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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VIRIATO GASPAR

VIRIATO GASPAR

(Viriato Santos Gaspar) – nasceu em São Luís (MA), em 7/3/1952. Radicado em Brasília desde agosto de 1978. Jornalista desde 1970. Funcionário de carreira do Superior Tribunal de Justiça. Participação em antologias poéticas no Maranhão e em Brasília. Vencedor de muitos prêmios literários, tanto em sua terra natal quanto no Distrito Federal. Bibliografia: Manhã Portátil, Gráfica SIOGE, São Luís-MA (1984); Onipresença (versão incompleta), Gráfica SIOGE, São Luís-MA (1986); A Lâmina do Grito, Gráfica SIOGE, São Luís-MA (1988), e Sáfara Safra, São Luís-MA (1996). Está concluindo um livro de Salmos em linguagem moderna, e tem dois livros de poemas e um de contos, inéditos.  

 

Oswaldino Marques ao comentar textos de autores novos da Literatura Maranhense disse que o poeta “mais próximo da autonomia de vôo é Viriato Gaspar. Surpreende-se nele inventividade, assenhoreamento formal, linguagem plástica, límpida, a inteligência do metamorfismo da expressão que o dota dos meios de manipulação apurada da palavra.”

 

Lago Burnett: “...um poeta absolutamente senhor de seu instrumental.” Chagas Val, ao referir-se ao livro Manhã Portátil, declarou “... um livro forte e denso.” Moacyr Félix, “Com nitidez percebe-se, atrás do seu bem elaborado artesanato, a presença verdadeira de um poeta. Literatura e não literatice.” Wilson Pereira, “Manhã Portátil já revela a energia criadora do autor, dotado de sopro mágico e de capacidade para articular a linguagem com expressivos recursos estilísticos.”

 

 

Página realizada com a colaboração de Salomão Sousa, Angélica Torres e de outras fontes.

 

 

Bilhete a Montale

 

Que tempo este de agora e suas redes.

O sol morre de frio e o mar, de sede.

 

Que mundo este, que encheu só de vazio.

A fome rói nas ruas seu fastio.

 

Goramos o luar; só resta um mantra,

e este gosto de agosto na garganta
 

A Caminho, de Volta

        

         (a Odylo Costa, filho, in memoriam)

 

Os Anjos rasgarão nos meus cabelos

estradas para Deus, e seus atalhos.

Nas minhas mãos geladas trigo e orvalho

Deus plantará depois, para eu bebê-los.

 

Os Anjos brotarão dos meus joelhos

e cantarão manhãs que nunca pude.

Hão de nascer das plumas do alaúde

as rosas da manhã, clarins vermelhos.

 

Hei de cantar, cantar, cantar, cantar

as luzes que engasguei, por mundo ou medo,

os salmos que apaguei, por mal, por mim.

 

E os Anjos me erguerão na altriz do altar,

para eu sugar o Sol e arfar enfim

o sopro antigo e novo do Segredo.

A Sesta

 

         (a Leonardo Boff)

 

Não quero abrir no azul um céu chinfrim,

que seja só um sol que nunca ladre.

Não quero um Deus assim, morto de mim,

cevado de senões, patrão de padres.

 

Eu quero O Deus em mim, total de tudo,

uma alva rede aberta em minha alma.

Um cachorro enrolado em seu veludo,

meu pai me dando adeus na tarde calma.

 

A Ilha

 

Janelas. Poeira. Mosquitos. Meu pai ventava em azul as paredes da insônia. Lamparinas. Calor. Formigas. Fome.

Os homens exercitavam vagas vidas vazias. Idéias. Ideais. Lixo. Luxo. Lisura espectral.

Uma rede sozinha. Var/ando a var anda. Var/ânsias. Átrios de igrejas. Sé. Carmo. Remédios. Pam ta leão. Garrafas. Gumes. Cuspo. Fé. Fezes.

Padre, dai-me a vossa bênção porque pe(s)quei. Ide em gás e que o terror vos arrebanhe. Mentiras. AMEN/tiras.

Os dias despejavam adrenalina. Ossos magros. Fome. Fumo. Fama. Fúria. Os homens inventavam teorias para explicar o medo. Mastigar o medo. O muco murcho da matilha amorfa. A porca era gorda demais. E a gente tinha fome.

As mulheres eram qualquer coisa secreta. Proibida. O veludo molhado da rosa incendiada na penugem. Uma dúzia de sonhos. Uma saga de dúvidas. Tesão. Teso. Ah ânsia de voar sobre as ladeiras e amanhecer assombros nos sobrados.

A vida era o desfiar morrente de uma esperança sem futuro. Ex-v(a)ida a cada dia. Como o rosário comprido de minha mãe. Deus era o pavor absoluto. O nome extremo do medo.

O sol sugava o sumo do suor do osso. Os outros, ostras incrustadas no estertor antigo. O coração ganindo a própria gana. A vida vindo em vão e vã voando. Veloz. Vaga. Vadia.

A casa era pequena, mas cabia a tosse de meu pai e a sua rede. O armador tecia na parede um gemido asmático de animal doméstico. A noite se enchia de calor e paz com o roc-roc-roc da velha rede de meu pai, insone.

O mundo era uma ilha sem horizontes. Os barcos passavam. Como os dias. O mar aberto era uma chaga alheia.

A vida era uma ilha. Afogada em seu fogo vazio.

A vida era uma

...

(a vida foi

se.)

 

A Vinda

 

Chegaste de manhã, e era dezembro.

O mar cuspia azul sobre as estrelas

e marejava um cais para bebê-las.

Teu rosto era um farol, é o que lembro.

 

Chegaste como a chuva; pelo avesso,

acendendo a manhã nas minhas unhas.

Agora foi depois, quando eu supunha

não mais molhar-me o sol, seu sal espesso.

 

Nunca disse teu nome, não cabia.

A palavra era apenas seu esgar,

um modo de morder a ventania.

Só lembro do dezembro. E então o mar.

 

O Náufrago

 

teu corpo negro iluminava tudo

com seus segredos fundos de mulher

e nele eu me enconchava em caramujo

no refluir-fruir dessa maré

 

de barcos emboscados no ar escuro

tarrafando sargaços de suor

teu corpo negro então ficava sujo

de claridade e desmanchava o sol

 

em golfadas de trêmulas espumas

teu corpo negro pluma de penumbra

a derramar manhãs no travesseiro

 

e eu náufrago de tudo arremetesse

as praias de teu corpo e me solvesse

nos minérios malinos de teus pêlos. 

 

De
A LÂMINA DO GRITO
(poesia)
São Luis: SECMA/SOPGE, 1988


3
         (para Malu)

aqui, nesta argamassa de neurônios,
de músculos e nervos, pele e ossos,
eu e a minha manada de demônios
estamos sós no ranço dos remorsos.

estamos sós no cio solitário
do pus da nossa paz, fechada em fossos,
no  pó das postas do que sobra em sócios
para o repasto oposto do inventário.

aqui, neste congresso de torturas,
sentamos, face a face, na impostura
de impar e ser o avesso do que somos.

enfartados de espantos e de espasmos,
eu e a minha alcatéia de fantasmas
choramos sós à sombra dos escombros.


21

primeiro ela sonhou que estava morta;
depois, que viajara, que partira,
mas não porque ela própria o decidira,
mas porque havia o mundo além da porta.

ela era a sombra do seu próprio vulto,
a imagem em nuvem do não-revelado.
ela era tudo o que restava oculto,
mas dentro dela mesma, em si guardado.

e porque assim tivesse sido (ou era),
ou nunca fosse, houvesse acontecido,
talvez mais por alvor que só de avara,

primeiro ela sonhou que não chegara,
depois, ao ver que ver era um olvido,
evaporou-se em sua própria espera.


27

inverno, meu amor, são esses ossos
que a tarde desenterra em nossas veias,
sempre sujos do sumo dos remorsos,
lambuzados de loucas luas cheias.

esse inverso, essa viva carne carma,
o punhal, esse sabre que nos sobra,
essa bomba que nunca se desarma,
esse dobre a dobrar-nos na manobra.

inverno são as drupas desses dias,
essas tardes tardias, trastes, tantas;
essas ruas repletas e vazias,
esta gana a ganir-nos na garganta.

inverno, meu amor: ossos e dias;
e a gente a gangorrar sua agonia.


30

         (a Wilson Pereira)

Qualquer coisa nascida de si mesma
como um ovo, um poema, uma ferida.
Uma pena talvez, flecha fendida
em trovões coruscando em lã/ma e lesmas.

Qualquer coisa. Excrescente, dissoluta,
fluida, fóssil, falaz, como cortiça.
Manivela ou mormaço, a mó mortiça
do seu grito de gueto, escampa escuta.

Esse inverno vital, vulva que orvalha,
galha oblívia do sestro na navalha.
Uma coisa qualquer. Sabre em saliva.

Qualquer coisa cerzida em urze ou asa,
húmus ubre de rala ruma rasa:
▬ um verso, esse universo em carne viva.

             (do livro “A LÂMINA DO GRITO”, de 1988)

 


31

o azul pondo fagulhas no azulejo
enquanto a tarde talha e a voz resvala
no silêncio estalado em caranguejos
e o breu do grito é o gume de uma bala.

o azul tecendo lu(r)zes nos sobrados
e as ruas estuando em treva as teias.
a sombra é um búzio dúbio debruado
na renda rubra da paisagem alheia.

o azul espelha paz no pó espesso
enquanto as aves voam em vão no avesso
e o instante estanca e tranca o trinco a seco.

o azul plantando (p)lumes nos telhados
e a tarde entalha o instante ali alado
e enlaça o aço azedo enchendo os becos.

 

POEMAS INÉDITOS
(selecionados por Angélica Torres Lima)

  

A QUERELA DO BAR ZIL 

As ruas estão rotas de mendigos,
de putas e ladrões mal-ajambrados.
Os que se deram bem vão bem guardados,
no além das limusines, em abrigo. 

Nas praças só há pressa, e o medo empurra
o bilro em nossas burras, ‘té a monta.
Em cada esquina um rambo nos aponta
um berro, e basta a nós se só nos curra. 

Nos palácios, nos templos, nas choupanas,
é um salve-se quem der a xepa ou a xana,
a vida vale um peido, um troco, um til. 

Há quem ferrando enrique ou nasce a lula,
mas nas ruas é a fome, é a gana, a gula,
oh pátria amada, à puta que pariu!

 
O NINHO

Olha, lá fora, a trôpega manada
que marcha, amorfa, à usura do futuro.
Vê com que pressa passam na calçada,
rumo a um arrimo esconso em seu escuro. 

Olha, aqui dentro, o ninho do meu vinho,
o chão deste clarão, esta tontura.
Vê com que vôo as aves da ternura
rasgam seus ramos no meu ser sozinho. 

Ferve um inferno fosco no lá fora:
aqui dentro, eu Te espero.
Agora.
Aurora.

 
BILHETE À ROSA QUE ACENDEU O JARDIM

Tive um amor que desmanchou-se ao vento,
mal soprara a manhã nos meus cabelos.
Tentei talvez, a susto, ainda retê-lo,
mas dissolveu-se em azul no céu cinzento. 

Tive um amor que encheu o mundo inteiro
de um brilho, um fogo, um gás, um chão tão claro,
que até hoje, já escuro, ao relembrá-lo,
ainda me acende o rastro do seu cheiro. 

Tive um amor assim, estranha estiva,
a farfalhar seu mar em carne viva,
o mundo em riste a borbulhar nas veias. 

O amor, no entanto, é um sopro que se apouca;
no instante mesmo em que nos bica a boca
já se ave em vôo, e nunca mais se apeia.

 
NOITURNO 

A rua espicha as casas sonolentas
pela ladeira suja enevoada.
Só meus passos, no pasmo da calçada,
ressoam mundo afora, à flor do vento. 

A rua se esparrama escuro adentro,
uma ruma de casas desbotadas.
Só a lua na rua amortalhada
me vê passar sem pressa, a contra vento. 

De onde eu vim, para onde vou, pisando
o mundo mudo, a rua morta, e eu quando? 

Só meus passos no escuro acendem o vento
e toc toc tocam no silêncio.

 
O JATOBÁ TOMBADO

A doença foi secando a minha mãe,
até torná-la a sombra dela mesma.
Na sua solidão de dor enferma,
um mar de arpões-ferrões nas suas manhãs. 

Na mirrada figura que sumia
um pouco mais, a cada abril do dia,
havia um horizonte de sereno,
grandeza no exercício do pequeno. 

Minha mãe me ensinou, com a dor e a reza,
que sempre há vôo e luz, se a vida pesa.


RÚMULOS 

Por aqu
passou o Poeta: 

há cacos de estrelas
acendendo o escuro;
há um brilho estranho
no pavor dos muros,
e há um viço avesso
acordando o mundo. 

O Poeta
passou por este dia: 

fez brotar a manhã
da noite fria,
fez nascer um clarão
no breu que havia
e surgir em cada dor
como um jardim,
para depois,
um raio, um risco ou um jasmim,
encantar-se por fim
na ventania.

 


Página publicada em setembro de 2008; ampliada e republicada em out. 2008

 

 


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