Fonte: transnat.lesverts.fr
ÁLVARO FALEIROS
É doutor em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de São Paulo – USP. Professor da Universidade de Brasília (UnB).
Como tradutor publicou, entre outros, Latitudes: 9 poetas do Québec (Noroît/Nankin, 2003), O Bestiário, de Guillaume Apollinaire (Iluminuras, 1995) e Caligramas de Guillaume Apollinaire (Ateliê, 2007).
Obra poética: Coágulos (Iluminuras, 1995), Amapeando (Nankin, 1997), Transes (publicado na França em 2000), o Retirante que virou Presidente (Cordel, 2002), Auto do Boi d´Água (Cordel, 2003). Escreve também canções, algumas gravadas em seu cd Àgua Minha (2003).
Álvaro Faleiros é uma das vozes mais expressivas de nossa poesia contemporânea, partindo do coloquial para o social, atravessando os caminhos áridos e telúricos do cordelismo numa transmutação entre erudita e irreverente. Devemos apostar nele.
Antonio Miranda
Acaba de lançar o livro MEIO MUNDO, com ilustrações e Fernando Vilela, pela Ateliê Editorial, no final de 2007, de onde extraímos os poemas seguintes.
QUATRO SONETOS BÁRBAROS
I
enquanto lemos jornais, putos
com esses tempos de barbárie
nas ruas e calçadas, cáries
e esgotos enchem viadutos
há bandos de manos nas ruas
alguns trazem metralhadoras
seus dentes encravam esporas
na carne fresca das peruas
no topo de uma cobertura
festejam cheios de champanhe
lucros na bolsa de valores
no morro nego na fissura
neta país sem pai nem mãe
injeta e fuma as suas dores
II
poucos se arriscam numa prática
que é o exercício do faquir
que senta em prego e come faca
traça até vidro e o que mais vir
saber a delicada arte
exige treino horas a fio
mas de cortar na própria carne
só pobre entende no Brasil
nem todos têm essa coragem
tem uma classe no país
que nem em sonho vai cortar-se
os congressistas assim
bebem aos goles o desgaste
pensando ser um elixir
III
o bairro está barra pesada
são mil playboys tirando onda
que já chegam dando porrada
na primeira moça que encontram
julgando ser ela uma puta
param o carro e sem mais
um dá seus socos o outro chuta
os lábios e os dentes da paz
se livra das últimas sobras
da dita civilização
um pai que sai com a resposta:
esse problema é da moça
que tem pele fina senão
guentaria fácil a coça.
IV
já tô cansado desse troço
ficar com água até o pescoço
é um tropeço atrás do outro
fico sem tempo para o ócio
e quando paro vem de novo
cobrança dum outro negócio
viver assim eu já não posso
ter eu de reinventar o ovo
acho melhor ficar na minha
senão eu quebro meu pescoço
não posso dar eu de galinha
senão meu saco já não coço
manter o meu verso na linha
só se o tempo for meu sócio
MÉTHODES
(Excertos)
a cidade presa com ganchos
na garganta a tantos semáforos
aos espasmos de com seus trancos
espanca suas ruas e parques
tanto pó na boca da esquina
na menina dentro da noite
sob a suja fuligem fina
vem sacia os seios da morte
soturno meu vulto passeia
guizos de morcego me guiam
rangem de dor todos os freios
da urbe que ronca e buzina
NO UMBIGO DO EQUADOR
I
há sim
há saldo
II
no primeiro posto
do arquipélago
sobem homens
descem caixas
flamengo joga
nas ondas da parabólica
entre as girafas
escabeladas
doa açaís
III
ouvi os guizos dos macacos
chiados curtos
de folhas nos galhos
depois os saltos
anunciados
os meninos
na ponta dos rabos
dançando acrobacias
IV
curumim ri
voa liberto
salta no rio
antes do splash
na viga do vento
vinga o vazio
V
conversa fiarada
nem quero inventá
roda, fio
só quer é tecê
nela, fia
deixa mãe só
tecê lã
VI
preguiça moço
aqui tem muita
estira os braços da tarde
nem mexe à noite
balança rede
depois do almoço
preguiça dá abraço grande
ri fácil
preguiça
é quem caboclo
só maliça moço
Página publicada em dezembro de 2007.
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