WILSON PEREIRA
Nasceu em Coromandel, Minas Gerais, em 1949. Viveu sua infância e juventude em Patos de Minas, de onde mudou-se para Brasília, em 1976. Professor universitário e assessor legislativo da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Formado em Letras e Mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade de Brasília.
Livros de poemas: Escavações no Tempo (1974), Menino sem Fim (1988). Os poemas a seguir foram extraídos de A pedra de Minas, poemas Gerais (Brasília, LGE editora, 2oo2).
“Conheço a poesia de Wilson desde o tempo em que coordenei a seleção de livros para bibliotecas públicas, no final do século passado. Mesmo morando na mesma cidade, apenas o conheço de vista. Mas a poesia dele eu freqüento, sempre com renovado interesse, por seu lirismo, humanismo, minimalismo — Wilson Pereira bem poderia ser considerado o poeta do Eu, ao flagrar-se em múltiplas vertentes, desdobrando-se infinitamente. É, portanto, muitas vezes ótimo.” Antonio Miranda
De
Wilson Pereira
PEDRAS DE MINAS
Brasília: Da Anta Casa Editora, 1994
112 p
FAGULHAS
Vou incinerar este dia
com o fogo do crepúsculo
e depois
com sôfregos músculos
vou escavar sob as cinzas
um sonho
e outros aindas.
DEUS ESTEJA NESTA CASA
A singela inscrição:
fé, certeza, certidão.
Deus é hóspede
dos pobres.
À QUINTANA
Uma estrela sozinha
no fim da madrugada
reflete a minha vida
tão pequenina
e lume e nada.
POETINHA
Vinícius de Moraes,
que falta nos fazes!
Como um pai
que viajou
para muito longe
e não escreve mais.
NOSSO CASO
O nosso caso, amada,
teve seu preço:
a cama desarrumada
e os sonhos pelo avesso.
OUTROS POEMAS
APRESENTAÇÃO
Vou de-ser
do que sou
sub´ir
ao invento
na orla do tempo
além de mim,
feito canto
eu me apresento
menino sem fim.
INFÂNCIA
Eu fui meu
como o espaço
era do pássaro.
Eu me soltava
em cantos e plumas
pelos campos da manhã.
Eu brincava comigo:
eu era eu
e o meu amigo.
Eu me falava baixo
para não espantar
o meu silêncio.
Eu era pequeno
e imenso.
O PEQUENO PROTEGIDO
O que eu trouxe
da infância comigo
está em mim
quase vencido.
Como um herói
desfeito em palavras
guardei pouco
para ser vivido.
Mas não me disse bem,
pois pouco me sei;
o que sôo é mais
o que de mim inventei.
Na verdade o menino
não cresceu comigo:
minha mãe o tem em si,
pequeno e protegido.
FUGA
O menino fugiu-me
sem que eu visse
por onde:
foi atrás da estrela caída,
foi colher uma flor do campo
e se perdeu de mim
que andava tão longe?
Ou o menino
subiu pelo arco-íris
pensando que era ponte
entre mim e o horizonte?
Ou o menino
fugiu-me
só
com medo de ficar grande?
VISÃO
Da janela
eu me vejo
indo.
Vou em mim
e me espero:
eu
vindo
me vejo
na janela.
AMBOS
Outro dia
passando por mim
eu quase me reconheci
mas íamos
ambos apressados
um para o futuro
o outro para o passado.
FAGULHAS
Vou incinerar este dia
com o fogo do crepúsculo
e depois
com sôfregos músculos
vou escavar sob as cinzas
um sonho
e outros aindas.
OUTRO
Querida,
quem te amou
fui eu,
não sou eu.
EUS
Dos eus
que me habitam
um há que me intriga:
hipócrita, mesquinho.
Mas qualquer dia,
quando estiver dormindo,
eu saio devagarinho,
apago a luz, bato a porta
e o deixo, para sempre,
sozinho.
SOU
Enquanto penso
enquanto pulso
sou um pequeno
Deus avulso.
SAÍDA
Resolvi meu dilema:
antes do fim,
na hora extrema,
vou sair de mim
e viver num poema.
De
Wilson Pereira
MENINO SEM FIM
Belo Horizonte: Miguilim, 1996
O pequeno protegido
O que eu trouxe
da infância comigo
está em mim
quase vencido.
Como um herói
desfeito em palavras
guardei um pouco
para ser vivido.
Mas não me disse bem,
pois pouco me sei;
o que soo é mais
o que de mim inventei.
Na verdade o menino
não cresceu comigo:
minha mãe o tem em si,
pequeno e protegido.
No azul
A vida é uma pipa,
a vida é assim:
um menino
se soltando
se saltando
se soltando
no azul
sem fim.
Visão
Da janela
eu me vejo
indo.
vou em mim
e me espero:
eu
vindo
me vejo
na janela.
PEREIRA, Wilson. Voos diversos. Ilustrações de Angelo Abu. Belo Horizonte: Editora Dimensão, 2010. 56 p. ilus. 16,5x24 cm. Poesia infanto-juvenil. Col. A.M. (EA)
NESTA NOITE
Nesta noite
clara e fría,
depois de te beijar,
eu bebo
o vino da poesía
na taça do luar.
TREM DE MINAS
O amor
é um trem de desejos
um trem antigo
antigo demais
que vem carregado
de sonhos… e de queijos
lá de Minas Gerais.
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