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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





LUCIANO MAIA

(1949-     )

 

Poeta, lingüista, ensaísta e tradutor, tem 15 livros publicados. Nasceu em Limoeiro do Norte, cidade cearense do Vale do Jaguaribe. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará, onde obteve o titulo de mestre em Literatura Brasileira. É professor na Universidade de Fortaleza – UNIFOR e titular da cadeira 23 da Academia Cearense de Letras.

 

 

Canto dos Elementos

 

Da terra

 

Terra que viu descer o sol da morte

sobre a geometria das ossadas.

Res nullius do fraco, jus do forte

latifúndio de léguas ostentadas.

 

Terra que tange os bichos contra a sorte

pelas longas veredas palmilhadas

a perseguirem abrigo noutro norte

sorvendo o pó das tórridas estradas.

 

Terra tostada pelo verão-muito

moendo o metro branco do arcabouço

abandonado pelo boi-defunto

 

que de sede e de fome virou osso

junto ao rio sem água que anda junto

da morte antiga de um inverno moço.

 




Do fogo

 

             Fogo do dia aceso nas chapadas

ao hálito de vésper estendidas

crepitando nas brisas abrasadas

das caatingas em cinzas consumidas. I

 

Fogo das capoeiras decepadas

queimando das ramagens ressequidas

o que restou de roça malogradas

no incêndio das secas repetidas.

 

Fogo nos horizontes das searas

pressagiando o duro e aspro jogo

do sol-verão, em múltiplas coivaras.

                                                     

Fogo que não respeita o cessar-fogo

que lhe propõem as chuvas (águas raras)

do Jaguaribe: em breve desafogo.


 



Da água

 

Água, surpresa líquida e celeste

visita antiga e repentino adeus

à terra embevecida (o vento-leste,

a leva e traz, nos desvarios seus).

 

Água pesada (látego dos céus) ,

golpeando o chão rude do Nordeste

e invadindo as terras dos heréus

dos arredados chapadões do agreste.

 

Água distante dos invernos tardos

nômade água do sertão sedento

salpicando de verde os solos pardos.

                                     

Água do rio, em curvo movimento

lavando as rugas desses morros áridos

que o Jaguaribe enxuga, à mão do vento.

 

Do sol

 

Sol que abrasados dias agiganta

no metal-ouro opaco dos ocasos

prendendo a voz na cela da garganta

calando o rio nos terrenos rasos.

 

Sol que desesconde nos atrasos

da safra pouca que não se adianta

nos forçando a colher, pelos acasos

um fruto amargo que nos desencanta.

 

Sol que incendeia os tetos dos atalhos

e não encurta a fome dos caminhos

repisados das solas dos bandalhos.

 

Sol que demove o vôo dos passarinhos

de esquálidos arbustos, já sem galhos

voando em vão na busca de outros ninhos.

 

 

 


Do vento

 

Vento que vem às cegas (olhos baços)

andrajoso e curvado de segredos

suportar o sol nos longos braços

portadores de fugas e de medos.

 

Vento, perfil do ar (sineiro alado)

que tange as brisas cinzas dos degredos

porto-horizonte dos enganos ledos.

 

Vento do exílio da água, vento torto

no vazio caminho em que não vi

chegar o rio no deserto porto.

 

Vento geral da voz Aracati

marinheiro fantasma de um mar morto

náufrago azul que quer morrer aqui.



 

Das vazias vazantes

 

Caminho de curvas

de curvas e pedras.

De pedras e croas

de croas e areias.

 

De areias e poços,

de poços vazados.

Vazados de sóis,

de sóis abrasados

 

Nas brasas dos dias

dos dias secados

secados das brisas

das brisas dos prados.

 

Vazias vazantes

areias movidas.

O sol veio antes

das ramas crescidas.

 

 



Do tempo-rio no temp(estivo)

 

O rio segue no tempo

subterrâneo e sozinho

sob a saudade chorada

que não molhou o caminho.

 

O rio não segue mais

na areia da aguespuma.

Só segue no tempo (seco)

sem mais ir a parte alguma.

 

O rio se vai com o tempo

(água desaparecida).

Segue no tempo sua morte

á espera de outra vida.

 

Porque do rio a nascente

que é seu motivo de vida

num tempo estanca a corrente

noutro tempo renascida.

 

Por isso, o rio não é rio

sob a areia caminhada

debaixo do tempo estio.

Noutro — água ressuscitada.

 





 

Da contextura intemporal

 

E na metamorfose da crisálida

e na lenta efeméride dos anos

e na passagem azul da nuvem pálida

no fluir de um projeto (inútil plano)

e no emigrar da nômade e esquálida

sombra veloz, da alma retirante

intemporal e rio permanece

e do sem-termo a contextura tece.

 

A voz da pedra e a cor da ventania

são pupilas do rio, no momento

 em que aderem à sua teimosia

na luta contra a convenção do tempo.

E na noite entrançada à luz do dia

sussurra a pedra o azul do sempre-vento.

E intemporal o rio permanece

e do sem-termo a contextura tece.

 

Nos olhos de descanso e movimento

dos gafanhotos e dos passarinhos

na sem-luz das formigas, no lamento

dos sapos e das jias e nos ninhos

da cascavel (sineiro tão atento)

o desprezo das horas (adivinhos

do rio intemporal que permanece

e do sem-termo a contextura tece).

Poemas extraídos da 7ª. Edição de JAGUARIBE – MEMÓRIAS DAS ÁGUAS. Ilustrações de Audifax Rios. São Paulo: Escrituras, 2005. 

 

 

 


DEPRECAÇÃO PÚBLICA

 

Ó memória do meu país!

Recompensa-nos com o clarão

dos pretéritos anos de luta

redescobre os caminhos

alumiados de coragem

percorridos de esperança.

E

doa-nos uma canção

numa praça suburbana

com rabecas e realejos

em idioma avoengo.

E

mais: opera um milagre:

faz das gerações futuras

as inventoras de um tempo

novo aguardando a certeza

dos dons das vozes do povo.

 

  

A VOCAÇÃO DA INDIFERENÇA

 

A desmemória a que te abandonaste

vai esgarçando o véu tecido a custo

por mãos amigas para te abrigar.

 

O abraço esquecido

o riso negado

o gesto abolido.

 

Quem se fia em tanta precariedade?

 

 

 


LABOR COM CIÊNCIA

 

Para José Alves Femandes

 

O sábio semeador

conhece a gleba mais rara:

sabe de longe e de cor

o solo afeito à seara.

Une ciência e labor

às rotas do chão que ara.

 

 

S A T O R

A R E P O

T E N E T

O P E R A

R O T A S

 

 

(Obs.: uma versão livre ou paráfrase do anônimo mas famoso palíndromo latino. A. M.)

 

Extraídos de VITRAL COM PÁSSAROS. Porto Alegre: Movimento, 2002.  A obra mereceu o Prêmio Osmundo Pontes de Litearatura 2001.

 

 

 

vento

 

Em fins de julho, o vento mordeu

as janelas de casa. Voltou

por muitas vezes do incerto lugar

em que se exila dos mortais

reabastecido de velocidade e fúria

e golpeou os quadros na varanda.

O vento trouxe um gemido essencial

 recordando as ditações originais

de vida e morte, na equilibrada

energia libertada entre as árvores

e os rios, as montanhas e as nuvens

eternas, sempre de passagem.

 

 




um maia distinguido

 

A Salomão Pinheiro Maia

 

Os mais insignes meus antepassados

vêm da nação romano-Ieonesa

e de godos ibero-arabizados

de uma ilustre família portuguesa.

 

Chegaram aos contornos aplainados

do Douro, deslembrados da nobreza

dos Ramírez, guerreiros destronados

por tramóias sequiosas de riqueza.

 

Já no Brasil, partiram pro Sertão

abandonando a lã pela cambraia

e o vinho verde pelo carrascão.

 

Mas ainda hoje, interior ou praia

é possível, em meio à multidão

por fala e gesto, distinguir-se um Maia.

 

 

Extraídos de AUTOBIOGRAFIA LÍRICA.  São Paulo: Escrituras, 1005.

 

 

 

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