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JOSÉ GERALDO
José Geraldo Pires de Mello nasceu em 1924. Estreou em livro com seu De Braços Dados (coroa de sonetos), em 1975, seguindo-se outro livro de sonetos: Chama de Amor (1978), O Catavento Amarelo (1978) e A Mensagem do Arco-íris (1981), todos eles publicados em Brasília, onde reside. Os poemas a seguir foram extraídos da obra O biquíni de filó (1972-1974), publicada pelo Senado Federal em 1981, selecionados por Fernando Mendes Vianna.
TANAJURA
Por conta de um bom descanso
A que o meu gosto se inclina,
Para o banho de água quente,
Fui procurar a piscina.
Dentro d´água estava bom
Mas vi, na manhã tão linda,
Que a coisa na passarela
Bem melhor estava ainda.
Uma garota maciça
Entre as demais encontrei,
Com trajes tão reduzidos
Que juro que me espantei.
Usava um biquíni escasso,
Do qual, num critério justo,
Uma gravata far-se-ia,
Ligando as peças, a custo...
O sutiã não cumpria
Sua missão, que é de escora:
Escorava o que podia,
Deixando o resto de fora...
E a tanga-miniatura,
Numa dona tão rotunda,
Era assaz incompetente
Para conter tanta bunda...
Melhor de frente ou de costas?
Francamente, eu não sabia,
Porém, na terceira volta,
Jurei que a frente perdia,
Que a dona, pelo argumento
Das ancas fartas e duras,
Devia ser diplomada
- Rainha das Tanajuras!
Deixo o registro fiel,
De todo isento de enganos,
Que a pequena rebolava
Mas não cabia nos panos.
E vendo-a por trás, de novo,
No molejo em que ela ia,
Eu lhe dei, sem duvidar,
O grau dez que merecia!...
MOTE*
Não sou de quem Você gosta
Mas tenho o que Você quer.
GLOSA
Essa coisa de gostar
Envolve uma trama densa,
Com fatores conhecidos
E outros nos quais nem se pensa.
Simpatia e bem querer
Tem aí o seu lugar,
Ao lado de outros arranjos
Ligados ao verbo amar.
Com Você o que se passa?
E pensando cá comigo
Eu procuro a solução
Mas achá-la não consigo.
De algo, porém, estou certo
E me emprenho numa aposta:
Se Você gosta de alguém,
NÃO DE QUEM VOCÊ GOSTA.
Vem daí o meu lamento
E também meu desencanto;
E será que com Você
Não ocorre um outro tanto?
Ou seja, que Você passe
Pelo grande dissabor
De amar alguém que não preze,
Que não queira o seu amor?
E se a coisa for assim,
Eu me arrisco a perguntar:
E a chama do seu desejo
Quem é que vai aplacar?
Lembre, pois, quando ferverem
Seus ímpetos de mulher
Que eu posso não ser seu bem
MAS TENHO O QUE VOCÊ QUER.*
*Mote colhido no pára-choque de um caminhão.
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De
José Geraldo Pires-de-Mello
OFICINA DO SONETO
Brasília: Thesaurus/FAC , 2009.
294 p.ISBN978-85-7062-723-7
NOITES SEM TI
Cada noite é mais longa, e mais rude, e mais fria,
Se os braços não encontro em que tu me acalentas,
E suponho sem fim as minhas horas lentas,
Abismo em que se oculta a alvorada tardia...
Essas noites sem ti, cada qual mais vazia,
Cada qual mais envolta em sombras e tormentas...
Comigo, na vigília, essa estranha agonia
Que fica em teu lugar sempre que tu te ausentas...
Tu voltarás, eu sei... Não tardarás, tu dizes...
Mas nem tua promessa atenua os matizes
Do severo pesar que sinto em tua falta...
E nas noites sem ti, minha desdita eu vejo,
Vejo o sono tardar, e chego à noite alta,
Na amarga frustração da espera de teu beijo...
Contado, Pesado e Medido
Por que afirmas que tudo, nesta vida,
Tem de estar, de uma forma ou de outra forma,
Sujeito à condição, sujeito à norma
Da contagem, do peso e da medida?
Eu não creio na dor funda e sentida
Que em triplo de si mesma se transforma,
Nem creio num amor que se conforma
Com sete oitavos de uma despedida.
A décima potência do desejo,
Que pode interessar? Que vale o beijo,
Se na raiz quadrada se apresenta?
A mim, que as certas contas ando alheio,
Mais me importa a ternura do teu seio
Que o cosseno dos arcos que ele ostenta...
Niterói, 10,06.75
Pescadora
A Ydê Afonso
Que bela pescadora! Quem diria!
Entretanto, asseguro, não é trote,
Pois bem sei que sem remos e sem bote,
Podes fazer segura pescaria...
É que aos dotes da tua simpatia
Tu agora acrescentas mais um dote,
Na cruel atração que se irradia
Desse anzol pendurado em teu decote...
Posto dos atrativos bem no meio,
Por um cordão suspenso no teu seio,
É o instrumento calculado e certo.
E há de haver quem trocando fá por sol
- Sob o fascínio do que está por perto -
Acabe preso nesse teu anzol...
Brasília, 03.07.75
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