PRISÃO SATÂNICA
Não quero voltar a esta pedra que me consome,
Esta dor do desejo que não alimenta a fome.
Não quero comer deste prato de sangue talhado
Onde se encontra a vida do louco e amargurado.
Não quero deste repudioso pão dolorido,
Este afago do inferno, este guia perdido.
Não quero este anzol e esta letárgica tortura
Onde festejam juntos prazer e sepultura.
DEBAIXO DO CÉU
Mundo de decisivos quereres
E raríssimos pensares.
Mundo das imobilidades vegetais,
Dos homens, inertes animais.
Mundo dos desaproveitáveis espaços,
Dos psicotrópicos e marca-passos.
Mundo dos deleites perigosos,
Audaciosos abismos viciosos.
Mundo de festas e morfinas,
De loucuras e elípticas ruínas.
Mundo da promessa e do adeus,
Do esquecimento e da ausência de Deus.
GERAÇÃO PERDIDA
Ei, barman ,
Dê-me um copo de sexo
Bem gelado.
Pra eu entrar na night
Alucinado.
Traga-me também
Camisinhas de chiclete,
Só para espantar o medo
Das coisas caretas.
Um último pedido:
Três cubinhos de sugar
Aqui no meu nariz
Para adocicar a noitada
Da minha vida desgraçada.
O ESPELHO
Disse que a vida era feita de horizontes
Com uma mão cheia de gritos indefinidos.
Libertou um pássaro do bolso
Com suas agulhas quebradas,
Pregado sobre um sonho triste.
Arrancou as vestes apressadamente
E correu como um louco
Por sobre um caminho disforme
Deixando para trás uma perna,
Gotas açucaradas de sangue
E pedaços de um jornal rouco
Desenhado num abstrato
Auto-retrato.
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