|
|
|

Foto: Henrique Froes, 1968
ANGÉLICA TORRES LIMA
Angélica Torres Lima nasceu em Ipameri (GO), em 1952. Cursou Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Brasília (UnB) e Direção e Cenografia em Artes Cênicas, na Fefieg (atual Unirio). Formou-se em Comunicação pela UnB e especializou-se em edição de livros e periódicos pela Universidade de Wisconsin (EUA). Trabalhou em diversos jornais, geralmente em editorias de cultura. Publicou Sindicato de Estudantes (1986), pelo qual recebeu o Prêmio Mário Quintana de Poesia, do Sindicato dos Escritores de Brasília, e Solares (poesias, 1988), com o grupo Bric a Brac. É autora do texto de Koikwa, Um Buraco no Céu (Editora UnB, 1999). Autora dos livros de poesia Paleolírica (Brasília: Alô Comunicação, 1999) e O Poema quer ser Útil (Editora LGE,2006).
Fortuna crítica
“Angélica Torres Lima estabelece sua forma elíptica, fabricando, no momento mágico da criação, a interação exata entre o dito e o feito. Essência e existência resultam instantâneas na fulguração luminosa do poema”.
Reynaldo Jardim, sobre Paleolírica.
“Anoiteceu é um poema que T.S. Eliot assinaria. Girassol é magnífico. Admirável em sua contenção, em sua essencialidade... Madrugada de agosto é esplêndido! Uma obra-prima! Lembra o imortal poema da grande poeta Safo, de Mitilene. Ei-lo: ‘A lua declina, as Plêiades no ocaso; a noite vai a meio; o tempo no seu fluxo, e eu, em meu leito, sozinha’”. Oswaldino Marques, sobre Paleolírica.
“O que compõe neste momento minha totalidade – entidade e cavalo – é a sensação nítida do prazer de não ter morrido e, de repente, ser eleito para estar nesta contra-capa por esta poeta que me viu vindo por aí, enquanto construía (construía?) fazia (?) e vivia (!) esta poesia de altíssima qualidade”. Ziraldo Alves Pinto, sobre Sindicato de Estudantes.
“Seus poemas falam por si, têm luz própria, atravessarão os séculos e daqui a 145 anos, um menino, numa tarde de domingo, pegará o livro e será feliz por tê-lo lido, num dia perdido no tempo”. Nicolas Behr, sobre Solares.
Você não sabe, Angélica, mas quando cheguei ao Rio, fui fazer uma conferência, de novo sobre a (in)utilidade da poesia e, de repente, de memória, falei um poeminha do seu livro, de imenso e lúdico significado: ‘Tomara que caia/ um haicai / na tua saia’. É isso. Poesia é o que fica, é essa flor de palavras presa em nossa vida para sempre”. Affonso Romano de Sant’Anna, sobre O Poema Quer Ser Útil.
Foto: Nicolas Behr, 2006
Leia poemas dos livros:
De Luzidianas,
inédito (2007-08)
ENTARDESCENDO
A tarde não se olhou no espelho.
Sabia que a beleza aquele dia
era artefato insubmisso
a Miguel e Luzefel
E fez-se mel no crepúsculo
resplandecência, esmero.
Vestiu-se epifania no facho azulado
e nos raios dourados do sol
sobre os cabelos.
***
Desenho de giz:
apaga-se o sol
e o reflexo mutante
cintila
em nenhum significante
De que me serve
o mundo, Raimundo,
se no tempo
tudo é desmanche
constante?
****
Turbilhões de estrelas:
colares de silêncio cintilante
para a meia-noite
---------------------------------------------------------------------------------------------------------
De
O Poema Quer Ser Útil
(LGE/FAC. Brasília, 2006)
TRAVESSIA
Cidadã de um deserto tecnológico,
atravesso portas giratórias
escadas rolantes metrôs
estradas metálicas,
sobre pés e rodas.
Braços troncos rostos
roçam-se as auras
que o desconhecido devora.
São apenas nomes
de personagens e histórias.
Não mais que sonhos e miragens
de almas deserdadas,
e deus algum as incorpora
MATOU A FAMÍLIA
E FOI DORMIR
Reveillon no paraíso.
Caim mata Abel
Abel mata Caim
Adão mata Eva
Eva põe-lhe fim.
Pronto.
Teriam evitado
muita chateação.
MEU CERRADO
Encho os olhos
de paisagens
do cerrado
Um espírito rendado
emana da floresta
de ikebanas goianas
A claridade rasgada
o plano exato:
geografia instantânea
PEIXES ROLANTES
Devo deixar essa má água
(pelos meus olhos) vazar
e te levar na corredeira?
O preço é simples:
morte certa
lua sem verso
teu olhar sem mim
Ou contigo
rio abaixo
à cachoeira
peixes folhas
galhos pedras
laços sorte
e os anelos,
braços dados,
devo ir?
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Paleolírica: poemas
(1986-2000)
ANOITECEU
Os homens inauguram-se
como monumentos bruscos.
Toscas palavras de sal.
Dormem secas as cascas
lacrimais da madrugada
desvirginada por galos e cães.
No vazio abismal bebem
as torrentes do sono aceso.
E o sangue foge
para um campo arredio, sem lamas
enquanto a Via Láctea espreita
o leite latino da transmutação
GIRASSOL
Luz girassol no campo
Na torre o ponteiro gira
Lua flutua em Amsterdã
MADRUGADA DE AGOSTO
Cenas de sombras
sob o pensamento
memória
perdida no tempo
Só, outra vez
Nada na mente
enquanto esfria
o coração.
DESCONFIE
Não vás crer
tanto assim
num poeta
Vê a cota
ilusionista
que contém
o que ele conta
Ele é sempre
personagem
forasteiro
Experto
em camuflagem.
Um cigano
faz-de-conta.
Bêbeda de nuvens
Que nem corpo
livre d’ave calma
nave leve
n’água longe
neve-lava
de peito em desamor
levita
a brisa do verão
no alpendre.
Desdobram-se
aromas de lavanda
mundo úmido
ramagens de varanda
O mago
Da alma do velho
pássaro falecido
ouvi teu canto
rouco, manso
Sol ardente
dor incendiante.
Resisti
Num haicai de três asas
sem som de palavras
bem-te-vi
Vaga-lume
Encontro os pés do dia
longe da raiz do medo.
Silencia atento o desejo
e a brisa esverdeja a luz.
De chegada, a chuva
trespassando estorvos
e arroubos.
Enquanto afrouxo, só.
A noite amorenando
logo ali
na soleira do instante
o seu retorno
A senda
O acesso à senda
silenciosa sonhei.
Havia cigarras
nas espirais do escutar
abertas às idas e vindas
de vozes flutuantes
e sussurros de mar
Desesperança
Ele chega. Lê meus poemas.
Flerta meus livros
e discos como se
me tirando a roupa,
olhando meu corpo
detalhada
e suavemente
Acossada, excitada
erro em tudo o que faço.
Desato laços poéticos,
patético.
Represento um papel
em que minha assinatura
não parece fiel nem meu texto
o mais puro e o mais próximo
da nudez singela do sertão
Ele pensa que possui essa alma
nua. Ela sonha possuí-lo nu
e alma.
Mas o enredo concreto
transpassa em silêncio.
E o tempo passa
na ponta de um imenso lápis
riscando o calendário
dia após dia
de vento
Em sol maior
Deserto nas ruas.
Longe, sons
de trompete e flauta
no vento
Um quarto de lua
perfume de inverno
tanta flama nua
em fogo lento
A noite,
cafetina gigante,
finge em seu palco
não saber
que emoldura
um luminoso
e maculado
incêndio
A pena
Entre o hábito falho
da lembrança da morte
e a nudez da ausência
flagrada de golpe
o corte
o soco
a queda
o choque.
O vazio habitado,
agora sabendo,
de fato, do nada
valendo a pena
Extraídos de Paleolírica: poemas (1986-2000). Brasília: Alô Comunicação, 2000.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
De
SOLARES
(Bric a Brac/Coleção de Bolso.Brasília, 2000)
O CAMINHO DA NOITE
Entregue a meus sonhos despertos
o mundo nega-se a partir comigo
ensurdecido no silêncio da noite.
É toda feita de palavra
a espiral em que me movo.
Quebrarei o seu segredo.
Saltarei da última torre.
MORRE UM FAUNO
Um fauno passa
ecoando passos
entre carros mudos
Meia-noite, meio-dia
agonias roucas e surdas
trafegam no Largo do Proibido
carecia emprestar atenção:
o verde do tapete não esconde
nem revela natureza;
o fauno foge ao audível
silenciosamente
A buzina, o assaltante
o fauno se escondendo
sob os chassis
Na miragem
carruagens sulfurinas
por fogo envoltas:
o crepúsculo
o asfalto lavado em sangue
de animal divinhumano
numa fração de luz
de anos diáfanos e obscuros
a eternidade desconcertante
SOLARES DE YPAMERI
Vôo volátil, o vento
tocou-me o pensamento
em um jardim suspenso
| |