OSWALDO PULLEN
Pintor, cartunista, escritor e poeta, nascido no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. O livro dele 22 poemas é artesanal, feito à mão.
Página do autor: www.oswaldopullen.com
A mulher improvável
Porta, como as outras portas
Porque não se abre?
Que conluio é este entre você
e a campainha
no silêncio só mas convulso
meu e desta sala?
Ela vem, você não me enganam.
Inda que tarde, alguma desculpa
Alguém que foi ver, uma tia
O pastor de alguma igreja
só dela, secreta, mentira bem-vinda
— É claro que entendo!
Dói só um pouquinho.
O que dói mesmo é esperar...
Bricadeiras
Vou brincar
de ser você
para ver
de algum lado
um outro lado,
aquele lado
onde está
E quem sabe
de repente
eu me vire
a me ver
tão diferente
de relance
em seu olhar
Por breve
neste jogo
ver-me-ei
tão de frente
sem o julgo
meu intento
meu alento
Ou mera invenção...
Beirafim
Passo um pente no dia mocho
(nem o sol,
nem retalhos na calçada)
cheiro de cadáveres
um sonho roxo
e fastio
Já não há verbo que me enrede
nas suspeitas que me invente
nem Maria
nem Cristina
para a boca bruxa desta baba farta
Cheiro do dia-dia
metade trouxa e hora clara
—Baila um bolero coxo
em meu rosto
a sua luz tão vária
Venta, e a pele engelhada dos
ventos vadia.
Não é a mesma:
fala em arrancos
e se ausenta
Beirafim do dia-dia
Tua mão
Sonhei a tua m]ao
irisida:
Tocou-me, santa
onde retrátil
sou meu salto
a alguma órbita
inavegada
Ergui-me todo,
a brandir
esta minha faca
em brasas.
O Fio Elétrico
Monto e desmonto nas palavras
num acesso de tosse
em fios de alta tesão.
Se troco o passo
ou meu traço travo em fio errado...
Sou eu quem pago
mesmo que entanto me ponha
saibro, sabre, terra em aço
aço na terra em que traço
aterrado.
Página publicada em junho de 2008.
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