HERMENEGILDO BASTOS
Nasceu em Salvador (BA), em 1944. Está em Brasília desde 1966. Doutor em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo. Concluiu o pós-doutorado na Universidad Nacional Autónoma de México, em 2004. Foi professor convidado da UNAM em 2003 e 2004. Atualmente é Professor Associado da Universidade de Brasília.
Bibliografia: A dança (1968), Autópsia de sombras (1997). Diversos trabalhos publicados na área do ensaio.
Seleção e organização de Salomão Sousa
GALDINO OU A MORTE POR DIFERENTE
I
O final precedido pelo descuido:
“lesão corporal seguida de morte”
Outro final: a morte por cálculo:
no corpo estirado na pedra
os litros de fogo e álcool
Quem folheia o catálogo
da morte, e escolhe?
A morte por lapso, indiferença
a dele, a mais violenta
quando o corpo ao calor se encolhe
II
Os termos são:
1 — “O meio cruel”: a cama industrializada
com acabamento em chama
2 — “O motivo torpe”: o cinema
de bairro da agonia
3 — “A defesa impossível”:
na fuga sem pernas corre a lava
Queimado por esporte
inteiro morreu Galdino
tríplice morte
III
Pataxó eu também
sem bordunas, flechas
e outras mágicas
martelo as flautas
do réquiem:
ora igual, ora impossível
como reconhecer um homem
se só o ouvimos ao longe?
se só o vemos remoto, longínquo
como reconhecer um homem?
pelas vestes que protegem o corpo?
pelo corpo sem mais, em pele, queimado?
pelos gritos como palavras?
Um homem, como ele é por perto?
frente a si mesmo, cara a cara?
como reconhecer um homem, sua laia?
Indistinto é o homem?
Somos todos o tanto?
Ou nem tanto, ou só enquanto
o olhar fotografa e esquadrinha?
IV
À míngua, ou por excesso
ora igual e por isso distinto
ora distinto e então desigual
O jaez
faz
a diferença:
um homem não está pra se reconhecer
mas quem à dessemelhança
se reconhece
O SER E O NADO(A)
A poesia já está pronta
fora do poeta
como a vida
completa
O poeta vai e fere a poesia
quebra-a, destrata-a
mas não a esgota
Daí essa coisa gritante
que é ter o poeta
de fazer novos
poemas sempre
mas não como o rio dá peixe
sim como o peixe
na sua prática de rio
reinventa o nado
FALAR OUTRA LÍNGUA
Aqui aportei primitivo
em fábrica de alguns utensílios:
suelo, cuerpo, árbol
ya me contestan por sus nombres
por mi nombre me contestan
Finco em cada lugar um novo acento
la lámpara orienta o olhar
educa-me na rosa dos ventos
Organizo vozes, recojo paisajes
meço os terrenos, esquadrinho as margens
Soerguer la casa sílaba a sílaba
o chão por onde ir os pés
construir las ventanas é já abri-las
Fico de pé e inteiro estou em casa
e, tipógrafo, dibujo el verso:
la fora el temblor, la ciudad de México
DEPOIS DE DRUMMOND
Ontem: “mercadorias espreitam-me”
assim solenemente
Mas para ser sincero era recíproco
— ele também as espreitava
talvez mais jocosamente
ao infinito
Hoje deram o bote
já não há margem para espreitar
tudo é tediosamente excitante
A alma-corpo da mercadoria
clone sem máculas ou defeitos, o homem
enfim superior
colagem de mil pedaços
geneticamente selecionados
de inúmeros cadáveres
de onde se retiram os brilhantes
os catarros, ódio e outras imperfeições
Sem olhos, as coisas se espreitam
Página publicada em março de 2008 |