que o deus do amor,
é cego.)
O amor,
com sua posição de bêbado
morti
ficado.

 

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TEXTOS EN ESPAÑOL

TRADUCCIÓN DE

ADOVALDO FERNANDES SAMPAIO

 

 

EL DESVIO

A mi poco me importa

abierta o cerra la puerta:

voy a entrar.

 

Y poco me importa estar

siendo amada o no amada:

voy a amar.

 

Pues me importa tanto

yo misma y el sentimiento,

¡cuánto!

 

A mí poco me importa

si tu amada es enferma

si tu esperanza es muerta.

 

Y me importa mucho menos

si aceptas solemnemente

nuestra vida parca y tuerta.

 

Porque mucho me importaría

dejar de ser yo misma

y la poesía.

 

A mi poco me importa

si la lira se rompió la cuerda:

voy a cantar.

 

Y poco me importa estar

en el picadero del circo:

voy a rodar.

 

Pues me importa tanto

yo misma y el sentimiento,

¡cuánto!

 

A mí poco me importa

si estamos todos presos

por una invisible cuerda.

 

Y me importa mucho menos

ser todos indefensos

frente al destino que corta.

 

Porque mucho me importaría

dejar de ser yo mismo

y la poesía.

 

 

Extraído de la obra

VOCES FEMENINAS DE LA POESÍA BRASILEÑA

Goiânia: Editora Oriente, s.d.

 

Página republicada em junho de 2008

 

 

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