Home
Sobre Antonio Miranda
Currículo Lattes
Grupo Renovación
Cuatro Tablas
Terra Brasilis
Em Destaque
Textos en Español
Xulio Formoso
Livro de Visitas
Colaboradores
Links Temáticos
Indique esta página
Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




JORGE TUFIC
(1930-2018)

 

Nasceu em Sena Madureira, no Acre e reside em Fortaleza, Ceará, Brasil.

 “Aí começou aos sete anos de idade, a ouvir o ponteio das violas sertanejas, acompanhando as trovas, os repentes e as saudades dos soldados da borracha, filhos do nordeste brasileiro.”

Mais de quarenta títulos publicados, entre prosa e poesia,. Os versos a seguir espelham melhor a sua biografia e a sua geografia humana.

JORGE TUFIC

O poeta JORGE TUFIC, convidado de honra, em companhia da poeta Alice Spindola, chegando a uma das sessões magnas da I BIENAL INTERNACIONAL DE POESIA DE BRASILIA,  3 a 7 de setembro de 2008,  no auditório do Museu Nacional.

AGENDÁRIO DE SOMBRAS

De
AGENDÁRIO DE SOMBRAS
Sonetos
Fortaleza: Realce Editora, 2009

 

 

SONETO INGLÊS PARA ANIBAL BEÇA

 

Hoje sei que o meu tempo foi de algemas.

Atado ao mundo, pássaros de areia

se largaram de mim: lestos fonemas

trazem de volta o néctar que incendeia.

Habitante da noite, volta e meia

danço e cavalgo estranhas partituras.

Onde a poesia? Látego e correia

a suíte é rosa, música e nervuras.

A lua imensa bebe, nas alturas

todo o clarão que sobe dos teus dedos.

0 mar se expande em conchas e loucuras

solos e flautas contam seus segredos.

 

Tenda de Omar Khayyam, quem não te habita,

salsa-songo na pauta transfinita?

 

 

SONETO PARA MANOEL DE BARROS

 

Louvas a corrosão que se mistura

aos nadifúndios ocos. Florescentes

cogumelos rastejam. Pedra escura

tem casaco de bichos reluzentes.

Ali mesmo entre locas e vertentes

pisca um olho que vê, sob a textura

desse chão fermentoso e ruídos quentes,

do lodo humano a exata miniatura.

Claridades, sem dúvida poesia

medra nos ermos; pregos e falenas

juntam-se ao podre e ao sol que dá bom-dia.

Além do mais, és singular e brota

de teu caule de larvas este apenas

fabulário que o tempo não derrota.

TUFIC, Jorge.  Quando as Noites Voavam.  1ª reimpressão. Manaus, AM: Editora Valer, 1999.  184 p.  14x21 cm. 

 

A ORIGEM DA NOITE

 

A Noite era um fantasma que se repartia

entre a luz e a escuridão.

 

Um lado desse fantasma era escuro e feio.

O outro lado era claro e bonito.

 

Nãmi, era como se chamava o dono da Noite.

 

Os grilos teciam as folhagens do sono

enquanto o pássaro japu tratava de afastar,

com seu bico,

as cortinas da madrugada.

 

Antes de dar a Noite a seus netos,

Nãmi comeu ipadu e fumou olé-o (cigarro).

 

O resto dessa estória ninguém sabe,

porque uma parte dela ficou com a Gente da Noite

e a outra parte ficou com a Gente do Dia.*
 

* Gente da Noite e Gente do Dia: Tukano e Desssana. N.A.

 

 

MAKUNAÍMA RECRIA O MUNDO

 

Depois das águas grandes,

o mundo ficou seco e oco.

Pedaços de carvão ficaram rolando no solo,

como ecos de pedras,

vozes de rio, gemidos de fogo.

Então, Makunaíma acordou.

E do barro de sua vigília

retirou aquele homem, sua forma de barco,

seu peito cavado.

 

No outro lado de Roraima

seus feitos continuaram.

Homens e mulheres foram sendo mudados

em rochas, antas e javalis.

Perto de Koimelemong, um cervo

mergulha na terra a cabeça-de-pedra.

Sobre uma grande onda na Serra de Aruaiang,

pousa uma cesta de luar.

A Serra do Mel parece conduzir

um silêncio de aragem

e vai sem ter vindo.

 

Muitas dessas pedras se elevam

No país dos ingleses, assim como peixes

E uma cesta que imita, por baixo,

Um perfil de mulher.

 

A savana da Serra de Mairani

são braços, pernas e cabeça

de um ladrão de urucu.

Aí também se entreabrem umas nádegas de pedra.

Cachoeiras acima,

o movimento dos peixes adentra na rocha.

 

Uma pedra chamada Mutum

canta como este

 quando alguém vai morrer.

vespas gigantes construíram suas casas

e zumbem na base mais profunda da serra.

 

Aqui fora, Makunaíma dá os últimos retoques

Nos bichos domésticos.

Depois disso ele deita na terra molhada

e se deixa esvair em milhares de seres

que nadam para o rio. 
 

Extraídos de  QUANDO AS NOITES VOAVAM.  Manaus: Editora Valer, 1999. 181 p.


 



CARTAGO FUI EU

 

Canta um pássaro morto sobre o dia

que a muitos outros já se misturou

algo abaixo dos ramos silencia,

treme a terra na pedra que restou.

 

Vem de que mares essa nostalgia

que meus ossos fenícios engessou?

De Cartago, talvez, da noite fria

transformada no pássaro que sou.

 

Esse canto noturno me extenua.

Vem de Cartago, sim; da negra lua

por dono o sol que abrasa, mas festeja.

 

Esplende a noite em látegos de urtiga.

Brinda-se à morte ao cálice da intriga.

Meu corpo, feito escombros, relampeja.  

 

 

O DESENCONTRO

 

Uma folha tremula

sobre o branco aflitivo dos garfos.

 

Passado & futuro

são fronteiras de aragem.

 

Formigas saem das tocas

 ganham asas de louça.

 

Cristais se fundem

no brinde sem eco.  

 

 

FRAGMENTO

 

À tarde e à noite

o poeta está ausente.

Relógio e calendário

ficaram do avesso.

Ele usa a freqüência dos búzios

e capta as notícias que envelhecem

antes da letra e do chumbo.

 

Percebe, então, que falta um elo

para cada coisa.

 

Possivelmente indecifrável.

 

PROSPECÇÃO

 

Ninguém te vê.

Só os ventos te penetram.

 

Ninguém que esteja saciado

ou faminto

necessita de ti.

 

Neste exato sem nome

reintegra-te à nuvem que passa

e ao canto das aves.

 

o poeta, já o disse,

é um ser transparente.

 

Invicto. Desnecessário

entre porcos, hienas

e outros viventes

 

solidariamente incompletos. 

 

Extraídos de POEMA-CORAL DAS ABELHAS. Fortaleza> Ed. Autor, 1999. 77 p.


 



AS TRÊS PORCAS

 

Uma coisa me olha desde que nasci.

Outra coisa me suga.

E ainda sobra uma terceira

que, lenta e pacientemente,

vai desfolhando os meus dias

como quem toca um realejo.
 

 

DE ÔNIBUS, PELO SERTÃO

 

Lá fora, o diameno.

Bloqueio de trevas,

cysne,

cântico de agulhas.

 

Em busca desse dia

eu parto: noutras paragens,

decerto,

há homens e bichos

que disputam vitórias,

se matam.

 

Mas aqui, só nuvens

rascunham fugacidades.

Paisagens, velozes,

não passam por mim.

 

Atravessamo-nos, apenas.

  

Extraídos de A INSÔNIA DOS GRILOS. Fortaleza: Ed. Autor, 1998.  100p.

 


Ilustrações de Audifax Rios

 

 

TUFIC, JorgeRetrado de Mãe.  São Paulo:Scortecci Editora, 1995.  69 p.  14x20,5 cm. 

 

 

x

 

Que restara de ti, dos teus pertences?

Um vestido de linho desbotado,

um sapato comum, chinelo torto,

e nada mais, ó nuvem, se restara.

Tudo posto num saco humilde e roto.

Eu quis, então, medir esse legado,

mas limites não vi para a tristeza.

Davas a sensação de que o tesouro

se enterrara contigo. E era tão leve

quanto um sopro lilás, cantiga doce,

mansidão perdulária, água de fonte.

Como dizer-te verdadeiramente

numa sílaba só? Que eternidade
pode igualar-se à voz desta saudade?

 

TUFIC, Jorge.   Guardanapos Pintados com Vinho.  Fortaleza, CE: Realcer Edirtora e Indústria Gráfica, 2008.  92 p.  15x21,5 cm. 

14

 

O que é seminal? Uma data:

1918.

O rosto de algum Picasso:

1905.

Traços, cores, letras,

volumes

biombos

cordames: a jaula

o verdugo.

 

 

15

 

A pedra

no esforço

de alar-se,

o pássaro

no de

petri/

ficar

se.

 

TUFIC, Jorge.   Boleka - A Onça invisível.  Capa, ilustrações e projeto gráfico: Audifax Rios. São Paulo: Scortecci Editora,  1995.  107 p. ilus. 14x20,5 cm.

 


TUFIC, Jorge.   Dueto para Sopro e Corda.   2ª. ed.   São Paulo: Edição do Autor, 2000.   98 p.   14,5x20,5 cm. 

 

SONETO PARA BOCAGE

 

Que sabes tu de mim, rosto sereno,

mão armada de cálamo, chinelo

diante do pé lanhado e não pequeno,

em tudo a imagem de polichinelo?

 

Que sabes do que sou, profundo anelo,

sempre avesso ao teu Iodo, embora ameno

ou pálido me adentro em teu castelo

e bebo do teu vinho e teu veneno?

 

Que sabes deste outro que procuro,

se reverbero enquanto te consomes,

e entre nós se levanta um novo muro?

 

Fardo que me aprisiona, quem imagina

ser um monstro fugaz, com tantos nomes

a fera em que me escondo e me assassina?

 

TUFIC, JorgeVaranda de pássaros.  Manaus, AM: Edições Madrugada; Sergio Cardoso & Cia. Ltda (Editôres), 1956?  67 p.  16x22 cm. 

         SOB O ARCO DA LUA NOVA

         As horas correm por baixo
         onde está a cidade está em mim.

         Luzes são as minhas veias
         que já não lavam meus olhos.

         Cada vez mais com as mãos sujas
         e o rosto de quem não sabe

         Para onde vão tantas ruas.
         Nem mesmo a estátua que pesa

         Sobre corcéis libertados
         tem gestos que não são meus.

         Sob o arco da lua nova
         regatos banham limites...

         Onde estou que vagueio
         como a buscar o outro lado

         da imagem dupla que sou?

 

         O PEIXE

         1

         Sem querer desenho um peixe.
         Quase igual, na cor extinta do mergulho,
         aos que ficaram sob a areia cansada
         de um rio.

         Como outros tem a cauda velejante
         e caminha por dentro, esguio,
         de toda coisa branca
         onde a luz não penetra.

         Para distrair quem o contempla
         (pois não pediu que o inventassem)
         ele se veste de turvo
         e percorre, caladamente,
         de uma a uma as paredes do silêncio
         feito onde lâmpadas apodrecem...

         2

         Às vezes, no passeio distraído,
         uma ou outra criança,
         chega os olhos ao vidro renitente.

         E é quando todos os rostos
         se banham
         numa difusa claridade
         de aquários inviolados.

 

TUFIC, Jorge.  Poema-Coral das Abelhas.  2ª. edição revista e aumentada.  Fortaleza, CE: Expressão Gráfica Editora, 2010.  104 p.  15x21 cm.   (Menção Especial da Academia Mineira de Letras (2003), Prêmio Ideal Clube de Fortaleza (2004).  ISBN 978-85-7563-628-2.   Ex. Biblioteca Nacional de Brasília, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 O FRAGMENTO

 À tarde e à noite
 O poeta está ausente.
 Relógio e calendário
 Ficaram do avesso.
 Ele usa a frequência dos búzios
 E capta as notícias que envelhecem
 Antes da letra e do chumbo.
 Percebe, então, que falta um elo
 Para cada coisa.
 Possivelmente indecifrável.

 

A OUTRA PAISAGEM

Um tempo de celulose
e mosquitos dourados
desconstrói meu caminho.

Subprodutos de cardo,
as palavras ferem ou
se vestem de aroma.

Assim terá sido: o quando
seco, é passado ou vinho
de plantas enfermas.

Estatuetas mutiladas
ainda exibem cornijas
sob o céu de ferrugem.

 

TUFIC, Jorge. Os mitos da criação e outros poemas.   Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.   77 p.  14x21,5 cm.  (Coleção Poesia Hoje, vol. 36. Série Novos Poetas do Brasil).   Capa: Van Pereira.Inclui uma caricatura do autor por Anisio Mello.  Editado sob os ausp~icios da União Brasileira de Escritores – AM. Ex. Biblioteca Nacional de Brasília, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

         CRONOS

         O tempo é a preguiça dos deuses,
         o incesto de Gea,
         a vingança de Cronos,
         o grito de metal que se alarga
         dos testículos de Urano.

         O tempo é filho da tragédia,
         irmão dos sexos que inaugura,
         pai de todos os fetos que dormem
         nos penedos de Creta.

         O tempo é o sangue de Urano,
         a fonte de Hebe,
         a cítara de Apolo.

         O tempo é a imagem dispersas de Cronos
         que assiste, e devora.

 

         AVATAR

         Nada fui, nada sou
         desde que me visito.

         São-no, contudo,
         aqueles que vislumbram
         em cada momento
         a sigla aquática de um peixe,
         as inscrições errantes de um crustáceo,
         o traço diurno dos seres que se misturam,
         e a passagem final do alado cavalo branco
         que de todas as minhas vestes
         compõe seu galope.

 

TUFIC, Jorge.  Poesia reunida. Onze livros de poemas de Jorge Tufic.  Manaus, AM: Edições Puxirum, 1987.  340 p.  14,3x21,5 cm.  Inclui textos dos livros: Varanda de Pássaros (1956); Pequena Antologia Madrugada (1958); Chão sem Mácula (1966); Faturação do Ócio (1974); Os Códigos Abertos (1978); Lâmina Agreste (1978); Cordelim de Alfarrábios (1979); Os Mitos da Criação e Outros Poemas (1980); Sagapanema (1981); Oficina de Textos (1982); Carta Genética (inédito). Ex. Biblioteca Nacional de Brasília, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

         Os bichos empalhados

         Numa vitrine de aeroporto
         o meu susto nos olhos dos bichos
         empalhados
         Apesar de bichos, todos
         bichinhos brasileiros.
         A mão do empalhador, a mão do mestre,
         o bálsamo da palha
         a postura mecânica do veado
         o esgar da coruja
         a quietude das aves restituídas
         ao salto livre
         do pouso incorreto,
         nada mais acusa
         nem redime
         o teque silencioso do gatilho
         a fúria cega da bala
         o final da caçada.

         Nos vidros líquidos da vitrine,
         meus olhos também ficam
         (subitamente) imóveis,
         quando os bichos despertam.


         A jaula

         Ando em meu corpo , meu corpo lasso.
         A identidade, o colt, primeiras rugas
         no espelho do vizinho; a roupa leve
         resguardando meu cheiro minhas fugas.

         Nesta jaula eu caminho, o vento empurra
         a sombra, a voz, o brilho articulado
         que outras feras emitem de outras jaulas
         também feitas de sangue e amor negado.

         Um sistema de alarme impõe o medo,
         os zíperes da boca, estes silêncios
         de algemas curtas, números, concedo.

         Qualquer dia eu rebento: do esqueleto
         faço um barco de velas como a noite,
         e ganho o mar nas águas de um soneto.
       

    

 

TUFIC, Jorge.  Varanda de pássaros.  Manaus, AM: Sérgio Cardoso & Cia. (Editores), s.d.   67 p.  (Edições Madrugada)  17x21 cm (Inclui um dedicatória no exemplar assinada em 1956)   Ex. bibl. Antonio Miranda

 

         SOB O ARCO DA LUA NOVA

         As horas correm por baixo
         onde a cidade está em mim.

         Luzes são as minhas velas
         que já não lavam meus olhos.

         Cada vez naus com as mãos sujas
         e o rosto de quem não sabe

         para onde vão tantas ruas.
         Nem mesmo a estátua que pesa

         sobre corcéis libertados
         tem gestos que não são meus.

         Sob o arco da lua nova
         regatos banham limites...

         Onde estou eu que vagueio
         como a buscar o outro lado

         da imagem dupla que sou?


 

Página ampliada e republicada em julho de 2015. Ampliada em abril de 2017. Ampliada em maio de 2017.

Voltar à página Voltar ao topo da página

 

 

 
 
 
Home Poetas de A a Z Indique este site Sobre A. Miranda Contato
counter create hit
Envie mensagem a webmaster@antoniomiranda.com.br sobre este site da Web.
Copyright © 2004 Antonio Miranda
 
Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Home Contato Página de música Click aqui para pesquisar