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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


JORGE AMANCIO 

 

 

Nasceu no Rio de Janeiro em 1953. Encontra-se em Brasília desde 1976, onde se licenciou em Física pela Universidade de Brasília (UnB) em 1981, lecionando

desde então na Secretaria Educacional do DF; participante e ativista de movimentos sociais de luta contra o preconceito racial.

 

Bibliografia: NEGROJORGEN , ed. Thesaurus, 2007; e participação nas antologias Contos e Poemas, prêmio Sinpro/DF, 1985; Fala Satélite Gama, 1986; Poemas e mais alguns dilemas, 1987; Coletivo de Poetas,  Sindicato dos Escritores no DF, 1992/94; Grito Logo Existo, antologia da revista Literatura, 1982; Rádio Jornal, 2o Concurso de Poesia, 1992; Zumbi, ed. OMO AIYÊ, 1995; VIII Concurso Literário Asefe, 2000; além de participações freqüentes em recitais do Coletivo de Poetas.                                                                                                  

 

 

Seleção e apresentação de Salomão Sousa

 

 

Eu e Outras Palavras


Mãe preta, pai preto
Idade não interessa
na certidão de nascimento
por simples erro
estava escrito Cor Parda

Cresceu nos bancos dos brancos
brincando de mocinho e bandido
sem nunca ficar com a mocinha
Acordou poeta de versos e prosa
viajou em bares, defecou em mancos
beijou bocas de amores e ódios

O que os olhos viram o poeta pariu
as dores, as cicatrizes, as injustiças
esculpiram o corpo, iluminaram a alma

A dança, a música, a vida, o inexplicável
convivem com o eu poeta
dividem a alegria de ser negro
e não distante existe uma África
uma história a ser contada

Em mim mora uma vontade,
uma verdade, um clamor,

um grito de amor,
um apelo, um negrume
por igualdade·.

 

 

 

A diva vida

                                                       

 

num compasso

alado

o arco-íris

desenhado

no plástico decote

tatua o pulsar

do sol

que reflete

ao seu toque

a vida

 

 

Alámòrere

o elemento
a base da criação
optou pela argila

à luz da artesã
pés que amassam
mãos que modelam

esculturas no barro
criador e criatura
sopro e vida

vida e pó

 

 

Iratômica

                                                      

nenhumatômica

uma é demasiatômica

duas é desastrômica

 

Triste bomba

Transporta o pó

Transpira e pulsa

Atônita grita

__ Atômico

 

átono atômico

ironiza a ira

átomo poder

ira-se o saber

átomos seres

respiram

 

átomocósmico

 

 

Presença

                                                      

Do criador

da luz e do verbo

do pecado e dos pecadores

a mulher está isenta

 

Das guerras

da fome, das privações

das trevas e dos possuídos

a mulher está isenta

 

Das humilhações

dos heróis, da política

dos letreiros e alto falantes

a mulher está isenta

 

Da vida e da alegria

da palavra e da sobrevivência

da vontade e continuação

a mulher é a presença

 

Das cores e fartura

das quatro fases da lua

da mãe do filho que vem

a mulher é a presença

 

Das fêmeas a mais bela

da terra a mais sábia

da justiça a mais fiel

Mulher, tu és a presença

 

 

Enlutar                                                    

 

O vexame qu'eu dei

foi como usasse calcinhas pretas

na pele transparente

 

Queria roubar o perfume

idiota de um barman

que usava jaqueta preta

 

Com sucesso consegui um conhaque

Macieira -

por sorte -

e com gosto de batom, barato,

que não saía da borda do copo

 

Dormi como um anjo nos braços de Mefisto

Acordei que nem quis Deus, Jesus ou Lúcifer

lúcido.

Queria uma canção

 

Tinha traduzido o desamor

Queria morrer como as cigarras

Fumantes e sóbrias

Inebriante e soberbas

 

 

Fim de Festa

                                                      

O corrimão da sala de jantar

rodopia em serpentina pelo ar

acompanha as escadas

sobe feito rolha de champanha

em festa de ano novo

 

Arredia, você escorrega de camisola

para buscar um bêbado sentado na sala

olha apavorada a nudez das garrafas

ensaia um roque, canta um bolero

entra sorrateiramente

 

Todos dormem,

enquanto na vitrola, Ray Charles

veste um paletó vermelho

entoando um blue-contry

 

As cadeiras cansadas de serem sentadas

estão de perna pr'o ar

e os olhos entre abertos

vêem as pernas saírem da camisola de dormir

 

Quem é Dolores que tem as pernas roliças

tatuadas pelas garrafas de cerveja?

 

Ritmadas pelo blues

as mãos sobem o corrimão

e os olhos entre abertos

tateiam o seu sexo.

 

 

Rosa Negra

                                                  

Noite

Que se mistura

Em orquídeas

Verte luz

Negra

 

Estrela

Que rouba do ar

O navegar

Pela pele

Negra

 

 

Constante

                                                      

Impune saiu da delegacia

Narciso procurou o espelho

Cantou um samba sincopado

 

Oxalá me livre de confusão

 

Negregado sem família

Saiu gingando para a vida

Temia a sirene da policia

 

Alerta as suas dívidas

 

Nervoso queria um emprego

Tenta soluções labirínticas

Em semanas de volta a delegacia

 

 

Minha Raça

Minha raça foi escrava
infantilizada ao som das chibatadas
educada para a invisibilidade
condenada a exclusão social

Minha raça é sobrevivente
dos navios negreiros da abolição
luta pela identidade de gente
clama por justiça e igualdade

Minha raça pixaim
encabeça o coro dos descontentes
freqüência alta no necrotério
cadeia prêmio da maior idade

Minha raça de seqüestrados
anônimos Zumbis libertários
conduzem a passos largos
o caminho para a igualdade

 

 

O Piloto

 

Nasceu no subúrbio quente

de Nossa Senhora da Penha

transitava de trem em trem

sonhava com o fundo do mar

 

Nadava na praia de Ramos

perto dos aeroplanos

construindo devagar

o desejo, piloto de submarino

 

Ver de perto os peixinhos

as baleias e os tubarões

tocar na vegetação

pesca submarina

 

Cresceu

sem passar do primeiro grau

aprendeu a se virar

trapaceou, roubou, traficou

só não matou, nem estuprou

 

Num dia de fuga

baleado, cambaleante

foi para a praia

caminhou mar adentro

até sumir

 

Virou submarino

ossada submarina

 

 

 

Página publicada em março de 2008.



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