DULCE BAPTISTA
Natural do Rio de Janeiro, onde passou infância e juventude, tendo se formado em Letras na PUC.
Vive em Brasília desde 1975. Trabalhou no serviço público quando da criação da Biblioteca Nacional de Agricultura, no contexto de um projeto conjunto da FAO (Food and Agriculture Organization, da ONU) e do Ministério da Agricultura. Diplomou-se em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília, tendo mestrado em Educação e doutorado em Ciência da Informação, também pela UnB.
Tem contos publicados na internet e é autora de Sob os céus do Planalto (contos, LGE, 2005).
(prosa poética)
O vira-lata
O focinho passeia entre cascas, papéis engordurados, chicletes. Paciência de cão vira-lata em meio ao vai-e-vem dos bípedes perdidos na multidão.
Ônibus interestaduais vomitam gente na rodoviária, enquanto o bicho prossegue em seu irracional afã de farejar sobras. Alguém em vão lhe assovia.
Fruto proibido
Detrás da porta o menino se esconde. Com mil cuidados retira o celofane vermelho do bombom de chocolate com cereja. Não está previsto que coma chocolate antes do almoço; ainda assim, o menino faz de conta que esqueceu as recomendações maternas e dá a primeira mordida.
O gosto inefável do fruto proibido faz com que esqueça por instantes de todas as interdições desse mundo.
Palavras
Palavras podem ser:
conexão; bálsamo; impulso; consagração.
Mas também:
pedrada; ferida; ruptura; decepção...
No pensamento e na fala
Assim como na escrita:
Dizem tudo, tudo escondem;
São e não são.
Tarde
Uma tarde,
Uma gente fria
Na sala quente
Do andar vazio...
O prédio é novo na esquina antiga
Cadê meu povo que não me liga...
Chego tarde, saio cedo...
Na floresta urbana o sol arde.
Guerra
Uma bomba lá, um tiro aqui;
Ônibus queimados, escombros...
Sangue.
No final da rua, um perigo sem aviso
Sob o céu, sob o céu, o mesmo céu
Do Rio de Janeiro, de Londres, Bagdá, Jerusalém, Beirute,
Nova York, Haifa, Madri, Ceilândia, São Paulo, Paris...
Azul, cinzento, enegrecido por cacos, fuligem, fumaça e ódio.
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