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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


  

CLIMÉRIO FERREIRA

 

Piauiense (Angical ), em Brasília desde 1962. Cantor, compositor e professor. 5 livros (poesia, entre os quais Essa Gente) publicados e um cd - Canção do Amor Tranqüilo (1995, direção artística de Clodo Ferreira). Participa de várias antologias. Com Clodo e Clésio , gravou 6 elipês. É parceiro de Ednardo e Dominguinhos. Tem músicas gravadas por Nara Leão, Elba Ramalho, Amelinha e Fagner.  


 

sem versos

 

não há motivo algum

pra que te faça versos

 

amo em ti:

 

teu corpo

e a alma nele contida

 

teus cabelos

em desalinho sobre a testa

 

as mil faces

da tua cara a cada carícia

 

teu andar de animal em extinção

ante o olhar atento do caçador

 

o ódio e o amor

que nos separa / une dentro da noite

 

 

condenação

 

perdão:

estou predestinado a ser feliz.

 

que fazer?

 

não sei torturar

nem quero o poder

a honra não me tenta

nem o sucesso almejo

 

menina,

nem teus apelos domésticos

nem teu regaço em brasa

detêm em mim esta poesia

 

sou feliz,

como o pássaro da anistia,

sobrevoando o céu tumultuado

 

executivos, heróis, soldados,

fanáticos, empresários, proprietários,

classe média em geral,

eu vos declaro a minha condenação:

 

sou cavalo do meu sonho 

 

 

chorão / 79

 

brasília é uma cidade

sem saudade

 

brasília é uma cidade

cheia de saudades

 

brasília é uma cidade?

 

pois quando lembrar de mim

pensa em mim numa cidade assim

sem tradição

 

 

mano velho

 

dez horas por dia

ele esmurra as águas

esquecido do próprio nome

e nem treme a fala

 

(na beira do Parnaíba

entre surrões e cofos

suspira e tenta sonhar

um resto de homem)

 

nas águas sujas do ex-rio

o vaporzinho de cores berrantes

cruza a lancha moderna e veloz

 

mano velho, setenta anos,

vê no progresso uma língua estranha

à sua fala — e cala.

 

 

esquadrão da morte

 

o supermercado dispara

a televisão dispara

o político dispara

a construção civil dispara

o imposto dispara

a educação dispara

o salário dispara

o patrão dispara

a religião dispara

o transporte dispara

 

o povo morre

crivado de bala

na praça pública

 

 

Extraídos de 16 PORRETAS.  Brasília: Gráfica do Sindicato dos Jornalistas, 1979. 129 p.

 

 

CANTO DO RIO

 

Chore não

Um rio não morre à toa

Corre na terra e não voa

Rio não é avião

É só um leito assentado

eternamente pousado

entre as agruras do chão

 

o rio é um berço da infância

onde se banha a lembrança

do nosso corpo molhado

O rio é uma estrada d'água

onde lavamos a mágoa

de um sonho não consumado

 

Falo do Parnaíba

rio que já faz tempo

vai morrendo pouco a pouco

vai pouco a pouco morrendo

 

Falo do Parnaíba

que deságua no meu peito

cheio de peixes graúdos

e de Torquatos pequenos

 

Seus coloridos vapores

as beiras cheias de cores

as margens dos meus amores

e dos mergulhos serenos

 

Falo de um rio bonito

que existiu noutro tempo

E hoje persiste mito

pela poesia do vento

 

 

JARDIM DO MULATO

 

De primeiro era um riacho

transparente e brilhante

encravado e navegante

no coração da infância

 

Nesse tempo era outra ânsia

ver da beira do riacho

meninas tomando banho

numa nudez elegante

 

De onde vem essa água

esguia lágrima de terra

costumeiramente seca

de onde vem essa água?

 

Hoje bem sei de um lugar

cheio de belas pessoas

E que também é o lar

de duas estranhas lagoas

 

Dizem que uma é tão funda

nunca se chega ao final

É como mágoa profunda

de um amor imortal

 

A outra lagoa é rasa

que espalha água no mato

E desta água vaza

É que nasceu o Mulato

 

O Mulato é o riacho

que me traspassa a memória

com muitos sonhos de baixo

Mas isso é outra história

 

 

CAMPO MAIOR

 

Quando à note a brisa bate forte

sobre a lagoa que eu sei de cor

trêmula palma sob o vento norte

balança a carnaúba de Campo Maior

 

Ah! Certas cidades

deixam saudades duras de curar

Há em certa idade

tal profundidade que vem do lugar

 

Campo Maior

Plenitudes, eternos paços

Plenos passos, ternos laços

rompem-se

 

Campo Maior

Altitudes, muitos pedaços

Alguns abraços, buscas de espaços

unem-se

 

 

Extraídos de MENEZES Y MORAES, Pseudônimo de José Menezes de Moraes, org. MAIS UNS: coletivo de poetas. Brasília: 1997.  199 p.   

 

 



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