RUY ESPINHEIRA FILHO
É um dos grandes poetas brasileiros da atualidade, autor de uma obra vasta e valiosa que começou na década de 60 (em antologias) e se renova constantemente e mantém o melhor de nossa poesia. Finalista dos prêmios Nestlé e Jabuti (1997) e do Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores.
Trata-se de uma obra que deveria figura como referência obrigatória ao se falar do que há de melhor na poesia contemporânea brasileira. Cláudio Willer
VESTIDOS
Dos vossos vestidos brancos
é que me nascia o dia
aos domingos, e a alma nítida
de uma inquieta alegria.
Dos vossos vestidos brancos
vinha uma luz que esplendia
e desfazia o que era
sombra da noite vazia.
(Ou pior: noite habitada
de ânsias, melancolia,
desejos da carne, assombros,
e outros charcos de agonia.)
Em vossos vestidos brancos
fremia uma melodia
de anjos de tranças brandas
em que meu tremor vivia.
Dos vossos vestidos brancos
me vem o que, neste dia,
aquece o que ainda me resta
de escombros de poesia.
CIRCO
Raia o sol, suspende a lua,
o palhaço está na rua.
Tremula a lona da praça,
tempos de assombro e de graça.
Ah, que gente tão risonha
nessa cidade que sonha
tigres, grifos, leões de oiro
e mulheres em vôo loiro,
vindas de rússias e franças
- e acima das esperanças...
Nunca além de uma semana
permanece essa profana
prova de que Deus existe
e nem sempre a vida é triste.
Baixa o sol, se esconde a lua,
não há mais nada na rua,
caminho de pó e vento,
formigas, cão sonolento...
Porém já nada é tristonho,
- infenso a tempo e distância –
a nos sonhar essa infância.
SONETO DO ANJO DE MAIO
Então, em maio, um Anjo incendiou-me.
Em seu olhar azul havia um dia
claro como os da infância. E a alegria
entrou em mim e em sua luz tomou-me
o coração. Depois, suave, guiou-me
para mim mesmo, para o que morria,
em meu peito, de olvido. E a noite, fria,
fez-se cálida – e mágoa desertou-me.
Já não eram as cinzas sobre o Nada,
mas rios, e ventos, e árvores, e flamas,
e montes, e horizontes sem ter fim!
Era a vida de volta, resgatada,
e nova, e para sempre, pelas chamas
desse Anjo de maio que arde em mim!
Extraídos do livro A Cidade e os Sonhos / Livro de Sonetos. Salvador, Bahia: Edições Cidade da Bahia, 2003. 115 p. ilus. |
|
DESCOBERTA
Só depois percebemos
o mais azul do azul,
olhando, ao fim da tarde,
as cinzas do céu extinto.
Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.
Só depois aprendemos
a trilhar o labirinto,
mas como acordar os passos
nos pés há muito dormidos?
Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobe esta
inútil descoberta
enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca.
(Heléboro, 1974)
O ROSTO DA CHUVA
Esse rosto na chuva
te olha.
É uma chuva longa, uma
de muitos anos e viagens
correndo por esse rosto.
Densa como sangue, chove.
No rosto, outros rostos
cintilam,
gotas esparsas.
Assim casas, cidades, nomes,
Animais,
marés do peito abismo.
Esse rosto na chuva
te reflete
com o que a vinda,
vida,
te doou e às vezes inscreveu
tão fundo que lá não desces.
Esse rosto
na chuva que circula
em tuas veias
te punge com mil irresgatáveis
e
áspero cresce
sob a pele suave do teu rosto.
(Julgado do Vento, 1979)
POEMA DE NOVEMBRO
O difícil é agüentar até que a morte chegue.
Suportar, por exemplo, a memória do teu corpo
e aquela noite (era maio) sob
o branco incêndio da lua.
E tanto mais, tanto mais.
Uma vida não dá
para contar
uma vida.
E toda uma
às vezes
se consome
numa carícia entre lençóis.
O difícil é agüentar até que a morte
chegue.
A morte
que mata todas as mortes,
sepulta
para sempre
todos os mortos. Como
este cadáver de amor
que me perfuma.
(A Canção de Beatriz, 1990)
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
De
MORTE SECRETA E POESIA ANTERIOR
Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984
O AVÔ
1
O avô descansa
de quase um século.
O rosto é sereno
(não sei como pode
mostrar essa calma
após tanto tempo)
e as mãos despediram
todos os gestos.
O avô entre rosas
com seu terno escuro.
Pela primeira vez
indiferente.
Pela primeira vez
desatencioso
com mulher, filhos, netos,
conhecidos, o mundo.
Nem que implorássemos
nos recontaria
as tantas lembranças
entre farrapos de ópera.
Descansa tão fundo e
alto que é impossível
despertá-lo, saber
mesmo onde repousa.
No entanto está em nós
e nos impõe seus traços,
cor de olhos, jeito
de andar, sorrir, falar.
E o mais difícil de
cumprir:
a insuavizável
dignidade.
2
Avô, já nos retiramos.
Em silêncio vamos descendo
a ladeira. Pó do teu pó,
flutuaremos até
que o vento contenha o sopro.
E então te herdaremos
também essa paz final.
Absoluta. Tão perfeita
que nem a saberemos.
DIA DE FINADOS
Tantos são os abandonados
e caminham ásperos no silêncio.
Há os que rezam, os que choram, os que se mantêm
impenetráveis.
E todos depois retornam às casas, aos pequenos
mitos auxiliares de cada dia
sob o indiferente azul do céu.
As flores depositadas sobre as sepulturas
absolvem os mortos.
----------------------------------------------------------------------------------
TEXTOS EN ESPAÑOL
Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Santiago de Compostela, Ed. Laiovento, 2001
ISBN 84 8487 001 4
DESCUBRIMIENTO
Sólo después divisamos
lo más azul del azul,
mirando, al final de la tarde,
las cenizas del cielo extinto.
Sólo después amamos
a quién amábamos;
y se extiende el brazo, y la mano
aprieta dedos de aire.
Sólo después aprendemos
a pisar el laberinto;
pero ¿cómo recordar los pasos
en los pies hace mucho dormidos?
Sólo después sabemos
lidar con lo que lidábamos.
Y meditamos sobre este
inútil descubrimiento
mientras tanto, lentamente,
del tejado carcomido
desciende un polvo fino
y nos sofoca.
(Heléboro, 1974)
EL ROSTRO EN LA LLUVIA
Ese rostro en la lluvia
te mira.
Es una lluvia continua, uma
de muchos años y viajes
corriendo por ese rostro.
Densa como sangre, llueve.
Em el rostro, otros rostros
resplandecen,
gotas dispersas.
Así casas, ciudades, nombres,
animales,
mareeas del pecho abismo.
Ese rostro en la lluvia
te refleja
com lo que la venida,
vida,
te dono y a veces inscribió
tan hondo que allá no descendies.
Ese rostro
en la lluvia que circula
por tus venas
te punge con mil incumplimientos
áspero crece
bajo la piel suave de tu rostro.
(Julgado do Vento, 1979)
POEMA DE NOVIEMBRE
Lo difícil es aguantar hasta que la muerte llegue.
Soportar, por ejemplo, el recuerdo de tu cuerpo
y aquella noche (era en mayo) bajo
el blanco incendio de la luna.
Y tanto más, tanto más.
Una vida no da
para contar
se consume
en una caricia entre sábanas.
Lo difícil es aguantar hasta que la muerte
llegue.
La muerte
que mata todos los muertos,
sepulta
para siempre
todos los muertos. Como
este cadáver de amor
que me perfuma.
(A Canção de Beatriz, 1990)
Página ampliada e republicada em março de 2008.
|