FERNANDO SALES
Nasceu em Andaraí, Bahia, a 9 de junho de 1921. Obra: Roteiro sentimental das lavras diamantinas (1944), Evocação de Lençóis e outros poemas e Sol na estrela.
De
ALVES, Henrique L., org.
Poetas contemporâneos.
Capa de Alfredo Volpi.
São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1985.
CANTIGAS
Gosto de todas as cantigas
que me recordam a terra onde nasci,
das cantigas das lavadeiras
debaixo da gameleira
da curva do ribeirão...
Cantigas de lavadeiras batendo roupa
no remanso do rio de águas espumarentas
onde as filhas do promotor tomavam banho...
Cantigas de garimpeiros subindo a serra
alcantilada e abrupta, sonhando
encontrar estrelas no grotões escuros...
Cantigas de boiadeiros nordestinos
varando caatingas, atravessando
o sertão brabo e febrento, deixando
em cada vila um coração dorido...
Cantigas de crianças alegres ao luar,
minha rua quieta, dois namorados
na calçada defronte fitando o azul do céu...
Cantigas de pescadores à beira da lagoa
de águas verdes de limo, com o sapo cururu
fazendo coro no brejo...
Cantigas de serenatas nas esquinas,
dolentes, chorando
a ingratidão da noiva namorando
o caixeiro-viajante que se foi...
Cantigas, doces cantigas da minha terra
longínqua e humilde, encravada na serra
e tostada pelo sol da minha infância...
de SOL NA ESTRADA
DONA BELINHA
A casa de Dona Belinha
tem dez janelas de frente
pintadas de azul celeste.
A casa de Dona Belinha
é a maior e mais bonita
de toda a vila do Pega.
Dona Belinha hospedava
com a melhor boa vontade
viajante que chegasse.
- Pra que pensão no Pega?
Se Dona Belinha hospedava
todo aquele que chegasse?
Com a viuvez, a velhice,
e Dona Belinha cansou
de hospedar tanta gente.
Fechou a casa e mudou-se.
- Pra que pensão no Pega?
Se depois que Dona Belinha
fechou a casa e mudou-se
a gente passa a galope?
Ibidem
Página publicada em junho de 2010
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