|
|
|

JOANYR DE OLIVEIRA
Escritor pioneiro de Brasília, nasceu em Aimorés, MG, em 6.12.33. Bacharel em Direito, jornalista desde os 16 anos e Analista Legislativo (aposentado) da Câmara dos Deputados, depois de haver ingressado, também por concurso público, no quadro de Revisores do Departamento de Imprensa Nacional (Rio, 1959). Além de poeta, várias vezes laureado, é cronista e contista. Também antologista: Organizou Poetas de Brasília (1962), primeira obra literária editada no DF, Antologia dos poetas de Brasília (1971), Antologia da nova poesia evangélica (Rio, 1978), Brasília na poesia brasileira (Rio, 1982), Poesia de Brasília (Rio, 1998); Poemas para Brasília (2004) e Horas vagas (contos, 1981).
Obra poética: Minha lira, Rio, 1957; Cantares, Rio, 1977; O grito submerso, 1980; Casulos do silêncio, Rio, 1982; Soberanas mitologias e A cidade do medo, Anaheim, CA, EUA, 1991; Luta a(r)mada, id., id., 1992; Flagrantes Líricos, Buffton, OH, EUA, 1993; Pluricanto - trinta anos de poesia, 1996; Canção ao Filho do homem, Rio, 1998 e 2000; Vozes de bichos (infanto-juvenil), Rio, 2000 e 2002; Tempo de ceifar, 2002; A hora de Deus, Jaboatão, PE, 2002; 50 poemas escolhidos pelo autor, Rio, 2003; Por que chora a chuva? (infanto-juvenil), Rio, 2005 e (no prelo) Antologia pessoal - 7 e Biografia da cidade. Prosa: O horizonte e as setas (contos, em parceria com Anderson Braga Horta e outros, 1967), Caminhos do amor (contos, Rio, 1985), Entre os vivos e os mortos (romance, Rio, 1985). Participa de várias antologias (poemas, contos, crônicas) e outras publicações, no Brasil e no exterior: Argentina, Canadá, Espanha, EUA, França, Índia, Itália e Portugal.. Membro de academias e outras entidades culturais. Residiu em Vitória, Rio, São Paulo, Goiânia e cidades do interior e nos Estados Unidos (Nova Inglaterra e Califórnia).
Joanyr de Oliveira, faleceu na manhã do dia 05 de dezembro de 2009, no Hospital Santa Helena em Brasília e foi sepultado no Cemitério Campo da Esperança em Brasília, como pioneiro e figura destacada da cultura local e nacional.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
HAICAI
Sempre a olhar os céus,
errei. Bem mais errarei
contemplando a terra.
BRASÍLIA
A Lúcio Costa
Amorosa e clara,
a cidade
voa
com as próprias
asas.
Alegorias em pluma,
estátuas no rosto das águas.
Arcos, trevos, o verde.
Eixos geram esperança
na fronte do homem.
O lago ama com os braços,
abarcando o equilíbrio.
A terra afina os tímpanos
e as perfeitas retinas:
canta nas noites a fonte.
Artérias humanas e urbanas
em suas vigílias: áureas
dádivas: o branco, as superquadras.
(O pretérito nos mausoléus,
longe de nossos cânticos.)
Amorosa e clara,
a cidade
voa
com as próprias
asas.
O EU CENTAURO
O vento esculpe na nuvem
o meu eu todo centauro.
Nele me encanto. E o cavalgo,
vou trotando sobre o tempo.
As patas sobre o azul
jorram sendas, luminares.
Alimária e seus mistérios
imersos na Grécia antiga,
a renascer fulgurante
das constelações e do
ventre côncavo da lenda.
Bebo assim mitologias
a desaguar nas alturas.
A somar bailado e canto
das mil tribos submersas
no negro mar da memória,
de candentes epopéias,
sou as crinas tremulantes
e o retinir mais agudo
dos cascos enluarados.
O vento beija-me o corpo
em rodopios, no espaço.
Dois olhos resplandecentes
entre luas apagadas
espraiam meu níveo rosto
neste trotar de centauro.
ARS POETICA (I)
(Trad. de Jean R. Longland)
The poet dismisses
the laws of man.
He clothes himself in daws,
inhales the rounding of the hours.
On the steep side
of the body
his hand plucks the fruit.
The pulp, the seed,
the stalk, the anguish.
Passersby spit and die.
Golden epitaphs
on the mornig's shoulders.
Demons are angels
in the arches of the gale.
Melancholy heroes
wound the non-commitment
of clouds ands waters.
A bird on high
makes na eternal circle.
The poet re-invents
the geometry of the world.
he re-writes the warbling
and the pictorial flight.
CONDIÇÃO
Para ser livre, em célicos abismos
tributo aos sóis e miragens,
e a quanto voeja e paira
nos vagos portais dos ventos.
Para ser livre, aceito lâminas
e brasa e sede e cegueiras
pelos campos da carne
em fundos mundos opacos.
Para ser livre, ato mãos e mandíbula
à trajetória dos deuses,
beijo a luz de seus feitos
e os afogo em sombras.
Para ser livre, mergulho os pulsos
em dor e delírios,
em dejeto e salsugem.
(Vou fluindo no tempo.)
Para ser livre, apodero-me do azul
onde as vozes se aninham.
Sons alados me tangem
convertendo-me em brumas.
Para ser livre, me diluo e regresso
entre dorsos de arcanjos,
entre lodos e arpejos,
nas algemas das noites.
Par ser livre, sou áspero e rude
contra nuvens e rostos.
Meus bramidos soterram
regozijos e abraços.
Para ser livre, rumino os mausoléus
e a lividez dos corpos,
e as cãs e os agudos soluços,
e o luzir de epitáfios.
Para ser livre, oponho-me à pedra
e ao metal -e me sangro.
Escarneço dos laços
e dos guantes da terra.
Para ser livre, coabito
com sicários e insônias,
e apascento as loucuras. (Assim
as chaves do Reino me visitam.)
CANTARES II
(Colóquio)
Pelas pisadas dos rebanhos
na quietude do outono,
Deus espraia o mel de Sua voz.
Ouvi, ó tendas de pastores,
rodas de carros faraônicos,
eqüinos revestidos de auroras.
Tranças debruçadas no silêncio
somam-se à bondade das videiras
e aos cachos bailarinos da seara.
No dorso intangível da solidão
Deus espraia o mel de Sua voz.
O MENINO MUTILADO
Bagdá, seis de abril, domingo.
No subúrbio de Diala,
um menino chamado Ali Abbas
perdeu as mãos e o sonho.
O coração do mundo contraiu-se
ferido pela imagem enfática.
Seus pais se desintegraram
nas profundezas do sono.
Com que sonhariam no instante
em que o míssil desvairado
saltou sobre as velhas telhas
e o assombro total das paredes?
Os pais de Ali Abbas talvez
no seu amplo tapete onírico
navegassem o branco da paz.
O sonho, ingênuo e sem olhos,
não situa as portas detonadas.
O míssil de nome Tomahawk
bradou "não" e "não", e categórico
fez da casa sombras e ruínas.
Devorou falanges, falangetas,
os braços, o amanhã e o sorriso
do guri sonhador Ali Abbas.
Comovido indagou Ali Abbas:
"Quem sabe poderias trazer-me
meus dois braços de volta?"
As lágrimas envoltas no silêncio
afagaram as palavras do menino
e odiaram o míssil e seu ofício
de antropófago no céu de Bagdá.
NID
(Trad. de Jean-Paul Mestas)
Le petit oiseau sans plumes
sans chant ni voix,
retenu dans son envie d'ailes.
Le nid humble
dans la crainte du bec, des frayeurs,
touche la fragilité du corps.
Le petit oiseau:
don précoce à tressaillir dans la nuit.
Le nid:
main sans fatigue à cueillir la vie.
ESCRÚPULO
Deito o poema na aragem,
longe dos sacrilégios.
Os vassalos do metal,
os abismos, os delírios,
os tímpanos de pedra e cal,
as destras mãos na rapina
e as sinistras nos fuzis,
os decibéis desvairados
com quatro pedras nas mãos,
as volúpias dos cifrões,
os parlatórios e fossas,
as fomes palacianas,
os lobos condecorados
pelos guantes do Sistema
não fazem jus ao poema.
NEW YORK CITY
Os altos ponteiros da noite
apontam exaustos para o céu.
A chuva choraminga e cai
nos pés da Quinta Avenida.
Um negro talvez do Harlem,
rouca voz angelical,
oferta o reino de Deus.
Judeus de barba e casacos
em três manadas de espantos
a derramar-se na esquina.
Trinta passos saltitantes
a expor com jeito os trejeitos
contra vitrinas e nomes.
Um rio a jorrar piranhas
sobre o passeio apinhado.
A Estátua da Liberdade
matreira sorri no escuro
do topo de sua glória
e eis "The New York Times"
a pontificar soberbo
para reinos e universos.
Fumaça apunhala o ar,
conduz o peso das vidas.
Sonhos flutuam seus braços
em altas viagens brancas.
Passam passos de Al Capone,
passam dráculas.
Passam lânguidos
sobre fantasmas de bondes.
Há mortos embriagados.
Casais de corvos de Pöe
escarnecem da Lei Seca.
***
(Minas Gerais nem suspeita
deste doido mundo esconso.
Juntinhos na madrugada,
seus profetas ressonam...)
LA MATURA PAROLA
(Trad. de Mercedes la Valle)
La matura parola
cade e insanguina
nei giorni opachi la
parola
ferisce nella sua vigilia
la crosta del grave silenzio.
Nelle sirene dell'angustia
nei mormorii e fughe
la matura parola
apre le mani perplesse
nel dorso dei giorni.
Contro la valle della morte
la matura parola.
Nella matura parola
l'epitaffio delle ombre
e la conzone degli uomini.
PRELUDIO
Para Afonso Félix de Souza
Con bridas de fuego y espuma
entre el crepitar y el hielo,
sorbes néctar, cielos y brumas.
Caballo sin revés ni pelos,
crines ni cascos, los lomos
incorpóreos por los yermos.
Flechas de tropeles y espantos.
(Osadía, insania y miedos.)
Así, ave encarnada y fria
hecha el resto de las eras
para las orillas del infinito
- y el pensamiento se hiere
sobre diosas diluídas
em lo ignoto, en claridad y tinieblas.
Mi canto navega al aire.
(Tallo y dardo, oveja y fiera.)
|
---------------------------------------------------------------------------------------------
Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y traducción de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edición Loiovento, 2001.
ELEGIA N. 8
Assim maduro no exílio,
presa de tuas parábolas,
construo em fugaz semblante
longo e vago itinerário.
Quando —apenas mero relâmpago?—
nossas veredas se cruzaram
eu nem sequer em teu rosto
pousei as teias do olhar.
A poesia de minha boca
estendia-se na distância.
As retinas que me buscavam
do abissal de tua essência
diluíam-se em espaço
onde nem passei, menina.
Hoje espero teus vocábulos
que escalam trêmulos e tímidos
até as bordas e o âmago
de tanta perplexidade.
E diluído eu caminho
por incorpóreas muralhas.
Em dizeres que floresces
por vasto campo de ausências
és fonte de ásperos dilemas.
(Por que és tanto Esfinge, menina?)
RAÍZES DE HOMEM NO OUTONO
Grito roxo e grave
dos olhos profundos.
Semente das auroras
imprecisa estéril.
Onde a rosa-dos-ventos
e as flores matutinas?
Os caminhos murcharam,
os abismos não dormem.
O sorrir do homem
gotejante lívido.
A semente das auroras
no ventre do outono.
Eis a rosa-dos-ventos
cegueira e vertigem.
O corpo sem horizontes
rumina as raízes da solidão.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y traducción de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edición Loiovento, 2001.
ELEGÍA N. 8
Así madro en el exílio,
presa de tus parábolas,
construyo en fugaz semblante
largo y vago itinerário.
¿Cuándo —apenas mero relâmpago?—
nuestras veredas se cruzaron
yo ni siquiera en tu rostro
pose las redes de la mirada.
La poesía de mi boca
se extiende en la distancia.
Las retinas que me buscaban
desde tu esencia abismal
se diluían en el espacio
por donde ni pasé, niña.
Hoy espero tus vocablos
que escalan trêmulos y tímidos
hasta los bordes y la esencia
de tanta perplejidad.
Y diluído yo camino
por incorpóreas murallas.
Diciendo que floreces
por basto campo de ausências
eres fuente de ásperos dilemas.
(¿Por qué eres tanto Esfinge, niña)
RAÍCES DEL HOMBRE DE OTOÑO
Grito rojo y grave
de los ojos profundos.
Simiente de las auroras
imprecisa estéril.
¿Dónde la rosa de los vientos
y las flores matutinas?
Los caminos se marchitarán,
los abismos no duermen.
La sonrisa del hombre
goteante lívida.
La simiente de las auroras
en el vientre del otoño.
He aquí la rosa de los vientos
ceguera y vértigo.
El cuerpo sin horizontes
planea sobre las raíces de la soledad.
|
|