Fonte: www.edukbr.com.br/
CYRO DE MATTOS
Escritor, poeta, advogado e jornalista, nasceu em Itabuna, sul da Bahia, em 1939. É membro da Academia de Letras da Bahia. Estreou como ficcionista com o livro de contos Os brabos (Prêmio A fonso Arinos, Academia Brasileira de Letras). Como poeta publicou, entre outros, Vinte poemas do Rio e Cancioneiro do Cacau. Prêmio Nacional Ribeiro Couto, Prêmio Centenário Emílio Mora, da Academia Mineira de Letras e Indicado para o Prêmio Jabuti 2002.
Publicado em Portugal, Estados Unidos, Rússia, Dinamarca, Alemanha, Suiça e México.
O poeta baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos participou da Feira Internacional do Livro em Frankfurt, Alemanha, no dia 9 de outubro de 2010, quando então, a partir das 3 horas, autografou exemplares de sua antologia poética Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte (Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas), no stand 151 B de sua editora – Projekte-Verlag (www.projekte-verlag.de). Durante a Feira do Livro, a editora montou uma exposição com exemplares e um banner da capa do livro..
Cyro de Mattos
VINTE E UM POEMAS DE AMOR
Ilustrações de Edsoleda Santos.
São Paulo: Dobra Editorial, 2011.
56 p. ISBN 978-85-63550-27-9
Segundo Lêdo Ivo, nos poemas de Cyro de Mattos, a respiração do amor rege os versos como que numa modulação do mar, da palavra alta à confidência.
Erótico
V
Do amor me dizes no sal de teu corpo
E de beijos sob um sol que me tem
Em mar tão meu. E revelas teu sexo
Em que navego sedento, mergulho,
Sou tragado, mas não morro. Retorno
A teus seios que beijo tantas vezes
Para matar essa fome que me mata
De ardores e gemidos como sempre.
De palavras machucadas na boca
E de tremor de lábios por entre afagos
Sei dum susto esplêndido, indescritível,
Que é o gozo que me tem em tuas mãos.
Nessa chuva que molha nossa pele,
No que é bonito e sinto nos meus braços
Então desejo que as dunas andem
E vejam nosso amor além do mar.
VIII
Sede dos teus seios.
Meu corpo no teu corpo
É uma única boca,
Lambe os pontos
Mais longínquos.
Numa urna alaranjada,
vermelha, branca.
Chovida de procuras.
Como é possível o amor
Vazar tanto vinho?
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Textos extraídos de POESIA SEMPRE, Ano 13, n. 20, março 2005. (Publicação da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro) p.1-01-105
LUGAR
Entendo ser real
Estar na relva
Como meu canto
Sedento de amor.
Neste rumor secreto
Verde minha palavra
De brotar em cada um.
Se não sou semente
Dos sonhos que beijei
Cantando na chuva.
Lá dentro trancado.
Cúmplice do eterno
Riscado num instante
Direi não sou de fato
E no caos desencanto-me.
LUGAR (II)
Ainda que seja
Um grão no deserto
A palavra é meu lugar
Onde tudo arrisco.
Irriga minhas veias
Como a chuva à terra
Em suas mil línguas.
Antiga, bem antiga,
Me anuncia no vale,
Me consuma real,
Viajante cativo
Da solidão solidária.
Sem esse jeito
De ser flor e vento.
Sonho e música,
Palavra só amor.
Não há espanto,
A lágrima, o beijo,
O riso, o epitáfio.
Não há o sentido.
A PALAVRA AUSENTE
Não existisse
Com seus limites
Diante do mundo
Sem interrogar o tempo
De Deus ou por acidente
Onde bem ou mal
Sinto-me um bocado,
Revejo-me no outro
Como a mim mesmo
Por certo o deserto
Não ia me afigurar
Desencanto e solidão,
Metáfora do nada.
Ao ruído dos dentes,
Que tudo muda,
Urde fragmentos, sonhos,
Que sentido haveria
O silêncio de tudo,
Fundo, profundo?
Jamais o convite ao amor,
À saudade, à razão, à fé,
Contradições que me fazem
Inocente na travessia,
Do inexorável submisso..
A PALAVRA PRESENTE
Dá vôo à razão
Na leitura do mundo.
Equilíbrio nos vazios
Por entre mistérios
Que soam absurdos.
Simulação do real
Na emoção do ser elo
Íntimo das coisas.
Ritmo agudo do ver.
Ouvir e falar silêncios
Onde me usa o amor
Resvalando na vida
Que o tempo engole.
Nas litanias do mal,
No refrigério da relva
Fogo eterno de cantores
Desde não quando.
BOVINO
Ruminante a flor.
Culpado mas sem pecado.
Morre sem rancor.
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De
POEMAS ESCOLHIDOS
Segundo Prêmio Literário Internacional
Maestrale Marengo d´Oro – Gênova, Itália, 2006
São Paulo: Escrituras, 2007
(Edição bilíngüe Português-Italiano)
O MENINO E O MAR
Era a primeira vez
Que o tinha ido ver o mar.
Todo alegre, de calção,
Peito nu e pé no chão.
Quando viu tanta água
Fazendo barulho
Sem parar, disse:
— Pai, me dê a mão.
RIO MORTO
Vejo tua face invisível
Na claridade das águas,
Espumas lavadeiras nas pedras
Diversicoloridias de roupas.
O céu azul de nuvens mansas.
A lua derramando prata
No areal deixado pela cheia.
Eu sou aquele menino
Que engoliu tua piaba
Para aprender a nadar.
Eu sou aquele menino
Que pegou tuas borboletas
Nos barrancos voando em bando
Eu sou aquele menino
Que sentiu com tuas boninas
A proposta livre da vida.
Eu sou aquele menino
Magro, esperto, traquino
Em tua paisagem luminosa.
Não havia, amor, dúvida,
Ares sombrios pegajosos
Cobrindo tua ilha com tesouro
Guardada por almas de piratas.
Nessa manhã de banho ausente,
Susto nos peraus e remansos,
O sol sem vidrilhar a correnteza,
Tristes meus olhos testemunham
Tua descida pobre e monótona.
Tua morte lentamente com sede
Inventada nas bocas de vômito...
Cachoeira o teu nome
Do rio que chora água.
DUNAS
Ilumino-me
de imenso.
Ungaretii
No sempre
Do vento.
No agora
Do silêncio.
Iluminado
Em solidão.
O EVENTO TERNO
Sentido não haveria
Do aroma sem canto.
A aderência perfeita
Toca o mistério,
A natureza se impõe
Na luz deste céu sonoro.
Na nervura da pétala,
Tremor translúcido,
O pássaro tece e acontece.
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Cyro de Mattos
VIAGRÁRIA
São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1988. s.p.
DA ESTRADA
Eu que me sei
casco no calendário
temporal despenho
estrias no passo
atoleiro assombração
no açoite mapa brabo
compartilho o empaco
de suor e solidão
quanto mais viajo
DO RESUMO
O passo de légua
meu batismo
o rosto cabisbaixo
meu bocejo
assovio em andadura
me constato e sigo
lenço na testa
canga no crepúsculo
aqui chego
no armazém ao largo
de amêndoas pálidas
e igualdade de peso
NA ODE AO COQUEIRO
Palmas ao céu
de quem em oração se purifica
Sal enraíza
doce unidade em caixa de surpresa
Viga polida
de quem se banha em suave maresia
Fortim vegetal
diálogo destamanho com outro verde
Cabelo de fúria
quando pulso se despedaça ao vento
Filtro de sol
pontas de estrela em convívio de lua
Corda de música
murmuras asas na calidez de beijo aéreo
Abano de praia
iluminada emoção de retreta aos domingos
Verde escalada
linha telúrica a seguir outra linha
Página publicada em maio de 2008;
Página ampliada e republicada em junho de 2008; ampliada e republicada em janeiro de 2010. ampliada e republicada em setembro de 2011.
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