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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




JORGE TUFIC
(1930-     )

 

Nasceu em Sena Madureira, no Acre e reside em Fortaleza, Ceará, Brasil.

 “Aí começou aos sete anos de idade, a ouvir o ponteio das violas sertanejas, acompanhando as trovas, os repentes e as saudades dos soldados da borracha, filhos do nordeste brasileiro.”

Mais de quarenta títulos publicados, entre prosa e poesia,. Os versos a seguir espelham melhor a sua biografia e a sua geografia humana.

JORGE TUFIC

O poeta JORGE TUFIC, convidado de honra, em companhia da poeta Alice Spindola, chegando a uma das sessões magnas da I BIENAL INTERNACIONAL DE POESIA DE BRASILIA,  3 a 7 de setembro de 2008,  no auditório do Museu Nacional.

 



 

A ORIGEM DA NOITE

 

A Noite era um fantasma que se repartia

entre a luz e a escuridão.

 

Um lado desse fantasma era escuro e feio.

O outro lado era claro e bonito.

 

Nãmi, era como se chamava o dono da Noite.

 

Os grilos teciam as folhagens do sono

enquanto o pássaro japu tratava de afastar,

com seu bico,

as cortinas da madrugada.

 

Antes de dar a Noite a seus netos,

Nãmi comeu ipadu e fumou olé-o (cigarro).

 

O resto dessa estória ninguém sabe,

porque uma parte dela ficou com a Gente da Noite

e a outra parte ficou com a Gente do Dia.*
 

* Gente da Noite e Gente do Dia: Tukano e Desssana. N.A.

 

 

MAKUNAÍMA RECRIA O MUNDO

 

Depois das águas grandes,

o mundo ficou seco e oco.

Pedaços de carvão ficaram rolando no solo,

como ecos de pedras,

vozes de rio, gemidos de fogo.

Então, Makunaíma acordou.

E do barro de sua vigília

retirou aquele homem, sua forma de barco,

seu peito cavado.

 

No outro lado de Roraima

seus feitos continuaram.

Homens e mulheres foram sendo mudados

em rochas, antas e javalis.

Perto de Koimelemong, um cervo

mergulha na terra a cabeça-de-pedra.

Sobre uma grande onda na Serra de Aruaiang,

pousa uma cesta de luar.

A Serra do Mel parece conduzir

um silêncio de aragem

e vai sem ter vindo.

 

Muitas dessas pedras se elevam

No país dos ingleses, assim como peixes

E uma cesta que imita, por baixo,

Um perfil de mulher.

 

A savana da Serra de Mairani

são braços, pernas e cabeça

de um ladrão de urucu.

Aí também se entreabrem umas nádegas de pedra.

Cachoeiras acima,

o movimento dos peixes adentra na rocha.

 

Uma pedra chamada Mutum

canta como este

 quando alguém vai morrer.

vespas gigantes construíram suas casas

e zumbem na base mais profunda da serra.

 

Aqui fora, Makunaíma dá os últimos retoques

Nos bichos domésticos.

Depois disso ele deita na terra molhada

e se deixa esvair em milhares de seres

que nadam para o rio. 
 

Extraídos de  QUANDO AS NOITES VOAVAM.  Manaus: Editora Valer, 1999. 181 p.


 



CARTAGO FUI EU

 

Canta um pássaro morto sobre o dia

que a muitos outros já se misturou

algo abaixo dos ramos silencia,

treme a terra na pedra que restou.

 

Vem de que mares essa nostalgia

que meus ossos fenícios engessou?

De Cartago, talvez, da noite fria

transformada no pássaro que sou.

 

Esse canto noturno me extenua.

Vem de Cartago, sim; da negra lua

por dono o sol que abrasa, mas festeja.

 

Esplende a noite em látegos de urtiga.

Brinda-se à morte ao cálice da intriga.

Meu corpo, feito escombros, relampeja.  

 

 

O DESENCONTRO

 

Uma folha tremula

sobre o branco aflitivo dos garfos.

 

Passado & futuro

são fronteiras de aragem.

 

Formigas saem das tocas

 ganham asas de louça.

 

Cristais se fundem

no brinde sem eco.  

 

 

FRAGMENTO

 

À tarde e à noite

o poeta está ausente.

Relógio e calendário

ficaram do avesso.

Ele usa a freqüência dos búzios

e capta as notícias que envelhecem

antes da letra e do chumbo.

 

Percebe, então, que falta um elo

para cada coisa.

 

Possivelmente indecifrável.

 

PROSPECÇÃO

 

Ninguém te vê.

Só os ventos te penetram.

 

Ninguém que esteja saciado

ou faminto

necessita de ti.

 

Neste exato sem nome

reintegra-te à nuvem que passa

e ao canto das aves.

 

o poeta, já o disse,

é um ser transparente.

 

Invicto. Desnecessário

entre porcos, hienas

e outros viventes

 

solidariamente incompletos. 

 

Extraídos de POEMA-CORAL DAS ABELHAS. Fortaleza> Ed. Autor, 1999. 77 p.


 



AS TRÊS PORCAS

 

Uma coisa me olha desde que nasci.

Outra coisa me suga.

E ainda sobra uma terceira

que, lenta e pacientemente,

vai desfolhando os meus dias

como quem toca um realejo.
 

 

DE ÔNIBUS, PELO SERTÃO

 

Lá fora, o diameno.

Bloqueio de trevas,

cysne,

cântico de agulhas.

 

Em busca desse dia

eu parto: noutras paragens,

decerto,

há homens e bichos

que disputam vitórias,

se matam.

 

Mas aqui, só nuvens

rascunham fugacidades.

Paisagens, velozes,

não passam por mim.

 

Atravessamo-nos, apenas.

  

Extraídos de A INSÔNIA DOS GRILOS. Fortaleza: Ed. Autor, 1998.  100p.

 


Ilustrações de Audifax Rios


 

 

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