AMNERES SANTIAGO PEREIRA MAURÍCIO
Licenciada em Letras Clássicas e Vernáculo com bacharelado em Comunicação Social, ambos pela Universidade de Brasília (UnB).Poeta, jornalista e funcionária pública.
LIVROS PUBLICADOS: PEDRO PENSEIRO (novela; Thesaurus Editora, Brasília, 1980); HUMANÍSSIMA TRINDADE (poemas; Edição do Autor, Brasília, 1993); RUBI (poemas; Francisco Alves Editora, Rio de Janeiro, 1997); RAZÃO DO POEMA (poemas; Centro Cultural Banco do Brasil e Gráfica Takano, Brasília, 2000); ENTRE ELAS (poemas, Brasília, 2004. A autora publicou, também, em parceria com três poetas brasilienses, a coletânea EMQUATRO (poemas; Thesaurus Editora, Brasília, 1985).
Auto-retrato
Eu sempre andei assim
quase absorta
quase abstrata
quase perdida
Eu sempre entristeci
quase obscura
quase culpada
quase escondida
Eu sempre amei assim
quase obscena
quase extremada
quase exaurida
Eu sempre percebi
ser esquisita
quase obtusa
quase maldita
Eu sempre fui assim
quase uma atriz
sonhando ser o amor
e ser a amada
Eu sempre fui assim
quase exaltada
quase encantada
quase feliz.
Canção ao Sol
Acorda, amor, já é hora,
a aurora já levantou,
no campo, um galo tenor
compõe-lhe a trilha sonora.
Acorda, desperta, é o dia
tecendo as teias da história.
Serão de dor ou de glória
as horas que se anunciam?
Amor, onde te guiam os passos
quando se achega o perigo?
Cuidado, há cacos de vidro
misturados aos abraços.
A vida, amor, são opostos
harmônicos – rosa e espinho,
excesso entranhado ao ócio,
silêncio entre o burburinho.
Toma-me, amor, como um vinho
degustado ao crepúsculo
antes que o tempo, em seu curso,
nos atravesse o caminho.
Marco
Amor,
eu quero um espasmo
um sarro, um beijo, um orgasmo
um soro anti-solidão.
Amor,
eu quero uma mão
um gole, um brilho, um tempero,
vacina contra desespero.
Amor,
me acende o tesão
toca a língua em meu ouvido
sussurra que há salvação.
Amor,
me ancora em teus braços
habita em mim como um marco
um porto na escuridão.
Soneto
Antes que o tempo transborde
antes que a nascente estanque
antes que o desejo murche
e o outono se achegue. Antes
Que os olhos se embaracem
sob o impacto da velhice
(como se a alma dançasse
e o corpo só assistisse)
Antes que a luz esmoreça
antes que o dia anoiteça
toma-me, amor, uma vez mais
Antes, amor, que eu te esqueça
antes que a chama adormeça
como a espuma se desfaz.
Catedral
Uma asa
um ipê
uma ponte
o planalto:
vasto horizonte
Uma garça
uma orquídea
um bombeiro
o cerrado:
sopro vermelho
Uma praça
uma tribo
um pardal
os letreiros:
zona central
Uma puta
a polícia
um doleiro
a malícia:
setor hoteleiro
Um mendigo
uma infâmia
um menor
a insônia:
pátria do pó
Um protesto
um político
um turista
esplanada:
golpe de vista
A alvorada
tinge a catedral,
mãos em prece
sobre a Capital
Comovido o olhar
singra o leste,
onde um rúbido sol
resplandece
e o Congresso
quase alcança o céu,
duas conchas
entre arranha-céus
Dois candangos,
planalto central
e um relâmpago
e uma dor sideral.
Tanatos
Corpo mutilado
carne seca
esqueleto
ossos estéreis
boquiabertos
onde tua alma
árida caveira
onde o recheio
de uma vida inteira?
Resto de homem
destinado ao pó
não te reconheço
embora roas
minhas idéias
reflitas
meu cansaço
espelhes
meu estupor
embora quebres
embora doas
embora estales
quando te envergo
nos rituais do amor.
Ainda menina
vi teus contornos
em úmidos
laboratórios
escolares
na morte anunciada
do meu avô
e no entanto
só te encarei
muito mais tarde
no rosto inerte
de um meu irmão
naquela tarde.
Hoje, assisto-te
como a um filme
de terror
em cenas de guerra
em olhos de fome
na ferocidade
do bicho homem
caveira já te sonho
caveira já te sou
em certas noites
insones.
Espio-te
nas entrelinhas
de minha face
penetro teu vulto
tua intimidade
reconheço-te
no que em mim
é pó
no que em mim
é carne
e até te cuido
e até te agrado
buscando-te o vigor
para que não quebres
antes do tempo
e que me abrigues
quando se achegue
a idade.
Hoje, livro-te do perigo
com o comedimento
da maturidade
até que venha a morte
e minha alma leve
de ti se aparte
e enfim, então,
já nos veremos
face a face
de um lado
meu espírito pleno
de outro
tua débil
durabilidade.
Assistirei às despedidas
dos meus irmãos
e ao teu enterro
ainda grudada
à minha carne
e te direi adeus
e subirei aos céus
pois que te conheço:
corpo mutilado
carne seca
esqueleto.
Poemas do livro Entre Elas ( 2004, Projecto Editorial)
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