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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
POESIA SIMBOLISTA – SIMBOLISMO NO BRASIL
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Capa do livro do biógrafo Claudio Veiga.

PETHION DE VILAR

(1870-1924)

 

Egas Moniz Barreto de Aragão é o nome de batismo de Pethion de Vila, nascido em Salvador da Bahie, a 4 de setembro de 1870, formado em medicina e catedrático. Dirigiu a "Revista do Grêmio Literário" e foi professor de história natural médica. Praticou também o parnasianismo, destacando-se nas "coloridas marinhas e nos sonetos descritivos".

 

 

MARINHA

 

Desce a Noite enrolada em brumas hibernais. . .

Trágica solidão, vago instante sombrio,

 em que, tonto de medo, o olhar não sabe mais

 onde começa o mar e onde acaba o navio. 

 

Nem o arfar de uma vaga: o mar parece um rio

 de óleo; oxidado o céu de nuvens colossais,

 num zimbório de chumbo acaçapado e frio,

escondendo no bojo a alma dos temporais.  

 

Nem das águas no espelho o reflexo de um astro...

 Apenas o farol, no vértice do mastro,

rubra a pupila, a arder, dentro de uma garoa.  

 

E lá vai o navio, espectral, lento e lento,

como um negro vampiro, enorme e sonolento,

pairando sobre um caos de tênebras, à toa.

 

 

POEMA DAS VOGAIS
(Alexandrinos modernos)

 

         Ao impecável estilista Remy de Gourmont

          ...........................................voyelles,
          Je dirai quelque jour vos naissances latentes.

  1. Rimbaud

 

A – branco.

O – preto.

                U – roxo.

                               I – vermelho.

                                               E

                                                               E – verde.

 

Sim, toda vogal tem um aroma e uma cor. Que sabemos sentir, que

Poderemos ver de Cima do Verso, de dentro do nosso Amor.

A


A – deslumbramento alvor; lagoas de neblina,

Mortas entre bambuais em noites de luar;
Panejos de Albornoz; celagens de morfina;
Hóstias subindo, lento, entre os círios do altar.

Neve solta a cair; runimóis do Himalaia;

Palidez de noivado; asas pandas de cisne;

Estátuas; colos nus; penumbras de cambraia;

Pétala de magnólia antes que um beijo a tisne.

O

 

O – negrumes do mar; torvas noites de chuva;

Escuridão dos teus cabelos perfumados;

Gargantas de canhões; compridos véus de viúva,

Longos dias cruéis dos que não são amados.

Veludo que reveste a petrina das moscas,
Dessas que vão pousando em tudo, sem respeito,

E um dia hão de zumbir, gulosas, sobre as roscas
Alvas e frias de teu corpo tão bem feito!

U

 

U – lúgubres clarões agônicos de enxofre;

Cor do Mistério; cor das paixões sem consolo;
Soluço há muito preso, estourando de chofre;

Último beijo, olhar vesgo e triste de goulo.

Olheiras de Saudade; olheiras de Ciúme;

Chagas místicas de S. Francisco de Assis;

Clangores d´órgão que poeta algum resume;

Desilusões de amor que nenhum verso diz.

 

I

 

I – púrpuras reais alcachofradas de ouro;

Rubores virginais; lacre de bofetadas;

Fanfarras de clarim; alamares de toro
Onde o carrasco abate as frontes rebeladas.

Sangue escarrado das bocas tuberculosas;

Sangue da aurora; orvalho ardente das batalhas;

Sangue das uvas; sangue aromado das rosas;

Farrapos de bandeira assanhando metralhas!

 

E

 

E — febre do uíste, cor das campinas em flor,

Transparências de absinto; alma da mata virgem;

Cor da Esperança; paz das vigílias do amor;

Mortalhas, que do mar as glaucas ondas cirgem.

Hieróglifos que Deus ou o Diabo escreve
Nas frontes geniais dos  Bardos e dos Sábios;

Espáduas sobre as quais a Morte, muito em breve,
Voluptuosamente há de colar os lábios.

..................................................................................

 

 

A – branco.

O – preto.

                U – roxo.

                               I – vermelho.

                                               E

                                                               E – verde.

 

Sim, toda vogal tem um aroma e uma cor,
Que sabemos sentir, que poderemos ver de
Cima do Verso, de dentro do nosso Amor.

                   (Poesias escolhidas, 1928)

 

HARMONIA SUPREMA

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Irrompa finalmente
Do meu lábio covarde, alto, numa explosão
Fatal, de uma só vez este segredo ardente<
Assim como um rugido, assim como um clarão!

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Ó Verbo onipotente
Que se fez Carne! Ó doce e horrível confissão!
Asa que vem do Azul varrendo a Noite em frente,
Aleluia eternal, suprema Redenção!

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Oh que aurora irradia
Desta frase ideal que anda a cantar, à toda...
Silêncio! Versos meus... parai vossa Harmonia!

Basta! A voz deste Amor que me enleva e me aterra!
Do meu Corpo à minha Alma, indômita, revoa
Como um raio de sol que prende o Céu à Terra.

(Poesias escolhidas, 1928)

 

Página publicada em setembro de 2008



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