MARIA LÚCIA MARTINS
Baiana da região de Jequié. Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERj em 1976, especialista em Educação Matemática e Psicopedagogia Clínica e Institucional, é também autora de muitos livros de poesia: Espaço perplexo (RJ, 1985), Entre medos, brinquedos (RJ, 1993), Tempo indômito (RJ, 1990).
O melhor da poesia de Maria Lúcia Martins é o sopro de emoções generosas que, quando consegue formular com economia e intensidade, nos envolve e nos encanta. Nessas ocasiões revela-se a poeta que ela é. Ferreira Gullar
Maria Lúcia Martins é uma dádiva. Ela pratica um lirismo que parece fácil, desgastado em outros, mas nela é autêntico, vívido, convincente, emocionante. Leve a partir da matéria densa e grave, sutil sobre elementos tão deterministas da condição humana, e da mulher. Solidão e compartilhamento, discreto e pungente.
Antonio Miranda
De
A CONDIÇÃO DE PÉGASO
Salvador, 2002
AUSÊNCIA
Este meu jeito estranho
de olhar dentro de mim
e não passar nenhum encanto ao Téo,
este meu jeito canhoto
de estranhar o mar, o ar, o quarto,
e o nó, à garganta, travado
ao elevador,
dá-me a esperança de que nem tudo
é meu desajeito: é tua ausência mesmo,
refletida na curva do caminho
onde costumavas me esperar.
***
PARA ALÉM DE NÓS
a Ruy Duarte de Carvalho
Para além de nós... Uma janela aberta
para o mundo. Nele, tudo que está.
Minha conivência com a paisagem
esvaída do não-descoberto.
“Para além...” certamente é muito longe
de olhos de ver, de ouvidos de escutar.
(Diga, apenas — depois — em sussurro).
Para além... certamente é distante,
e o viver tão incerto. (Diga, apenas
— talvez — em voz mansa, não afirme).
Para além de nós: não, não posso dizer
assim. Que um homem “é estar aqui e agora,
cada qual no seu tempo”.
***
ESPAÇO PERPLEXO
a Paulo Martins
Por ter vivido densa infância
(medo de almas, de lobisomens)
sob o horizonte de cores imprecisas,
fiquei cravado ao chão
dourado
das folhas da amendoeira.
Por ter negado ao outro o domínio
aliciante, olhos escancarados,
necessitei não ver. Debati-me, às cegas,
com fantasmas vivos e me atropelei
nas quinas do mundo. Entre escombros
de castelos e ciúmes reinaram as
sombras.
Por ter sentido muito mais que
compreendido
e a angústia fosse a face gêmea
da minha alegria, a minha fala
e meu canto: a mesma voz do que
sou silenciado.
Por ter continuado a caminhada
— quintal do pensamento —
faço a espiral que é meu caminho.
Contradição: jamais sabendo
para que lado gira — me orienta,
entre o que sou e o meu desejo.
Perplexo ante a condição
do humano — habitante e estrangeiro —
a cada vez que me assassino, retorno
à criança, condição de espanto.
***
NENHUM ESQUECIMENTO
As coisas, a casa (e sua trama
simples, bela), nada conta.
E mesmo a alegria da brisa
nada consegue animar.
Entanto, no oco dessa ausência,
tudo confirma que estiveste aqui.
Não por existir uma foto,
alguma prenda ou a tua
voz gravada.
Somente, quieto, o meu pensamento
acusa um certo bem, um certo encanto
de alma lavada e de nenhum esquecimento.
GOIABAS BRANCAS
Raízes se retorcem (imitam cobras)
cravadas no chão.
A copa faz a filigrana: os vazados verdes
das folhas, geometria dos galhos.
O sol, artesão diário, confere as goiabas
pelo cheiro (a polpa e o branco da casca).
Mil passarinhos bicam o verão
da goiabeira
e gritam, fartos, de mesmo alvoroço:
“Já é-vem, já é-vem, já é-vem...”
Querem apagar o sono da terra.
A noite se abre aos mistérios.
As ninfas (árvores de fartos cabelos
negros) se enfeitam de jóias de prata
— goiabas brancas —
enquanto se vestem de toda lua.
Página publicada em fevereiro de 2008
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