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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CARLA ANDRADE BONIFÁCIO GOMES

 

 

é mineira de Belo Horizonte. Mora em Brasília há sete anos, onde trabalha como jornalista e é poeta em tempo integral. Alguns de seus poemas foram premiados em concursos em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. O caderno Pensar do jornal Correio Braziliense já publicou seis de suas poesias.

 

A poesia de Carla Andrade articula imagens que parecem brotar da fonte mais pura da poesia. Seus poemas raramente estão preocupados com um lastro de realidade, parecem estar muito mais submissos a uma vertiginosa – e difícil – sedução da imagem. Cada poema é um “tratado de perplexidades”, como ela mesma intitula um deles. “O real tem tardes de abismos / e os pássaros feridos em bandos / perdem-se dentro de mim”, diz o poema Doses do real, como se fosse estabelecido a cada momento uma cisão profunda entre a voz que fala no poema (o “mim”) e a realidade, cisão que exprime uma certa angústia, e provoca a desestruturacão de qualquer ideal de clareza na expressão.” ADALBERTO MüLLER

 

“Carla Andrade pisa firme no chão da poesia, levitando. Quanto mais leio, mais gosto de seu rebuliço linguageiro.  Mais me surpreende a fala crisálida, a habilidade com que desmonta e recria o seu sentido. / Os primeiros passos desta poeta mineira mostram que ela não joga com palavras à deriva. Antes, sai pulando marés e amarelinhas, voando pelos vendavais e abismos de um universo muito próprio, dona de asas e enlevos. / No desregramento com que ela tece os versos, há um lirismo enigmático provocando as pertinências. Vai deslocando as palavras, bricolando os sentidos (de quem a lê), divertida no jogo da poética, sábia e indiferente no que traduz da vida.” ANGÉLICA TORRES 

 

POEMAS DO LIVRO

Conjugação de Pingos de Chuva

(Brasília: LGE, 2007)

 

 

Como hipnotizar anzóis no tempo

 

Enfeitice

peões de mulheres

fantasiadas de nós

em chuvas

musicadas ao avesso.

 

Trance

o destino

bem acima

da última curva

do vento.

 

Liberte

o tropel de

tangos 

das vertigens

adormecidas

em sonetos.

 

E por último

faça um agrado,

como um sopro divino,

aos ogros verdes

da saudade.

 

Se tudo

resultar em nada,

descanse os olhos

nas estrelas

aliviadas de brilho

sem respostas.

 

 

Tratado das perplexidades

 

Transitório e absoluto,

com dentes para o vazio,

o mundo procura, de matuto,

saber para onde vai o rio.

 

O rio conduz barco

e homem de alquimia. 

Trança na água terra de luzes,

 deixa à mostra pedras,

                                varizes e estria.

À noite, com a boca de estrelas,

e pernas de avestruzes,

recolhe todos os sonhos.

  

Aí, o silêncio ensina os ouvidos

a calar o corpo.

E o lodo,

essa lembrança de rugas,

cata insetos antes do sono.

 

Pela manhã, o mundo quer acordos.

O rio, contemplação.

Maestros de peixes

escondem contratos de criação.

 

Não existe filosofia para pássaros,

o vôo em bando não requer citação,

o tempo não aceita remendos,

nem prestação.

 

O fim do rio não pertence ao mundo

   nem aos restos de nós mesmos... 

 

 

O motivo do silêncio

 

Dendê, a palavra.

É pimenta que anula.

Gravata do sentimento.

Para o amor, envergadura.

 

A palavra

tem pele dura,

sem âmago.

É entranha de

fagulha.

 

A palavra é bêbada,

branca de desejo.

Vândala armadura.

 

Prende em ecos

o ar azul do dialeto,

rouba mãos, grossas veias,

esconde os dentes do afeto.

 

Invade a semântica do silêncio

a metáfora dos amantes.

Subverte o não nascido,

transverte

o que deve ser

                     polpa.

A palavra endireita

o que é certo torto.

Empobrece da alma o abismo.

 

Corpos nus

não conjugam verbos na cama.

 

 

Labirintos

 

Uma voz de degraus —

inalcançáveis — está presa no porão

dos pensamentos.

 

Há muito tempo,

quando ninguém sabia

se pode mastigar o tempo

        (as horas são ainda

mais mastigáveis),

ela já estava lá.

 

Na infância, tinha dentes.

Presas de cristal...

Era o tato

e todos os dedos do mundo

formigas estranguladas

nuvens de baralhos do céu

carrosséis berrantes da alegria.

  

                   (Às vezes, disfarçava-se de saltos

e, em cima das árvores, perseguia pipas).

 

Na adolescência, piscava aos vaga-lumes.

Cheiro de enxame, gosto de fumaça,

censura de pêlos e

textura de ferida lívida.

A voz, epílogo de beijos

(sufocados de sonhos

em capítulos rosas).

 

Hoje, a voz, só uma música.

Sem cor e gosto de terra:

fala palavra, cospe sílaba.

Um buraco de ecos.

Degraus inalcançáveis, sepulcros

de memórias de framboesas.

 

 

Cateto oposto

 

O oval de mim

é  pulso na manhã,

língua no lamber do mar,

cabelos soltos em afã

nos obesos dedos do ar.

 

 O mim no aval do mundo:

 

 geometria das cores

de um pássaro, descora;

pó verde de homens

de suor, desbota.

 

Decora

ossos do calcanhar

de quem no oval

             do tempo, pisa em mim.

 

O mim, no que ainda resta

de oval no mundo, é quadrado,

olhos fundos de vigas,

dentes podres em filas.

 

Estilhaço, mais um dia.

No oval redondo da vida,

tantas covas na hipocrisia,

bichos mortos de sonhos.

 

 

 

Página publicada em novembro de 2007

 




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