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LUIS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS
Nasceu a 12 de agosto de 1956, em Salvador, Bahia. Estudou Estudou Engenharia Elétrica e Agronomia, mas formou-se em Direito e em Educação Física. Não fez poesia a infância e na adolescência. Na primeira metade dos anos 80, passou por uma fase de produção poética, que logo arrefeceu. A partir de 1995 é que se dedicou definitivamente à criação poética. Lançou Fiat breu pelas Edições Papel em Branco, Salvador, 1996.
“Não! Meu verso é cru, direto.” Esperpêntico, sim. Pessimista. Não chega a ser maldito, na tradição de seus conterrâneos Gregório de Matos e ... Freire, pois não invoca nem maldiz as origens religiosas... (“Num golpe, vai até onde / Deus esconde o rabo abjeto.” Apenas revela um desconsolo, uma acidez vivencial que deve ser mais bem literária, o que é legítimo na literatura se o autor souber criar com talento, como é o caso de Luis Antonio Cajazeira Ramos: sonetos entre a tradição e a modernidade. Autênticos, enquanto maniqueístas e maneiristas. Por que não? ANTONIO MIRANDA
De
RAMOS, Luís Antonio Cajazeira. Come se.
Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia, Fundação Cultural, 1999. 116 p. (Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, 45)
PANTOMIMA
Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.
O bode velho vai pro sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.
As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.
Somente a ovelha negra fica impune,
... enquanto o bom pastor toca sua flauta.
FREUDIANO
Entregue ao tédio, tranca-se no quarto.
Transverso ao leito, deita sobre o dorso.
Do corpo quedo, pende solto um braço.
Fixando o teto, vê seu branco fosco.
Volve ao decúbito ventral. Embaixo,
deixa a cabeça pendular no espaço.
Os olhos sacam, com o olhar parado,
que o chão de tacos tem um brilho opaco.
Gira, deitando sobre o lado esquerdo.
Busca as paredes – vê-las como um muro.
O quarto inteiro permanece quieto.
Encolhe as pernas, cruza os braços justo,
encurva as costas, cola o queixo ao peito.
Talvez quisesse o colo, o cálido útero.
DESAMPARO
Tem piedade de mim, minha mãe: por causa
de meus pecados, não mates teu filho.
EURÍPEDES
Nasceu. A eternidade-em-nove-meses
trouxe à luz esperança, e me pergunto:
- para que perpetuamos nossas fezes
nas fraldas descartáveis deste mundo?
- por que permanecermos na ilusão
de que viver é bem fundamental?
- onde tenho a cabeça, ó cria, e não
a enforco com o cordão umbilical?
- e pode o poeta ser tão bizantino,
imerso em universos pequeninos,
posto em dúvidas mil existenciais,
e não abrir meus olhos desde o berço,
deixando-me sonhar, chupando o dedo,
... e acordo no momento de ser pai?
Página publicada em janeiro de 2012
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