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ARY ALBUQUERQUE
ALBUQUERQUE, Ary. Momentos divididos. Rio de Janeiro: Topbooks, 2007. 1
89 p. ISBN 978-85-7475-134-4
“É visível em ARY ALBUQUERQUE uma forte e indissociável filiação aolirismo cósmico, ao resgate da memoria e ao eterno, conquanto escorregadio e traiçoeiro, tma do amor. Enfim, uma poesía que, à semelhança da que escreveu Dylan Thomas, se debruça sobre as questões seminais da existencia humana: o temo, a norte, o nascimento, o amor, a infancia. Surpreende neste livro o milagre da comunhão que consegue operar o poeta entre a espontaneidade dos versos e o extremo apuro com que os entalha, impedindo assim que os contamine aquele transbordamento da emoçao que acabou por desencaminar incontáveis de seus pares. Sua lição, ao contrario, é a da austeridae expressiva, daquela sábia e seca parcimônia que caracteriza a alma nordestina, vale dizer: essa flor que, como ensina João Cabral de Melo Nweto, não deve ser perfumada em demasia, mas sim cultivada “com mão certa, pouca e extrema”. E é nessa efusão contida que consiste a emotion recollected in tranquility com que nos brinda e comove o poeta Ary Albuquerque.” IVAN JUNQUEIRA, da Academia Brasileira de Letras.
ECO
Meu eco extgravasou-se em desatino,
perdeu sem saber o seu destino,
sumiu no mar em desaprumo
e sem querer, coitado,
perdeu seu rumo.
Melhor ficasse aquí olhando o sol que brilha,
pastorando no céu o cintilar de estrelas,
ou me envolvesse inteiro com a noite fría,
respirando o ar seco que o espaço trilha.
Fortaleza, maio/2002
LAMENTAÇÕES
Não choro a chuva.
Não choro o vento.
Choro o meu lamento
por alguma coisa que me fez triste
e triste vivo ao relento.
Fortaleza, janeiro/2002
ALBUQUERQUE, Ary. Tríade poética. Seleção de José Alcides Pinto. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003. 337 p. ISBN 85-7475-068-9
CENA
Amantes, arrebatados pelo estreito abraço,
buscam o prazer.
Na calma da noite, o silêncio
contempla o desejo e tece em seu íntimo
o impulso do amor.
Pela janela aberta, entra a brisa
e as roupas desalinhadas sobre a cadeira
repousam sem pressa.
Amantes de ontem e de hoje,
até onde irá o sentimento
que lhes une a alma?
Aeroporto Ezeiza
Buenos Aires fevereiro/04
CHUVA
Noite convulsa.
Disparam no céu
relâmpagos e trovões.
Cai a chuva
que sorrateira escorre
parede abaixo,
indo desaguar na calçada.
Vazia a rua.
Lâmpadas ofuscadas
são espectros da noite
inventadas pela solidão.
A lua desaparece no dilúvio da noite.
Praia de Marambaia
Carnaval, 2004
PRINCÍPIO E FIM
Pedra nua, imóvel,
em teu sono profundo repousa
o princípio e o fim de tudo.
Memórias perdidas
e almas esquecidas
beijam-te a silhueta.
Estática diante da paisagem desértica
fincada no solo, esquecida,
és símbolo da eternidade
e continuarás pedra, sonho, enigma.
City Hotel
Buenos Aires, fevereiro/04
Página publicada em agosto de 2011
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