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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

Fonte: www.secrel.com.br/jpoesia

 

ADRIANO ESPÍNOLA

 

Nasceu em Fortaleza em 1952. Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Ceará e professor-leitor na Université Stendhal-Grenoble III (1989-91). Autor de vários livros de poesia e de antologias em português e em inglês.

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS  / TEXTOS EN ESPAÑOL

 

LÍNGUA-MAR

 

A língua em que navego, marinheiro,

na proa das vogais e consoantes,

é a que me chega em ondas incessantes

à praia deste poema aventureiro.

É a língua portuguesa, a que primeiro

transpôs o abismo e as dores velejantes,

no mistério das águas mais distantes,

e que agora me banha por inteiro.

Língua de sol, espuma e maresia,

que a nau dos sonhadores-navegantes

atravessa a caminho dos instantes,

cruzando o Bojador de cada dia.

Ó língua-mar , viajando em todos nós.

No teu sal, singra errante a minha voz.

 

 

O JANGADEIRO

 

Jangadas amarelas, azuis, brancas,

logo invadem o verde mar bravio,

o mesmo que Iracema, em arrepio,

sentiu banhar de sonho as suas ancas.

Que importa a lenda, ao longe, na história,

se elas cruzam, ligeiras, nesse instante,

o horizonte esticado da memória,

tornando o que se vê mito incessante?

As velas vão e voltam, incontidas,

sobre as ondas (do tempo). O jangadeiro

repete antigos gestos de outras vidas

feitas de sal e sonho verdadeiro.

Qual Ulisses, buscando, repentino,

a sua ilha, o seu rosto e o seu destino.

 

 

AS DUNAS

         Tu, hora, revoas nas dunas.

                   Paul Celan

Avançam,

sorrateiras,

tangidas pela mão simétrica

do vento.

 

A luz da manhã sobre elas

escorre

como ondas na maré

cheia.

Verdevivos,

os arbustos se agarram

em desespero

à alva memória da areia.

 

Ali,

as dunas espreitam a cidade

— o bote de areia armado —

à espera do tempo.

 

Tácitas,

levam nas costas,

esvoaçante,

o presente;

nos peitos, o passado

semovente.

 

 

A VELHA

 

Esculpida em silêncio,

sentada

e sábia,

fita o horizonte da mágoa.

Ao lado,

o mar murmura

as sílabas do ocaso.

 

Ó beleza antiga e súbita:

sobre seu ombro

o instante

se debruça, iluminado.

 

 

A RENDEIRA

 

Na teia da manhã que se desvela,

a rendeira compõe seu labirinto,

movendo sem saber e por instinto

a rede dos instantes numa tela.

Ponto a ponto, paciente, tenta ela

traçar no branco linho mais distinto

a trama de um desenho tão sucinto

como a jornada humana se revela.

Em frente, o mar desfia a eternidade

noutra tela de espuma e esquecimento

enquanto, estrelaçado, o pensamento

costura sobre o sonho a realidade.

Em que perdida tela mais extrema

foi tecida a rendeira e este poema?

 

 

FORTALEZA  REVISITED

 

Sou outro

em mim,

 

memória

da cidade,

 

que se sonha

outra vez

 

na claridade.

 

 

Extraídos de 41 POETAS DO RIO, org, Moacyr Félix.  Rio de Janeiro: FUNARTE, 1998.  514 p.

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De

EM TRÂNSITO

TAXI . METRÔ

2ª. Ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996

TAXI

(...)

Confira o lance:

 

         toda sabedoria passa pela carne;

         toda iluminação atravessa os sentidos;

         toda visão viaja pelo corpo,

         — ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,

         v ertigem da consciência esbarrando entre o céu e a terra,

         nas paredes das costelas,

         pequeno cais nervoso de todas as sensações

                   à beira do nada

                            —oceano calado te espreitando,

                            as amarras do corpo

                            partindo-se a cada minuto

                            do porto de si mesmo...

 

E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,

soprando ávido

         no teu ouvido

                   a lição luminosa:

                            sessenta e novembro                 

                                      69.

 

E tua língua veloz: love

                                                       love

                                                                              logos.

 

Mais depressa!

Direto para um motel na Praia do Futuro!

 

(...)

 

METRÔ

(...)

 

Raiva entre os dentes.

Raiva de mastigar um osso e a impossibilidade metafísica

         de ser trezentos dentro de mim.

Raiva súbita de não poder ser um,

         mas trezentos e cinqüenta fora de mim,

 

Mários, Marias, Maricas

(não sendo nem um nem outro – todos!),

entrando e saindo por entre gestos/portas

                                      elevadores/olhares,

 

ofertando não simpatia — mas desprezo;

         não prazer — mas porradas

 

— para que minha atração humana e solidariedade

possam ser as mais completas e inúteis possíveis!

 

 

Ora, vamos.

Essa gente só é bela para os olhos desprevenidos

e a arte mentirosa. De perto fede, faminta de si mesma.

(Que importa saber dos outros, eu que não sei de mim?!)

 

Por isso, danem-se todos.

Nada de canção amiga, meu chapa,

que distribua um segredo como quem ama ou sorri.

 

Outro é o tempo.

 

Quero estar sozinho,

bêbado do mundo e lúcido de mim.

 

Não me venham com análises existenciais e políticas,

campanhas ecológicas ou esotéricas

— que me interessam?

Se masturbem com elas até morrer!

Nada muda nada nesta hora.

Nem proponham contatos, contratos, confidências

sobre minha mesa pensa

de tantos papos e planos!

 

Não salvarei nem iluminarei ninguém.

Não defenderei as matas nem as matilhas de amanhã.

Não escreverei cartas de protesto à redação,

nem de solidariedade às baleias assassinadas.

Não denunciarei a falta de flores nas praças públicas,

nem a falta de dentes na tua boca ressentida!

 



 

TEXTOS EN ESPAÑOL

Traducciones de Eduardo Langagne

 

Las chinelas

 

Como um perro

suelto

 

el Sol súbito

salta

 

por la ventana

del nuevo

 

día.

 

Y ahí

de pie

 

de la cama

se enreda

 

en el viejo

par

 

de chinelas.

 

 

EL CLAVO

 

Lo que

más duele

 

no es

el retrato

 

en la pared

 

sino

el clavo

 

ahí

clavado

 

persistente

 

en el centro

de la

 

mancha

 

del cuadro

ausente. 

 

 

Poemas extraídos de ALFORJA – REVISTA DE POESÍA, México, n; XIX, Invierno 2001, que edita el poeta José Ángel Leyva. Parte de una edición especial dedicada a la poesía brasileña, organizada por Floriano Martins.

 

 

Página ampliada e republicada em abril de 2008

 



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