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RONALDO COSTA FERNANDES Tenho com o Ronaldo, além de sermos poetas, mais duas identidades: nascemos no Maranhão e vivemos longos anos na Venezuela. Daí a emblemática dedicatória que escreveu no exemplar de seu excelente livro Eterno Passageiro, no dia 10 de novembro de 2004, no lançamento da obra em Brasília: “Para o poeta, critico, teatrólogo, polígrafo, com a admiração venezuelana, a estima maranhense e o abraço brasiliense do Ronaldo”. Affonso Ávila escreveu sobre o poeta: “mostra uma força verbal e um cuidado com a linguagem exemplar e surpreendente”. Ingressa na página dos Poetas de Brasília por indicação do mestre Fernando Mendes Vianna.
De TERRATREME Brasília:1977
O DESERTO
E vai o deserto comendo terra fértil alargando sua plantação de grãos, seu pasto de areia, sua colonização de secos, seu plantio de nada. Na vastidão igual do arenoso, erosão das águas e do vento, o deserto — qual mercúrio no rio — vai tomando o espírito e cobre de areia tudo: os móveis, a louça, as roupas — bate nas janelas com seu ô de casa farinheiro e, por fim, atinge o ânimo que se esmirra, granula-se, erode a avança a cada dia dois palmos de vazio que é a medida do pasmo e o metro dos absenteístas.
MECANICISMO
Oh, as lavouras mecânicas, fábricas de trigos, usinas de legumes, máquinas de frutas, a lavoura artificial dos que plantam como que rega um lírio de plástico.
De ISBN 978 857577 5639
AFOGADO
O mar, em sua ressaca, vive em eterno vômito. Cheio de algas e fantasia devolve o que não lhe pertence.
E guarda em si o peixe e o estômago embrulhado e não devolve o navio naufragado porque as embarcações são árvores de ferro que a tragédia plantou. Em seus intestinos de água em ebulição só o náufrago ele rejeita porque o náufrago é uma outra caricatura mórbida de um peixe sem barbatana de um peixe sem guelra o afogado é um corpo estranho o afogado é, mesmo morto, a presen9a da terra na digestão salgada.
Tudo cabe no estômago de água do oceano, mas feroz e decidido se recusa a digerir o que é da terra e não pertence ao desvario piscoso das mares.
Assim também devolvo o afogado que não pertence á aquosa e uterina imaginação de ânfora plena de liquens e aflições de salitre nada que não faca parte do inconsciente marítimo dos meus prazeres submersos.
AS PUTAS
E Deus disse e ganharás a vida com o suor do teu rosto. Depois ficou pensativo e concluiu: não bem com o suor do rosto, mas com outros suores que mais tarde entenderás. Suores e gemidos de tal sorte excretados não do fundo da vagina mas dos grandes lábios que nada pronunciam lá onde nada se ouve como o eco do vazio ou a cascata de um rio seco.
CANTO DO CASTIGO
Há dias que não consigo aprender minha pouca matéria. Só tenho um ano repetente, oclusivo, recorrente: o ano em que me reprovei. Já fui mais quando tinha menos corpo. Se o corpo se alonga, quem negará que a mente ganha gordura, extensão e músculos?
Não soube me podar, meus braços já não germinam. Não tenho mais primaveras, conto apenas o castigo. Sou o último da sala vazia. Escrever no quadro cada vez mais negro: Meu erro é um zero ao quadrado. Quando me fui buscar na escola, não havia mais menino. Um dia, quem sabe, aprenderei a matemática das horas, a geografia cheia de acidentes do meu corpo, e a geometria da mente fazendo do que sonhei e do que sou retas que nunca se encontraram.
PROFISSÕES DO TEMPO
Descobri cedo as profissões do tempo. De cara percebi ser ele ferreiro e na chapa quente molda-lhe o homem até tomá-lo frio e erro derradeiro.
No mármore que usa como escultor, por um lado desenha a vida a lápis, esboço rude que pode desaparecer, talha enfim brusca a inesperada lápide.
Calculei quem sabe ser marceneiro que gastasse as horas no entalhe, enquanto cupim e traça esculpissem na madeira o vazio que o bicho dá-lhe.
Fotografia de Juvenildo Barbosa Moreira Ronaldo Costa Fernandes sendo homenageado na Biblioteca Nacional de Brasília,
Página ampliada e republicada em março de 2008; ampliada e republicada em junho 2009
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