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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


RUY ESPINHEIRA FILHO

É um dos grandes poetas brasileiros da atualidade, autor de uma obra vasta e valiosa que começou na década de 60 (em antologias) e se renova constantemente e mantém o melhor de nossa poesia. Finalista dos prêmios Nestlé e Jabuti (1997) e do Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores.

Trata-se de uma obra que deveria figura como referência obrigatória ao se falar do que há de melhor na poesia contemporânea brasileira. Cláudio Willer

 

VESTIDOS

 

Dos vossos vestidos brancos

é que me nascia o dia

aos domingos, e a alma nítida

de uma inquieta alegria.

 

Dos vossos vestidos brancos

vinha uma luz que esplendia

e desfazia o que era

sombra da noite vazia.

 

(Ou pior: noite habitada

de ânsias, melancolia,

desejos da carne, assombros,

e outros charcos de agonia.)

 

Em vossos vestidos brancos

fremia uma melodia

de anjos de tranças brandas

em que meu tremor vivia.

 

Dos vossos vestidos brancos

me vem o que, neste dia,

aquece o que ainda me resta

de escombros de poesia.

 

 

CIRCO

Raia o sol, suspende a lua,

o palhaço está na rua.

 

Tremula a lona da praça,

tempos de assombro e de graça.

 

Ah, que gente tão risonha

nessa cidade que sonha

 

tigres, grifos, leões de oiro

e mulheres em vôo loiro,

 

vindas de rússias e franças

- e acima das esperanças...

 

Nunca além de uma semana

permanece essa profana

 

prova de que Deus existe

e nem sempre a vida é triste.

 

Baixa o sol, se esconde a lua,

não há mais nada na rua,

 

caminho de pó e vento,

formigas, cão sonolento...

 

Porém já nada é tristonho,

 

- infenso a tempo e distância –

a nos sonhar essa infância.

 

 

SONETO DO ANJO DE MAIO

 

Então, em maio, um Anjo incendiou-me.

Em seu olhar azul havia um dia

claro como os da infância. E a alegria

entrou em mim e em sua luz tomou-me

 

o coração. Depois, suave, guiou-me

para mim mesmo, para o que morria,

em meu peito, de olvido. E a noite, fria,

fez-se cálida – e mágoa desertou-me.

 

Já não eram as cinzas sobre o Nada,

mas rios, e ventos, e árvores, e flamas,

e montes, e horizontes sem ter fim!

 

Era a vida de volta, resgatada,

e nova, e para sempre, pelas chamas

desse Anjo de maio que arde em mim!

 

 

Extraídos do livro A Cidade e os Sonhos / Livro de Sonetos. Salvador, Bahia: Edições Cidade da Bahia, 2003. 115 p. ilus.



DESCOBERTA

 

Só depois percebemos

o mais azul do azul,

olhando, ao fim da tarde,

as cinzas do céu extinto.

 

Só depois é que amamos

a quem tanto amávamos;

e o braço se estende, e a mão

aperta dedos de ar.

 

Só depois aprendemos

a trilhar o labirinto,

mas como acordar os passos

nos pés há muito dormidos?

 

Só depois é que sabemos

lidar com o que lidávamos.

E meditamos sobe esta

inútil descoberta

 

enquanto, lentamente,

da cumeeira carcomida

desce uma poeira fina

e nos sufoca.

 

                        (Heléboro, 1974)

 

 

O ROSTO DA CHUVA

 

Esse rosto na chuva

te olha.

É uma chuva longa, uma

de muitos anos e viagens

correndo por esse rosto.

 

Densa como sangue, chove.

No rosto, outros rostos

cintilam,

gotas esparsas.

Assim casas, cidades, nomes,

Animais,

marés do peito abismo.

 

Esse rosto na chuva

te reflete

com o que a vinda,

vida,

te doou e às vezes inscreveu

tão fundo que lá não desces.

 

Esse rosto

na chuva que circula

em tuas veias

te punge com mil irresgatáveis

e

áspero cresce

sob a pele suave do teu rosto. 

 

            (Julgado do Vento, 1979)

 

 

POEMA DE NOVEMBRO

 

O difícil é agüentar até que a morte chegue.

Suportar, por exemplo, a memória do teu corpo

e aquela noite (era maio) sob

o branco incêndio da lua.

 

E tanto mais, tanto mais.

                                  Uma vida não dá

para contar

uma vida.

               E toda uma

às vezes

se consome

numa carícia entre lençóis.

 

O difícil é agüentar até que a morte

                   chegue.

                                A morte

                   que mata todas as mortes,

                                                        sepulta

                   para sempre

                   todos os mortos. Como

                   este cadáver de amor

                                                   que me perfuma.

 

 

                            (A Canção de Beatriz, 1990)

 

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De

MORTE SECRETA E POESIA ANTERIOR

Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984

 

 

O AVÔ

 

1

 

O avô descansa

de quase um século.

O rosto é sereno

(não sei como pode

mostrar essa calma

após tanto tempo)

e as mãos despediram

todos os gestos.

 

O avô entre rosas

com seu terno escuro.

Pela primeira vez

indiferente.

Pela primeira vez

desatencioso

com mulher, filhos, netos,

conhecidos, o mundo.

 

Nem que implorássemos

nos recontaria

as tantas lembranças

entre farrapos de ópera.

Descansa tão fundo e

alto que é impossível

despertá-lo, saber

mesmo onde repousa.

No entanto está em nós

e nos impõe seus traços,

cor de olhos, jeito

de andar, sorrir, falar.

 

E o mais difícil de

cumprir:

         a insuavizável

dignidade.

 

 

2

 

Avô, já nos retiramos.

Em silêncio vamos descendo

a ladeira. Pó do teu pó,

flutuaremos até

que o vento contenha o sopro.

 

E então te herdaremos

também essa paz final.

Absoluta. Tão perfeita

que nem a saberemos.

 

 

 

DIA DE FINADOS

 

Tantos são os abandonados

e caminham ásperos no silêncio.

Há os que rezam, os que choram, os que se mantêm

                                      impenetráveis.

 

E todos depois retornam às casas, aos pequenos

mitos auxiliares de cada dia

sob o indiferente azul do céu.

 

As flores depositadas sobre as sepulturas

absolvem os mortos.

 

 

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TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

Extraídos de

ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA

Santiago de Compostela, Ed. Laiovento, 2001

ISBN  84 8487 001 4

 

 

DESCUBRIMIENTO

 

Sólo después divisamos

lo más azul del azul,

mirando, al final de la tarde,

las cenizas del cielo extinto.

 

Sólo después amamos

a quién amábamos;

y se extiende el brazo, y la mano

aprieta dedos de aire.

 

Sólo después aprendemos

a pisar el laberinto;

pero ¿cómo recordar los pasos

en los pies hace mucho dormidos?

 

Sólo después sabemos

lidar con lo que lidábamos.

Y meditamos sobre este

inútil descubrimiento

 

mientras tanto, lentamente,

del tejado carcomido

desciende un polvo fino

y nos sofoca. 

 

                        (Heléboro, 1974)

 

 

EL ROSTRO EN LA LLUVIA

 

Ese rostro en la lluvia

te mira.

Es una lluvia continua, uma

de muchos años y viajes

corriendo por ese rostro.

 

Densa como sangre, llueve.

Em el rostro, otros rostros

resplandecen,

gotas dispersas.

Así casas, ciudades, nombres,

animales,

mareeas del pecho abismo.

 

Ese rostro en la lluvia

te refleja

com lo que la venida,

vida,

te dono y a veces inscribió

tan hondo que allá no descendies.

 

Ese rostro

en la lluvia que circula

por tus venas

te punge con mil incumplimientos

áspero crece

bajo la piel suave de tu rostro. 

 

            (Julgado do Vento, 1979)

 

 

POEMA DE NOVIEMBRE

 

Lo difícil es aguantar hasta que la muerte llegue.

Soportar, por ejemplo, el recuerdo de tu cuerpo

y aquella noche (era en mayo) bajo

el blanco incendio de la luna.

 

Y tanto más, tanto más.

                                  Una vida no da

para contar

se consume

en una caricia entre sábanas.

 

Lo difícil es aguantar hasta que la muerte

llegue.

                   La muerte

que mata todos los muertos,

                                         sepulta

para siempre

todos los muertos.  Como

este cadáver de amor

                                      que me perfuma. 

 

         (A Canção de Beatriz, 1990)

 

 

 

Página ampliada e republicada em março de 2008.

 


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