Oleg Andréev Almeida, poeta lusófono de procedência eslava, nasceu em 1º de abril de 1971 na Bielo-Rússia que, naquela época, fazia parte da União Soviética. Formado em Letras (1992) e pós-graduado em Administração Financeira (1999), seguiu uma longa carreira de tradutor, analista e executivo na área comercial. Começou a escrever muito cedo e, nos anos 80-90, publicou vários poemas e artigos nos periódicos de Gômel, sua cidade natal. Veio radicar-se no Brasil em 2005. Desde então mora em Brasília e trabalha como tradutor do vernáculo russo. Os versos dele escritos em português integram diversas antologias da Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE/Rio de Janeiro), do Movimento Cultural “Celeiro de Escritores” (Santos, SP) e outras editoras brasileiras, sendo também divulgados através da mídia eletrônica:
“Surpreendente o domínio da língua portuguesa por um poeta eslavo! Degusta as palavras e os sentidos em poesia que linda com a prosa, de forma direta, confessional, sutil mas, ao mesmo tempo, incisiva. Aposto no talento dele.” Antonio Miranda
Autorretrato.
Não quero ser político
nem empresário, nem executivo;
ainda menos, líder da maioria vitoriosa.
Não me atrai a perspectiva
de viver preso ao telefone,
de dar entrevistas a torto e a direito,
de prestar contas ou, Deus me livre, depoimentos
no fim da jornada.
Não é que pregue a modéstia
que, aliás, não faz parte do meu caráter,
mas, vendo o ápice do Olimpo coberto de nuvens,
duvido que valha mesmo a pena atingi-lo.
De modo nenhum me seduz a glória,
sobretudo a póstuma,
bem como a opulência exagerada,
pois, com o tempo, esta perece nas baixas da bolsa
ou passa a juntar as baratas,
enquanto aquela cede lugar a outros louvores
falsos ou verdadeiros.
Não é que me curve perante a realidade,
mas, certo de que nas pontas da básica equação
ficam o tombo e o coqueiro igualmente concretos,
acho mais razoável manter-me na defensiva,
distante dos cargos de alto nível.
Não gosto, enfim, de vestir-me de preto e branco,
tampouco de integrar os esquemas
montados pela vontade alheia:
temo as cores monótonas,
e deixa-me trêmulo a simetria que se alinha à morte.
Não é que seja covarde por natureza,
mas, apegado a tradições seculares,
prefiro a lancha ao navio
e ao trombone, a flauta.
O íntimo sonho que tenho
consiste apenas em acordar cedinho –
toda manhã, de domingo a sábado – ,
abrir os olhos nessa penumbra cinzenta,
pela qual se costuma julgar de como será o dia recém-nascido,
ao lado da mulher amada,
que dorme de bruços, nua e confiante,
beijar os ombros aveludados dela
e, dando-me conta de que estou vivo,
agradecer, humilde, a quem criou a vida
por tê-la criado tão simples e cheia de bagatelas maravilhosas.
Numa palavra, evito acrescentar ao que foi concebido pequeno,
e, dada a mínima diferença entre vencido e vencedor,
não quero ser Davi nem Golias...
Quero ser Eu.
A Lua Morena
(fragmentos).
* * *
O amor não morre,
o amor não cansa,
com os anos não se desbota.
O amor perdura,
resistindo firme
a qualquer mudança que seja.
Quem amou, procura,
pela vida afora,
do amor errado livrar-se!
Não consegue, mesmo
se do seu passado
duma vez por todas desiste.
O amor é bênção,
o amor é praga,
feito um anjo sujo de enxofre...
O amor nos fere
e de ter ferido
nem brincando pede desculpas.
* * *
Pouco importa, menina linda,
que você calce sapatos de salto raso,
que dê gargalhadas a todo propósito,
que fume cigarro sobre cigarro,
dizendo que, lá no mundo das artes,
esse pecado é dos menores.
Pouco importa, menina doida,
que você goste de bater papo
sem nunca discernir o bom do ruim, o caro do baratíssimo;
que tinja a cabeleira de não se sabe que cor:
a gente vê e só encolhe os ombros;
que não entenda de etiqueta nem de política.
Pouco importa, menina minha,
que você sempre me sirva um jantar esturrado,
voltando eu do trabalho com fome,
e fique choramingando, quando reparo nisso,
como se no estômago
meu coração residisse.
Pouco importa, enfim, que você tenha
montes de pechas miúdas e perdoáveis!
O importante é que a vida nos outorgou a chance,
a única e divina chance de vermos o céu altivo de perto,
e que os beijos seus, em vez de saber a chiclete,
sabem a primavera...
* * *
Você sorri pra mim e pra ninguém,
pra todos nós, adultos e crianças,
pra todos os que crêem no porvir,
pra quem está em busca da beleza.
Você sorri, e com o sol travesso
das terras tropicais é parecido
seu modo de sorrir: o ar pulula
de tantas chispas rubras e azuis
que, tendo por saradas as mazelas
do dia-a-dia, cada um se sente
feliz ou, pelo menos, fascinado –
os homens sonham em amar demais,
em ser amadas mesmo, as mulheres.
Você sorri de modo que me deixo
levar por emoções, e não atino
com o porquê do júbilo sereno
que transparece no sorriso seu,
nas horas nada ledas, inclusive.
Talvez se ria corajosamente
das manhas e manias deste mundo;
talvez se regozije de fazer
meu coração bater descompassado;
Talvez, talvez... Mas qual a diferença,
se, mal me volta as costas, escurece,
e, num piscar de olhos, viram cinza
os cálidos matizes do viver?..
Ode a Brasília.
Brasília...
Cidade festiva, cidade tristonha,
cidade de siglas e algarismos,
de pleitos, escândalos e portarias,
tulipa de ferro plantada no meu coração.
Brasília...
Cidade sem raça, morena e branca,
cidade dos grandes chefões e pequenos ciclistas,
em cujo falar misturou-se o “erre” do Sul com o “tê” nordestino,
cidade de sonhos e pesadelos,
cidade da gente.
Vós fostes severa comigo, Brasília:
brigastes por nada,
servistes-me pratos azedos,
fizestes com que me sentisse bastardo
no meio dos filhos legítimos vossos,
porém não untastes com fel minhas falas baldias!
Quem sois para mim:
a menina que vende paçoca nas ruas;
a moça gastando três contos na ida pro Plano,
três contos na volta dali;
a mulher, cuja vida seria um filme francês,
se não fosse verdade?
Quem sois: minha prima, irmã ou madrasta?
Não sei, realmente não sei;
moraria em outro lugar, se soubesse!
Quem sou para vós:
forasteiro sem eira nem beira,
bichinho exótico,
homem que, lendo o “Correio”, não perde frieza,
caçula que tanto amais?
Não sabeis...
Se soubésseis,
talvez me tivésseis tratado de outra maneira,
mais branda e menos sincera.
Então, somos quites, Brasília,
cidade alheia, cidade querida,
pois, feitas as contas,
merece favores mundanos e graças divinas
quem anda descalço por pedras em gume;
aqueles que usam coturnos, pisando o capim, desmerecem.
E pelo rigor com o qual me curastes de vãs ilusões,
ensinando o moral dos pioneiros,
eu fico-vos grato, Brasília,
meu duro amor!
De Memórias dum hiperbóreo
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008
IV.
Cá no meu quarto semivazio,
à toa,
passo as tardes de julho abafadiças,
uma por uma.
Sentado na cama ou numa poltrona de palha,
leio Anacreonte.
Do alto andar, em que moro, vê-se
toda a cidade batida pelo mormaço:
míseros bairros e bairros de luxo
amalgamados,
vielas tortas e alamedas que dormem
a mesma sesta.
Vindos de fora,
o cheiro meloso das flores
e o zunido das moscas
unem-se as estrofes do velho bardo;
volta e meia,
berra, embaixo da minha janela, um asno desemperrado,
e apregoa o dono dele:
—Água, ó gente! Água! y.
Quase não saio de casa — iria aonde?
Feias são as hetairas daqui,
além de caras;
nada de novo, há meses, no circo rola
nem no teatro;
fazem-se as palestras de jeito
que dói escutá-las.
Fico, pois, lendo sem pressa;
o vinho grego, dos raros,
que me fornecem uns traficantes,
está na mesa;
pede, maldito, para regar com ele
a minha ceia de sempre,
batata e peixe frito.
De Oleg Almeida Quarta-feira de cinzas e outros poemas Rio de Janeiro: 7Letras, 2011. 110 p.
ISBN 978-85-7577-756-5
Oleg Almeida escreve uma poesia que se constrói como uma vitoriosa experiência artística entre as melhores propostas poéticas brasileiras do século xxi. O seu livro Quarta-feira de Cinzas e outros poemas apresenta, do ponto de vista da linguagem, a intenção de produzir um discursivismo enxuto, sem metaforização hiperpoética que se transformou em uma das infelizes marcas registradas dos representantes da chamada geração de 45. E também sem as paupérrimas reinvenções letristas da vanguarda concretista. Oleg sabe ainda livrar-se do difundido arremedo da dicção reiterativa da vertente metapoética de João Cabral. Também, não encontramos na poesia de Oleg Almeida nada que a aproxime do pieguismo pseudoerótico dos neorromânticos, poetas encharcados de sentimento, mas jejunos de arte e de técnica. Sem nada desse passado, ele soube, no entanto, retirar um pouco de cada uma destas expressões e vivências, criando a sua dicção própria, que depois reuniu em poemas, pólens, partículas criativas que inspiraram e montaram as suas obras originais.
Cláudio Murilo Leal
peã
Romper
a neblina amarela das sumas cidades.
Quebrar
a corrente de chumbo que prende meus nervos.
Sair
do real, bem abertos os olhos medrosos.
Chegar
aos esconsos extremos do Sul e do Norte.
Trilhar
as veredas do sonho, por árduo que seja.
Fazer
com que suem as rochas e cantem os toros.
Lançar
desafio às indômitas forças do cosmo.
Vencer
a tenaz gravidade num salto tigrino.
Passar
pelas águas e flamas, incólume corpo.
Colher
os relâmpagos como se colhem as uvas.
Tingir
minhas roupas de púrpura, índigo, prata.
Beber
quintessências até me fartar de seu gosto.
Transpor
os detalhes dispostos em ordem perfeita.
a partida de damas de quem nunca perde.
Verter
para a língua dos deuses as falas mundanas.
Roubar
o lendário tesouro dos bélicos gnomos.
Caber
numa gota d’orvalho que brilha na relva.
Viver
um milênio num só movimento de cílios.
Querer
ser artista na boa acepção da palavra.
E ser
imortal, não bastando os artísticos louros!
soneto dos meus caminhos
Não defini nem predisse nenhum dos caminhos meus:
Foram aqueles caminhos que me conduziram, tortos,
Da placidez do meu lar ao mais amplo dos coliseus,
Onde se impunham os vivos poltrões por guerreiros mortos.
Houve delícias e dores, velórios e jubileus
Na transferência da terra natal para os outros portos;
Houve ideais que, tomados por obras do próprio Deus,
Pelas inépcias humanas seriam de todo absortos.
Quem – vencedor, perdedor, escritor ou, talvez, impostor –
Sou? Se pudesse escolher, que carreira então seguiria?
Não adianta contar quantas pétalas tem certa flor.
Mesmo sem ter alcançado a mínima sabedoria,
Sei distinguir, como os doutos, o tântrico ímã do amor
E a timidez ante o vácuo da írrita agorafobia!
quarta-feira de cinzas
(fragmento)
xii
Nem todo dia é festa, nem toda festa é farra.
Nem toda mulher é vênus, nem todo homem é macho.
Nem toda criança ganha seu doce de sobremesa.
Enquanto vivos,
seremos todos reféns do incerto e relativo
no que tivermos e desejarmos.
Há, todavia, dois sentimentos indubitáveis:
impaciência, com que se esperam as festas,
e apatia que lhes sucede.
Ambos os casos nos tornam, de certa forma, crianças –
Antonio Miranda e Oleg Almeida durante a Pré-Bienal Internacional de Brasília,
auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, 14 e 15 de outubro de 2010. Foro: Ivan Malta
OLEG ALMEIDA apresenta (em russo) o livro de poemas TU PAÍS ESTÁ FELIZ, do poeta brasileiro Antonio Miranda, da Editora Thesaurus, Brasília, 2011. Poeta de origem bielorrussa, Oleg Almeida é o tradutor da obra que serviu de texto para a montagem do espetáculo poético- musical do mesmo nome, que deu lugar aos grupos teatrais RAJATABLA (Venezuela) e CUATRO TABLAS (Perú).
ОЛЕГ АЛМЕЙДА представляет по-русски поэтический сборник ТВОЯ СТРАНА СЧАСТЛИВАЯ бразильского поэта Антониу Миранды, выпущенный издательством Тезаурус (Бразилиа, 2011). Поэт белорусского происхождения Олег Алмейда перевёл произведение, послужившее текстом одноимённого музыкально-поэтического спектакля, поставленного театральными коллективами РАХАТАБЛА (Венесуэла) и КУАТРО ТАБЛАС (Перу).
OLEG ALMEIDA lê (em russo) os poemas “Mataram o boi” e “Por um amor integral”, integrantes do livro de poemas TU PAÍS ESTÁ FELIZ, do poeta brasileiro Antonio Miranda, da Editora Thesaurus, Brasília, 2011. Poeta de origem bielorrussa, Oleg Almeida é o tradutor da obra que serviu de texto para a montagem do espetáculo poético-musical do mesmo nome, que deu lugar aos grupos teatrais RAJATABLA (Venezuela) e CUATRO TABLAS (Perú).
ОЛЕГ АЛМЕЙДА читает по-русски поэмы «Забили вола» и «За целостную любовь» из поэтического сборника ТВОЯ СТРАНА СЧАСТЛИВАЯ бразильского поэта Антониу Миранды, выпущенного издательством Тезаурус (Бразилиа, 2011). Поэт белорусского происхождения Олег Алмейда перевёл произведение, послужившее текстом одноимённого музыкально-поэтического спектакля, поставленного театральными коллективами РАХАТАБЛА (Венесуэла) и КУАТРО ТАБЛАС (Перу).
Página publicada em abril de 2008; ampliada e republicada em 2010