POEMA ANÔNIMO
O poema que não fiz
(mas sempre canto)
está mais em mim
que muitos...
(pouco que escrevi)
é o mais inconstante
indefinido
dos poemas que vivi
o poema que não fiz
traduz meu mundo
está implícito...
único
em meu verso
já não sei quem sou
quem ele é
— fundiram-se todos os limites
o poema que não fiz
sorri comigo e sofre
e dorme e finge...
pensa a anônima forma
só para não ser,
enfim, subjuntivo
o poema que não fiz
surge do nada
e conspira a relatividade de tudo
(é a razão variável do verbo)
não há palavras
não há gestos
metáforas
tinta
que o descreva
o poema que não fiz
(mas sempre canto)
fecunda a própria poesia
que me seduz a vida inteira
A DEDUÇÃO PELA PEDRA
a João Cabral de Melo Neto
granito, calcário, seixo...
— caminhos de Cabral em pedra morta?
A pedra revolvida
lapidada
pelo gene da palavra
pedra
não a geologia estrutural da forma
pedra
morfológica
pedagógica
esculpida pelo verbo
(geometria complexa da metáfora0
Granito, calcário, seixo...
silente sopro de rocha
na fenda rude do magma
nasceram flores e versos
homens, cantigas e mágoas
pousaram rastros e ventos
passaram rios em águas
fingiram olhares cegos
ficaram cortes e chagas
tingido sol amarelo
em faces secas e magras
Granito, calcário, seixos...
— caminhos de Cabral em pedra morta?
pedra
palavra
verso
dimensões quanto infinitas...
muito além da configuração abstrata das pupilas.
O PASTOR E SUA ALDEIA
A Altino Caixeta de Castro
Eu creio que a eternidade nasce na aldeia
LUCIAN BLAGA
O ladrido infinito de um cão morto
nas vozes de outros cães é repetido
muito além, incessante ao nosso ouvido
mais além, muito além da voz de um cão
trago a luz no bolso e o sol na mão
e um rebanho de cabras e de estrelas
no desejo incomum de sempre tê-las
na distante lembrança de uma aldeia
pervagando a memória das areias
onde estrelas e cabras pastam sonhos
trago à sombra de alpendres breve sono
pressentido o rangido da tramela
despertado ao contorno da janela
no silêncio imortal da noite fria
canta o galo, outra vez, e denuncia
(se cantar tem a cor da lua cheia)
o prenúncio de um dia em outro dia
da eterna solidão — eterna aldeia.
AQUI JAZ UM SONETO
Uma idéia conspirada — um soneto —
que, ao certo, sangraria minha vida,
desprendeu-se da memória suicida
morrendo nos limites de um quarteto.
MAMULENGO
Sentir o mundo — movimento e graça —
bordar sorrisos, encarnar em pano.
(Esta emoção ao morto-vivo abraça)
gesto ilusório. Sábio? Não. Profano?
Irreal vida exsurge, incerto plano
de ser boneco e homem, palco e praça
ao projetar-se voz, trejeito — engano...
confuso rito que no olhar disfarça..
o mamulengo finge o rosto e tinge
de rubra cor os lábios, flor-esfinge,
erguida, efêmera, na instável face
incontroversa (esta anônima peça)
que no teatro de boneco expressa
o homem louco sem nenhum disfarce.
RES NULLIUS
Na rua um vira-lata morde flores
— socorro!
Gritam as rosas, os cravos, as papoulas,
os girassóis... apavorados
— cadê a jardinagem?
... um vira-lata morde flores
— o problema é grave,
as flores já sentiram nas próprias pétalas.