| Conexão Amazônica
Sou selva una
Querem-me toras
Se viva, verde
Se morta, dólar
Borboletras, borboletrem
Quando você borboleta
Eu te aero o porto
Quando você bicicleta
Eu me arco e flecha
Quando você me poeta
Eu te arreio rimas
Quando você se planeta
Eu te arejo o cosmos
Quando você me soletra
Eu te armo pousos
Quando você se escopeta
Eu te arte em balas
Quando você biblioteca
Eu te aço as bíblias
Quando você m’encapeta
Eu te a eros gozos
Na gira das girafas
Como são gostosas as girafas
olham as estrelas de frente
conversam nos olhos de Deus
penteiam em plenas nuvens
os cílios de Carmem Miranda
& aquelas antenas a ligá-las
aos desfiles das savanas
são gêmeas das senegalesas
na altura na graça & beleza
as pernas mais altas da África
são retilíneas falsas magras
as curvas cheias de carne
quadris de Noami Campbell
o andar de Gisele Bündchen
são afro-pop as top models
sacodem as bundas a valer
tão nuas em seus pijamas
de listras lindas & leopardas
ouvir dizer que elas dormem
dez minutos a cada hora
também pudera, natureza mátria
com aquele pescoço quilométrico
(que um dia ainda vou beijá-lo)
um cochilo (ah!!!) faz descansá-lo.
Assim sendo ofereço-lhes
um espaço de pouca mata
não tão afro como a África
mas confortável & afável
numa posição de vanguarda
aceitem, pois, minha pauta
um convite um cheque-mate:
Venham cumpridas girafas
(e isso não as desagravam)
dormir em minhas gravatas
O sono de quem lida em altas
nada custa, é puro charme
Ábsono
sambo espalhafatosamente
para dentro
como quem não quer nada
sambo parado
no espaço do meu corpo
com minhas víceras
meus testículos
meus intestinos
minhas moléculas
minhas cartilagens
minhas células em permanente renovação rumo à morte
meus glôbulos brancos vermelhos desbotados
meus neurônios
minha aura vital
minhas correntes sangüíneas
no trânsito intenso e interno de veias e vácuos
sambo com meus buracos
descalço
nu como nasci
meio preso meio solto
ábsono & absorto
quase com sono
sambo meio grogue
minha apoteose
é iogue
de mãos no bolso
Tremulai
Para José Roberto Aguilar,
Que fez a Bandeira dos Poetas
Bandeira de todas as bandeiras
Dançai nua no mastro que te ergue
Afastai de ti dos teus a luz das trevas
Anunciai as novas que em ti ferve
Tremulai teus trunfos em desatinos
Tremulai qual lençóis soltos no arame
Sem temores tumores sem tropeços
Ó bandeira da luz da chama em verve
Teus bestiais sonhos do impossível
Tua beleza de signos sinos símbolos
Merece o topo santo de uma tomada
Merece mais – quem sabe até um hino
Tremulai todos os tremas do poema
Tremulai no oratório santo e no Divino
Tremulai toda azul na onda cósmica
Tremulai do fim do poço ao infinito
Tremulai! De pé oh vítimas da fome
Tremulai! Nas bocas de uma favela
Tremulai! Bandeira branca Oxalá-ONU
Tremulai! Lusa África & índiamérica
LÍNGUA À BRASILEIRA
Ó órgão vernacular alongado
Hábil áspero ponteado
Móvel Nobel ágil tátil
Amálgama lusa malvada
Degusta deglute deflora
Mas qual flora antropofágica
Salva a pátria mal amada
Língua-de-trapo Língua solta
Língua ferina Língua douta
Língua cheia de saliva
Savará Língua-de-fogo e fósforo
Viva & declinativa
Língua fônica apócrifa
Lusófona & arcaica
Crioula iorubaica.
Língua-de-sogra Língua provecta
Língua morta & ressurecta
Língua tonal viperina
Palmo de neolatina
Poema em linha reta
Lusíadas no fim do túnel
Caetano não fica mudo
Nem “Seo” Manoel lá da esquina
Por ti Guesa Errante, afro-gueixa
O mar se abre o sol se deita
Por Mários de Sagarana
Por magos de Saramago
Viva os lábios!
Viva os livros!
Dos Rosas Campos & Netos
Os léxicos Andrades, os êxtases
Toda a síntese da sintaxe
Dos erros milionários
Desses malandros otários
Descartáveis, de gorjetas.
Língua afiada a Machado
Afinal, cabeça afeita
Desafinada índia-preta
Por cruzas mil linguageiras
A coisa mais Língua que existe
É o beijo da impureza
Desta Língua que adeja
Toda a brisa brasileira
Por mim
Tupi,
Por tu Guesa
Aviso
Jamais tente suicídio
Em barco salva-vidas
Desarme-se
Bala perdida Encontra coração solitário |