De
Cassiano Nunes
AUTÓGRAFOS
Poesias inéditas
Brasília: [ Thesaurus ] 2010
"Edição especial comemorativa dos 89 anos
de Cassiano Nunes, in memoriam,
celebrados na Biblioteca Central
da Universidade de Brasília,
no dia 27 de abnl de 2010.
25 exemplares, com 3 poemas,
em edição organizada por
Maria de Jesus Evangelista (Maju).
Poema para o pai
Nunca entendi as caipirinhas
que tomavas,
com fiel renitência,
Indiferente às precauções médicas.
Os bombons chegavam de
madrugada da
Leoneza (Irmãos Florez),
e como que traziam
notícia do grande café, na noite equívoca
com seus cidadãos
representativos,
homens da noite,
cocotes, o tilintar
do Politeana
vedando a
entrada (ao Paraíso
cinematográico),
com uma fileira de
varões de metal dourado
que até cintila na minha memória.
Os bombons
desfaziam-se
em licor
seus envoltório
em papel brilhante
de variadas
cores,
nuançadas
eram
uma homenagem
muda, significavam
um lembrar de mim,
na noite urbana,
ambígua.
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ASSASSINATO DO MENINO
Para que o homem se sobreleve,
é preciso matar o menino.
Sinistro capricho
da mãe-natureza.
Nunca foram vistos
xifópagos iguais:
um homem
preso por uma membrana
a um menino!
Contemplo o seu rosto no espelho:
homem gasto e grisalho.
Apenas o pasmo dos meus olhos
denuncia a existência do menino.
É inútil ter pena!
Não há alternativa.
Para que o homem sobreviva
e, resoluto, possa
dar nobre forma ao seu destino:
é preciso matar o menino.
CONTEMPLANDO O PORTO DE NOVA IORQUE
A Francisco Azevedo
Amo o que há de ambíguo
num porto de mar,
que convida a partir
e ensina a ficar...
Talvez por ter sido
um prisioneiro,
cristalizei em mitos:
navio e marinheiro!
Agora corro mundo...
Não importa onde vá!
Levo comigo a música
do cais do Paquetá!
ALTA NOITE
Alta noite, leio Marianne Moore.
Passos no lajedo.
Olho através da grade.
De fora,
os dois gorjeiam cumprimentos
com a cordialidade aflita
do vício carecido.
Tão acessíveis suas carnes claras,
tão disponível
o frescor da juventude!
Partem desajeitados
com a recusa amável.
De novo, a solidão.
Há luz demais!
Procuro agora
versos pássaros.
Busco, também carente,
remota, salvadora canção.
LE DINER SUR L`HERBE
À noite, foram chegando pouco a pouco
ao parque umbroso
(a treva rumorejante).
Desconhecidos uns dos outros,
vinculava-os apenas
a opção profunda.
Com naturalidade,
desnudaram as almas,
afrouxando roupas...
O sexo acendeu como um fósforo.
Uma imensa felicidade
(tão breve!)
no desafogo.
Findo o improvisado festival,
retiraram-se sem despedidas
para os seus subúrbios,
dispostos a roer
por mais uma semana
a côdea do quotidiano.
CUIABÁ
Toco o útero da nossa América
nos teus becos.
(Beco do Candeeiro,
Beco do Cabo Agostinho),
nas tuas casas centenárias, rústicas,
baixas, despojadas
(e apenas adornadas de beirais duplos e até triplos),
que podiam ser de Itu ou do Crato,
na sua fisionomia brasileira.
Até a entrada de tua Delegacia de Polícia
oferece uma paz de convento colonial
(Quantas violências
não terá conhecido
tua cadeia retirada,
em madrugadas trágicas!).
Os bandeirantes não legaram o ouro,
os diamantes:
apenas uma semente
que és tu mesma, Cuiabá!
Cidade simples,
elementar,
mas fecunda,
como o ventre de todas as caboclas
– nossas irmãs e nossas vítimas –
deste imenso Mato Grosso
que é o nosso país.
Recebeste
no mais íntimo de teu seio
(contemplo amorosamente
no teu rosto sério cafuso)
o sêmen do Sonho Nacional.
Cidade central,
que estás parindo
o futuro Brasil!
SACRÁRIO
Poesia:
aprendizado perene
ou perito artesanato?
Ofício
é o que é:
modesto,
proletário.
Parvos
os que se proclamam
ricos,
vencedores.
Não há vitória
nesta parda rotina,
não obstante
o invisível resplendor.
Conserva, pois, humilde
em eucarístico silêncio,
encerrado no peito,
o deus.
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Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y Trad. Xosé Lois García
Edicións Laiovento
Santiago de Compostela, 2001
BLUE
Versos, como os que escrevi,
outros escreverão.
Canções, como as que cantei,
outros cantarão.
Já me substituiu
artesão mais hábil
na oficina.
Outras bocas te revelarão
volúpia mais fina.
Tudo o que morrer comigo
em mais bela forma
o mundo verá.
Perdoem-me
pela parcela mínima
—porém única!—
que não se repetirá.
HARLEN BLUE
Oh! noites de Harlem,
com as brisas de abril!
Que procuro em ti?
O sabor do Brasil?
O carinho mais quente
na promessa da cor
a que Camões chamava
a “pretidão do amor”?
O saxofone fala
de uma alma ferida
e lançada à sarjeta
— tal como a minha vida...
Sonho rubro da infância
que em cinzas se desfaz!
Na avenida do Harlem,
Meus olhos choram jazz.
NOCTURNO N. 1
Nunca me sinto pobre,
ao contemplar as estrelas.
Qualquer dói
(eu)
possui
o latifúndio do céu.
Aguardente negra e gratuita
a noite me embriaga.
Sonho melhor
acordado.
A MOEDA
Mendigo noturno,
não foi inútil
tua caminhada.
De madrugada,
exausto,
te atiras ao catre.
Mas, no fundo do tua bolsa,
se aninha,
moeda cintilante,
o poema.
MADRUGADA
Poemas
A Edson Nery da Fonseca
Recife: Pool Editorial, 1975
Este livro, em formato grande, sobre papel alaranjado, é desconhecido até dos amigos e admiradores do poeta Cassiano Nunes. Edição reduzida, fora de comércio, para colecionadores. Resgatei-o recentemente de um sebo na cidade de Salvador, Bahia, como uma preciosidade, apesar de sua singeleza. Amigo de Cassiano e do Edson, a obra tem um significado especial para mim. Além da qualidade dos poemas.
Antonio Miranda
ATRAÇÃO
Não me canso de olhar
o cinema das nádegas.
Mistério do redondo:
por que transverbera?
o que me obceca?
No contorno da onda,
preciosa borracha,
o compasso dos lábios
em voluptuoso traço.
O que consideras
cacto aberrante,
talvez não passe
de matiz do gosto.
ASPIRAÇÃO
A noite extraordinária em que vieres,
desabe um poderoso temporal...
Tensos, tácteis,
nos descobriremos
na praia escura da nudez.
No claro desafogo da madrugada,
o tamborilar da chuva
nos oferecerá seu jubiloso ritmo
e, à melodia líquida das calhas,
eu possa, com os olhos ardentes,
contemplar, na penumbra aconchegante,
teu corpo luminoso.
O LEGADO
Dá-me os abismos da noite
e seu mistério.
Estou cansado de ser óbvio
e de ser sincero.
Prefiro agora enigmas insolúveis
e herméticos sortilégios.
Repudiei os calendários
e seus primos, os relógios.
Despedir-me-ei em hieróglifos
de sentido para sempre encoberto.
Lego-te a máscara de gesso
e o silêncio do morto.
De
Cassiano Nunes
JORNADA
Poemas
São Paulo: Clube de Poesia, 1972
E vagueio na noite
procurando, insone,
a paixão sem rosto,
o amor sem nome...
POEMA DO AEROPORTO
Que ficou de mim nos quartos de hotel?
No verde quintal da infância?
Nas cidades estrangeiras
testemunhas da solidão?
Ah! a indiferença ofensiva das coisas!
A desmemória natural dos homens!
O ataque ininterrupto do Tempo!
Por que não sou como os marinheiros
que bebem esquecimento?
Antes pertenço
à espécie de pássaros,
que se embriagam de amplidões,
sem que lhes amorteça
o instinto do ninho.