HENRYK SIEWIERSKI
Nasceu em Wroclaw, na Polônia, em 1951. Formou-se em Letras pela Universidade Jaguelloniana de Cracóvia, onde também era professor. Vive no Brasil desde 1986.
Publicou Encontro das Nações (1984), Como Ganhei o Brasil de Presente (1998), Um Paraíso Imperdível: Silva Rewrum Amazônico (2006), em polonês; e História da Literatura Polonesa (Editora UnB, 2000). Organizou Vida Conversível, de Agostinho da Silva (Assírio & Alvim, 1994). Traduziu obras de Bruno Schulz e Andrzej Szczypiorski, entre outros. É professor da Universidade de Brasília.
ÍTACA
Partindo para Ítaca
peça uma viagem longa.
K. KAVÁFIS
Pedi e me foi oferecida
Uma longa viagem a Ítaca.
Aprendiz e aventureiro
demorava mais do preciso
em cada porto,
nas ruas estreitas
dos bairros antigos,
altos e baixos,
que sabem receber o marinheiro,
sempre com as bandeiras
de lençóis a secar
e o choro das crianças
hino de alegria
para quem chega do mar.
Procurava também os sábios
nas praças e nas tabernas,
sorvia a filosofia
de hábitos diversos:
cebola, arrengue, canhaça...
Segui teu conselho,
viajava devagar,
enchendo o navio
de boas mercadorias.
Até que um dia
entramos numa baía,
gratos e felizes
como nunca,
baía de outros sonhos.
E agora não sei
se foi longe demais
ou se é este o fim
da viagem que pedi.
CANÇÃO DO NÃO-EXÍLIO
Para o meu filho Michał, na viagem
ao Paraguai, para pegar o visto brasileiro.
Este caminho dá pra Roma,
já estamos em Mato Grosso;
não jogue lixo pela janela
este caminho é nosso.
Este caminho dá pro mar,
seja qual for o destino;
não jogue lixo pela janela
este é o nosso caminho.
Este caminho dá pra noite,
tem sinais luminosos;
não jogue lixo pela janela
este caminho é nosso.
Este caminho dá pra casa,
não é caminho do exílio;
não jogue lixo pela janela,
este é o nosso caminho.
1987
TEODICÉIA
As provas não estão comigo
deixei-as do outro lado
do Atlântico.
Eram muito pesadas
para quem ia
à América.
Aqui não se fazem provas
de que Deus existe
e é bom.
Aqui a gente espera
que se explique
melhor.
Enquanto espera vive
e deixa-o viver
e ao Diabo.
E a vida corre sem prova
as provas,
do outro lado.
PERDOA-ME
Perdoa-me, língua materna,
tu, que me deste à luz,
recebeste tão pouco.
Em vez de ficar do teu lado,
fazer-te os saborosos pratos de poesia,
proteger dos bárbaros,
multiplicar o patrimônio,
fui nascer outra vez,
da outra,
e fiquei
longe de casa,
numa luz diferente
das outras estrelas.
Sei que jamais
pretendeste ser a única
a dar-me à luz,
que os meus irmãos
cuidam bem de ti,
que já me perdoaste,
e que guardas
as mais doces palavras
para cada encontro nosso.
Perdoa, perdoa sempre
a teu filho,
nem fiel,
nem pródigo.
NEOBARROCO
Bordando a capela mor
o cupim acabou com os milagres
passou dos limites
ou instaurou uma galeria
de arte neobarroca
no corpo da igreja de São Francisco
de Assis e da Paraíba.
João Pessoa, 1996
ALMENARA
Salto da Divisa
Vale do Jequitinhonha
olhar esfíngico das vacas
a estrada é fatal
búfalo, urubu, gavião
há milhões de anos o Sol
preparava o nosso combustível
nossa passagem
neste vale de lágrimas
é a energia solar que nos move
rumo à Almenara
diz Gil, químico, mineiro
Luiz dirige bem, baiano
a gramática do chão é com ele
tanta serra sem nome
e nome sem razão de ser
sem saber o ser a que se destina
Almenara, diz Luis, é posto do vigia
em árabe, numa rota de diamantes
dos portugueses
ainda muito chão pela frente
muita conversa para jogar fora.
Página criada em dezembro de 2007.
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