ALBERTO BRESCIANI
Alberto Luiz Bresciani de Fontan Pereira (Rio de Janeiro, 4.7.1961) é ministro do Tribunal Superior do Trabalho. Ministro é o cargo. O trabalho é ser juiz, aliás, um trabalhão que o põe diante de milhares de processos e que, somado a uma severa autocrítica, não lhe deixa brechas para pensar em algum dia poder publicar poesias. E poesia para ele é uma das vias de salvação. No entanto, Bresciani viveu mais de vinte anos anos sem a revelar, até ir para o TST e lá encontrar um grupo de juízas e juízes que a cultuavam. Juntos, passaram a pesquisar os poetas clássicos e os contemporâneos, chegaram à poesia portuguesa e fizeram amizade com nomes de expressão e talento, de lá e de cá – ele conta. Pois, quem vê cargo nem sempre vislumbra o ser humano, ou o poeta, sensível que se que se esconde sob a toga, afogado na responsabilidade que o trabalho austero lhe exige. Conheci-o por meio de Antonio Miranda, na Biblioteca Nacional de Brasília e, apesar da sobriedade e do tratamento cuidadoso que o distinguem, na hora não o registrei como ministro do Judiciário. Salva por essa distração, do contrário me sentiria intimidada, pude depois receber dele alguns poemas que falam por si da elegância e da delicadeza de seu eu lírico, e compartilhá-los aqui, enquanto ele não os publica em livro. (Angélica Torres Lima. Agosto, 2009)
FILME
I
Ao mundo invisível
ao avesso do que é
onde fôssemos sólidos
no todo em transparência
que nos puxasse a planta mágica
retorno cauterizado para sempre
No ar eu sentiria
só o teu sentir meu corpo
um esquecimento cheio de ti
da pele de doces frutas
na boca o sumo e do mundo só
o teu corpo todo meu
como voar pelas voltas do pescoço
e dos ombros
volta ao torso e teus quadris
de volta sobre as pernas
agora nas minhas mãos
nos teus cabelos
II
Funda imersão
dessas que um filme
guarda caleidoscópico
sussurrado, ardente.
NUNCA
Um dia encontrei o nunca
preso ao teto
para onde nunca olhei
Tinha a aparência terrível
de uma gárgula
úmida de sangue
Mas sob os flagelos
era apenas
um pardal
tão sem pressa
desses que banais habitam
as árvores, a cegueira
Com voz serena e doce
disse que sendo nunca
era eterno, letra em todo nome
Soube quem era o nunca
e meu peito, arfando
pelo que não se esquece
aprendeu a respirar assim
um pouco menos
seca a parte que nunca mais.
SÉPALA
O seu rosto surge
em meio às folhas da pele
onde a mística seiva
invade a memória do sangue
Percebo como essa branda sépala
sobe em mim o feminino
cálice que lhe orna o ser
diáfano ser em branco
Fale-me de ventos, de terras
que os caminhos venceram
Só ao líquido das suas palavras
renasce o tempo, um rio para sentir.
ACUSAÇÃO
Você me acusa
pelas sombras
que nos cobrem
Não tenho a quem culpar
Guardamos a chave
quando passou a vigésima quinta hora
e os deuses de que fala
nunca souberam de nós
Estamos abandonados
na última vez
na impossível desdobradura
E eu afirmo:
amanhã ainda seremos
somente os dois
o verbo coagulando no escuro.
FIGO
E então a chance:
o desconhecido destino
tinha seu rosto
e se estendia ao alcance
da mão que abraçou
e adormeceu no amplo figo
cujos olhos eram luz
e também gemido
A posse da pele
veio como tudo enfim
como se os fluxos fizessem sentido
e nós vivêssemos a última cena
Mas há dias que não nascem
e se acaso irrompem
logo secam
definham nos espelhos
Deixei de existir
antes de saber. Ela não era
para além de mim
a imagem que testemunho
e minto apagar
embora toda a saliva
seja só a ilusão
que do seu corpo espero.
MILAGRES
Há milagres que se prendem
ao ar como anjos de pedra
no sempre da catedral
crescendo sobre nós
cortando a casa
o ventre
Toda fuga é inútil
a cegueira superior à visão
e a respiração quase sobrevive
à proximidade ou distância
de seu fogo
que pode ser pena, pode ser fome
e nos põe
frente a frente
com a epifania
Nas minhas mãos
o ramo que arde.
Dois anos depois, a pequena apresentação acima é prova de que, quando o poeta está pronto, mesmo ainda não se admitindo como tal, o movimento de publicar está preso por um fio, fácil de desenredar. Estimulado por amigos admiradores de sua poesia, e por outros que puderam conhecê-la a partir de então, Alberto Bresciani pôs-se a organizar os antigos poemas, junto com os novos que foram se acumulando. Em pouco mais de um ano estava com os originais reunidos e a vontade de publicá-los já maduros, a ponto de submeter o livro ao Grupo Editorial Record e dele lograr a aprovação. Incompleto Movimento veio a lume com o selo da José Olympio Editora, e, em 19 de outubro de 2011, foi lançado na Livraria Cultura/Norte, em Brasília, com sucesso. (Angélica Torres Lima. Outubro, 2011)
De
BRESCIANI, Alberto. Incompleto movimento.
Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2011. 110 p
Alberto Bresciani faz sua estreia em livro com uma linguagem própria, contemporânea, madura “há a espera/ muito, muito antes do eco” que agora reverbera! Lírico, contido, mas de uma expressividade emocionante. ANTONIO MIRANDA
HARMONIZAÇÃO
Demorasse a tua mão
um pouco mais
sobre o meu ombro
e me nasceriam asas
Em silêncio
logo o pressentimento
o pacto e o voo:
grades e escarpas
ruindo sob as pernas
cúmplices, entrelaçadas
as nossas.
TRANSPARÊNCIA
Sempre foi tarde
mas o peito
se encheu de espera
Tanto depois
é impossível esquecer
fingir que não.
AMPUTAÇÃO
Tenho sempre as mãos
Estas:
na direita
a tua luz
ardendo
pelo amargo das veias
Cortá-la
- o desejo –
faria o poema
mais escuro
(as letras todavia
ainda pulsando no ar).
POEMA INÉDITO:
PULO DO GATO
Recostado
à porta do tempo
esperava a transfiguração
a clareza nos olhos
voo, mergulho, fogo
(viria a revelação
troca de pele)
Mas terras e nomes
disseram flores e ainda
flechas e farsas
e a hora foi mais veloz
do que os sentidos
Perdi o momento de partir
o norte da migração
Agora
nas pausas da noite
fica o gosto pouco
de raízes
a tênue respiração
de pequenas asas
o desconhecimento
da vontade dos pés
e das mãos.
Página publicada em novembro de 2009; ampliada e republicada em novembro de 2011. |