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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


AMNERES SANTIAGO PEREIRA MAURÍCIO

 

Licenciada em Letras Clássicas e Vernáculo com bacharelado em Comunicação Social, ambos pela Universidade de Brasília (UnB).Poeta, jornalista e funcionária pública.

 

LIVROS PUBLICADOS:         PEDRO PENSEIRO (novela; Thesaurus Editora, Brasília, 1980); HUMANÍSSIMA TRINDADE (poemas; Edição do Autor, Brasília, 1993); RUBI (poemas; Francisco Alves Editora, Rio de Janeiro, 1997); RAZÃO DO POEMA (poemas; Centro Cultural Banco do Brasil e Gráfica Takano, Brasília, 2000); ENTRE ELAS (poemas, Brasília, 2004. A autora publicou, também, em parceria com três poetas brasilienses, a coletânea EMQUATRO (poemas; Thesaurus Editora, Brasília, 1985).

 

 

Auto-retrato

 

Eu sempre andei assim

quase absorta

quase abstrata

quase perdida

 

Eu sempre entristeci

quase obscura

quase culpada

quase escondida

 

Eu sempre amei assim

quase obscena

quase extremada

quase exaurida

 

Eu sempre percebi

ser esquisita

quase obtusa

quase maldita

 

Eu sempre fui assim

quase uma atriz

sonhando ser o amor

e ser a amada

 

Eu sempre fui assim

quase exaltada

quase encantada

quase feliz.

 

 

Canção ao Sol 

 

Acorda, amor, já é hora,

a aurora já levantou,

no campo, um galo tenor

compõe-lhe a trilha sonora.

 

Acorda, desperta, é o dia

tecendo as teias da história.

Serão de dor ou de glória

as horas que se anunciam?

 

Amor, onde te guiam os passos

quando se achega o perigo?

Cuidado, há cacos de vidro

misturados aos abraços.

 

A vida, amor, são opostos

harmônicos – rosa e espinho,

excesso entranhado ao ócio,

silêncio entre o burburinho.

 

Toma-me, amor, como um vinho

degustado ao crepúsculo

antes que o tempo, em seu curso,

nos atravesse o caminho.

 

 

Marco

 

Amor,

eu quero um espasmo

um sarro, um beijo, um orgasmo

um soro anti-solidão.

 

Amor,

eu quero uma mão

um gole, um brilho, um tempero,

vacina contra desespero.

 

Amor,

me acende o tesão

toca a língua em meu ouvido

sussurra que há salvação.

 

Amor,

me ancora em teus braços 

habita em mim como um marco

um porto na escuridão. 

 

 

Soneto

 

Antes que o tempo transborde

antes que a nascente estanque

antes que o desejo murche

e o outono se achegue. Antes

 

Que os olhos se embaracem

sob o impacto da velhice

(como se a alma dançasse

e o corpo só assistisse)

 

Antes que a luz esmoreça

antes que o dia anoiteça

toma-me, amor, uma vez mais

 

Antes, amor, que eu te esqueça

antes que a chama adormeça

como a espuma se desfaz.

 

 

Catedral

 

Uma asa

um ipê

uma ponte

o planalto:

vasto horizonte

 

Uma garça

uma orquídea

um bombeiro

o cerrado:

sopro vermelho

 

Uma praça

uma tribo

um pardal

os letreiros:

zona central

 

Uma puta

a polícia

um doleiro

a malícia:

setor hoteleiro

 

Um mendigo

uma infâmia

um menor

a insônia: 

pátria do pó

 

Um protesto

um político

um turista

esplanada:

golpe de vista

 

A alvorada

tinge a catedral,

mãos em prece

sobre a Capital

 

Comovido o olhar

singra o leste,

onde um rúbido sol

resplandece

                  

e o Congresso

quase alcança o céu,

duas conchas

entre arranha-céus

 

Dois candangos,

planalto central

e um relâmpago

e uma dor sideral.

 

 

Tanatos

 

Corpo mutilado

carne seca

esqueleto

ossos estéreis

boquiabertos

onde tua alma

árida caveira

onde o recheio

de uma vida inteira?

 

Resto de homem

destinado ao pó

não te reconheço

embora roas

minhas idéias

reflitas

meu cansaço

espelhes

meu estupor

embora quebres

embora doas

embora estales

quando te envergo

nos rituais do amor.

 

Ainda menina

vi teus contornos

em úmidos

laboratórios

escolares

na morte anunciada

do meu avô

e no entanto

só te encarei

muito mais tarde

no rosto inerte

de um meu irmão

naquela tarde.

 

Hoje, assisto-te

como a um filme

de terror

em cenas de guerra

em olhos de fome

na ferocidade

do bicho homem

caveira já te sonho

caveira já te sou

em certas noites

insones.

 

Espio-te

nas entrelinhas

de minha face

penetro teu vulto

tua intimidade

reconheço-te

no que em mim

é pó

no que em mim

é carne

e até te cuido

e até te agrado

buscando-te o vigor

para que não quebres

antes do tempo

e que me abrigues

quando se achegue

a idade.

 

Hoje, livro-te do perigo

com o comedimento

da maturidade

até que venha a morte

e minha alma leve

de ti se aparte

e enfim, então,

já nos veremos

face a face

de um lado

meu espírito pleno

de outro

tua débil

durabilidade.

 

Assistirei às despedidas

dos meus irmãos

e ao teu enterro

ainda grudada

à minha carne

e te direi adeus

e subirei aos céus

pois que te conheço:

corpo mutilado

carne seca

esqueleto.

 

 

Poemas do livro Entre Elas ( 2004, Projecto Editorial)

 

 

 



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