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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



POETAS DO AMAZONAS

Coordenação: Donaldo Mello  e  Inês Sarmet






Fotoarte Inês Sarmet

 

 

LUIZ BACELLAR

 

Luiz Franco de Sá Bacellar nasceu em Manaus no dia 4 de setembro de 1928. Depois de passar a infância em Manaus, foi para São Paulo e lá realizou o antigo curso Colegial. Mais tarde, no Rio, foi bolsista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA, quando fez o curso de Aperfeiçoamento de Pesquisador Social, na área de Antropologia Cultural, no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, sob a orientação do Prof. Darcy Ribeiro. Voltando a Manaus, exerceu o jornalismo, foi portuário e comerciário, antes de se tornar Professor de Literatura e Língua Portuguesa no Colégio Estadual D. Pedro II e Professor de História da Música no Conservatório Joaquim Franco, da Universidade do Amazonas. Por volta de 1954, sua atividade literária se intensificou e, juntando-se a um grupo de jovens interessados no desenvolvimento cultural do Estado, participou da criação do Clube da Madrugada, cujo nome teria sido por ele sugerido. Com seu livro de estréia, Frauta de Barro, que só foi editado quatro anos mais tarde, foi laureado em 1959 com o PRÊMIO OLAVO BILAC, conferido pela Prefeitura do antigo Distrito Federal (Rio de Janeiro), de cuja comissão julgadora fizeram parte Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.  Seu segundo livro, Sol de Feira, várias vezes reeditado, recebeu o PRÊMIO DE POESIA DO ESTADO DO AMAZONAS, em 1968. Um dos fundadores da União Brasileira de Escritores do Amazonas, está envolvido com a escrita de poesia desde os doze anos e já teve vários de seus poemas musicados por Arnaldo Rebelo, Nivaldo Santiago, Dirson Costa e Emmanuel Coêlho Maciel. O poeta, cultor da música e do desenho, membro da Academia Amazonense de Letras, é um dos estudiosos do patrimônio artístico e cultural da cidade de Manaus, onde vive e trabalha. Além de Frauta de barro e Sol de Feira, já citados, Luiz Bacellar é autor de Quatro movi­mentos (Manaus, 1975), O Crisântemo de cem pétalas (em parceria com Roberto Evangelista, Manaus, 1985), Quarteto (Manaus, Valer, 1998) e Satori (Manaus, Valer, 2000).

 

“Luiz Bacellar faz parte linhagem de poetas comprometidos com a revelação dos mistérios do mundo, com a essencialidade das coisas e dos seres.Tendo na musicalidade uma de suas marcas definidoras, sua poesia é prenhe de imagens, de ressonâncias filosóficas e espirituais. A acuidade no tratamento dos temas e apuro da linguagem são expressivos da excelência de seu fazer poético.”  TENÓRIO TELLES, em Satori

  

“Luiz Franco de Sá Bacellar é, sem sombra de dúvida, o maior poeta vivo do Brasil. Confirma esse fato, inclusive, a simplicidade com que esse escritor se mantém num quase anonimato, obrigando-nos a divulgá-lo, pode-se dizer que à sua revelia, para conhecimento dos nossos intelectuais. É ver para crer. AUREO MELLO, em Frauta de Barro, 4ed.

 

“Há um evidente talento épico em Luiz Bacellar. É a comunidade que encontra sua expressão, sua linguagem, sua fala, através de seus versos. Assim, Bacellar recria, fundando-a na história dos tempos, a função do poeta. A memória que cimenta seus poemas é ao mesmo tempo um culto ao passado e uma denúncia contra a insanidade de um presente que se autoflagela, que se auto destrói impunemente”. ANTÔNIO PAULO GRAÇA, em Quarteto. 

 

Bacellar [Narciso que busca seu rosto no passado] é um poeta que se mira na superfície líquida da memória. Num esforço de remi­niscência recupera os objetos, as formas das coisas, as fachadas ar­ruinadas das casas, as imagens que guarda das pessoas, da cidade - Manaus - suas ruas, becos, os sons, leituras e histórias que povoaram sua infância. Contempla-se na alma de seu tempo.

Quarteto - reunião de suas obras - é um mostruário de sua produção poética, painel evocativo da excelência de sua poesia. Sua leitura é reveladora de seu aprendizado e amadurecimento, seu domínio da arte de encantar as palavras, evidente em livros como Quarteto, que dá título a esta reunião [publicado originalmente em 1963, com o nome de Quatro Movimentos], Sol de Feira (1973) e Pétalas do Crisântemo (1985). Sua obra completa é um mosaico expressivo de seu itinerário como criador. TENÓRIO TELLES, em Quarteto




 


SATORI haiku

Floresce o jambeiro:

há um tapete róseo

no chão de janeiro.

*

Sempre perseguido

 o grilo fica tranqüilo

cantando escondido.

(O poeta)

*

Não sou eu que choro

vento traz num lamento

orvalho sonoro.

(Sinfonia)

*

Chuva de janeiro:

o barco de papel

naufraga no bueiro.

 


 

Soneto do canivete

 

Do gume aceso se cumpra

o destino de ser-quilha

e o destino de ser peixe

no ímpeto da mola oculta;

 

do cabo córneo se cumpra

o destino de ser concha

bivalve guardando a folha:

molusco vidrado e alerta.

 

Cumpra-se o ávido destino

de esfolar laranjas vivas

e fazer lascas de pinho

 

na timidez corrosiva

dentro do punho incrustada

da lâmina envergonhada.




Ciranda à roda
de um tronco

Mangueira de minha rua

Do velho tronco enrugado

Que serves de alcoviteira

Ao casal de namorados.

 

O vento mexericando

Com tuas folhas assanhadas

Te arrepia as verdes franjas

Em murmúrios assustados.

 

As formas dos papagaios

Te pendem das galharias

Como brancos esqueletos

De duendes enforcados.

 

Te escorre o luar das folhas

Com seu brilho niquelado

Como um colar de rainha

Sobre um dossel desfiado.

 

Mangueira de minha rua

Vivo cheio de cuidados

Pela ingrata que tortura

Meu coração macerado.

 

E hei de quebranto e saudade
Morrer contigo abraçado.




Receita de tacacá

(para Umberto Calderaro Filho)

 

Ponha, numa cuia açu

ou numa cuia mirim

burnida de cumatê:

camarões secos, com casca,

folhas de jambu cozido

e goma de tapioca.

Sirva fervendo, pelando,

o caldo de tucupi,

depois tempere a seu gosto:

um pouco de sal, pimenta

malagueta ou murupi.

Quem beber mais de 3 cuias

bebe fogo de velório.

Se você gostar me espere

na esquina do purgatório.




Noturno da rampa
do mercado

As luzes das barcaças sonham ventos

quando em águas propícias e serenas

no cansado ancorar brilham pequenas

em almos lucilares cismarentos ...

 

O rio e a noite expandem seus lamentos

e os mastros tristes são candeias plenas

de oleosas saudades e de penas

sirgando macilentos barlaventos ...

 

As águas encrespadas pela brisa

gravam na praia úmida do pranto

 das órfãs de afogados o seu canto.

 

Gregoriano canto, que, em precisa

cadência, vai ecoando em cada peito:

deixai-nos descansar: tudo está feito.  


 

Balada da rua da Conceição

 

Vão derrubar vinte casas                                                                                                                                O motivo

na rua da Conceição.

Vão derrubar as mangueiras

e as fachadas de azulejo

da rua da Conceição.

(Onde irão morar os ratos                                                                                                                      Os ratos e o lixo

de ventre gordo e pelado?

e a saparia canora

da rua da Conceição?

Onde irão os jornais velhos?

Onde? E as garrafas quebradas?

Pra onde os cacos de vidro?

Pra onde os cacos de telha?

Pra onde as latas de conserva

vazias e enferrujadas?)

Oh! Vede as fisionomias

As casas

desgostosas e alquebradas

das velhas casas desertas...

Oh! Vede as rugas tristonhas

das janelas dolorosas,

dos batentes desbeiçados,

das velhas portas cambadas

de gonzos desengonçados!

Vede os beirais rebentados!

Vede as calhas entulhadas

pelas folhas fermentadas

e os buracos dos soalhos

e os alpendres corroídos

e as cumeeiras caídas

e as goteiras dos telhados!

Vede o balcão derrubado

da antiga mercearia

do Seu Joaquim Remendado.

E o forno da padaria,

e o sobrado da viúva                                                                                                                          O sobrado da viúva

que era o mais alto sobrado;

as pobres pedras da rua,

já gastas de tantos passos,

empurradas pelo esforço

das raízes emparedadas.

N a rua da Conceição

já mais ninguém quer morar.

Só um tal Dr. Calango            

Um certo Dr. Calango

- às vezes passa apressado

como um relâmpago verde -

­pôs pensão familiar.

(Raramente é procurado.)

Ontem passei por aquela

velha rua condenada.

Sem querer me pus à escuta

 A conversa das mangueiras

das conversas das mangueiras                                                                               

sussurradas pelas copas

quando o vento as farfalhava:

- Ah! comadre tu te lembras

do molecório danado:

se um papagaio quedava,

nas folhas se encalhava,

os nossos galhos sofriam...

que os nossos galhos quebravam.

Ai que saudades que tenho 

A mangueira casimiriana

do tempo em que não sofria

reumatismo nas raízes

e não tinha cicatrizes

pelo meu tronco enrugado...

Nunca mais nos voltarão

caroços de nossos frutos

contra as nossas copas fartas.

Nunca mais colhões-de-bode, 

 Colhões-de-bode

 nunca mais as baladeiras              
 bole-bole e baladeiras

nos roubarão passarinhos

pousados nos nossos galhos;

nunca mais os bole-boles

arrancarão nossos frutos:

(eu me sinto tão pesada

que tanto é o número deles!)

Nunca mais a prefeitura

quis cortar as nossas tranças

- o cabelo a la garçone

que agora no modernismo

se chama de taradinho.

Ah! tempos que já se foram

e nunca mais voltarão,

nunca mais será lembrada

a rua da Conceição.

_ Eu vi um dia um cavalo,                                                                                                                O cavalo e o espelho

disse outra velha mangueira,

renegado pelos donos

por ter quebrado uma perna

e não poder trabalhar,

entrar pela barbearia

empoeirada e deserta

que fica perto da esquina;

ao chegar frente ao espelho

de moldura descascada

(que há muito fora dourada)

vendo logo o seu reflexo

julgou que era uma potranca

- linda! - foi se aproximando

até juntarem os focinhos.

_Nunca pensei que as potrancas

tinham focinhos tão frios,

disse, um bufido soltando

(que ao cristal embaciou).

_ Nunca pensei que as potrancas

pudessem se evaporar...

... e logo reaparecer.

_ Ai, que aquilo era por certo

de meu pai a alma penada

(um garanhão militar

que morrera reformado

de tanto puxar canhão

no tempo em que não havia

batalhão motorizado).

- Cruz Credo!   - um claro relincho,

que nervoso se esgalhou

pelo ar quieto da tarde

retiniu num par de coices

e o pobre espelho, coitado,

trêmulo se espatifou.

Ai, rua da Conceição,

pobres prédios cariados,

só a erva-de-passarinho                                                                                                                  A erva-de-passarinho

habita os vossos sobrados!

Ah! que essa estória me lembra

uma outra que vou contar,

é a história circulante

da cabrita Rolimar,                                                                                            

Romance da cabrita Rolimar

que estoicamente cumprindo

o dever com sua espécie

se arrebentou sem um grito,

no dia em que ela pariu

a primeira cria, o Brito.

Era a cabra Rolimar

a princesa desta rua.

Foi uma noite de lua,

 (meio pensa em seu luar)

logo que seu último dono

desta rua se mudou,

que a cabrita Rolimar

veio conosco morar.

(Ah! comadre, eu bem que sei

que você se lembra dela)

Tinha um chifre reticente

e o outro como algarismo

(que a arquitetura das cabras

tem algo de equilibrismo),

as tetas jamais pejadas

nos seus pulos e trejeitos

balouçavam num apelo

(dizem que leite de cabra

é bom pra levantar peito).

Por entre as pedras a urtiga

já começava a morar,

mas logo ela aqui chegou

começou a retouçar.

E assim logo de começo

foi ficando confiada

e na antiga padaria

(roendo o balcão) fez morada.

Pois me disse um bem-te-vi

que ela era encantada:

em noite de lua cheia,

sexta-feira de quaresma

se punha de pé dançando

ao fazer o seu sabbat.

Mas não creio - só lembrando

sei quanto era preciosa:

pois tinha um olho malandro

e umas tetas cor-de-rosa.

Pois se até no descomer

era mui gentil de ver:

qual se fora semeando,

a modo de semeadeira

uns caroços de oliveira.

Mesmo quanto ao de comer

era de nada enjeitar:

eram papéis de jornal,

eram maços de cigarro

e até mesmo latas velhas

ela podia enrolar -

nada que visse na rua

era de ela rejeitar.

Um sanhaçu me contou

que ela era artista de circo:

dançava no picadeiro,

andava na corda bamba -

era estrela principal

do "Grande Circo Merino".

Mas cá ficou-se esquecida

(dizem que foi de paixão)

quando o circo foi embora.

No dia do nascimento

do cabrito (coitadinho!)

chovia de fazer lama.

A cabritinha sofria

sem gemer, sem se queixar.

Ai, comadre, se eu pudesse

adquirir movimento,

sair do leito de pedra

que me prendia as raízes,

só para correr pra longe

(pois não podia ajudar);

mas o que diria a gente

em vendo uma árvore andar?

O cabritinho nasceu

(um balido anunciou)

foi quando a pobre da cabra,

aos poucos, devagarinho,

 parou de se estrebuchar.

Logo vieram os urubus   

Os urubus

(como agentes funerários)

com seus fraques de lustrina,

com seus gestos bem medidos

e suas graves passadas

de acadêmico bom-tom

fizeram-lhe o necrológio

com tamanha hipocrisia

num arremedo de velório

(somente fazendo hora

té ver quando apodrecia).

Quando o chefe deu sinal,

aí foi um tal de avança

- tumulto de negras plumas!-

 e em brevíssimos segundos

desmantelaram, lhe os ossos.

E quanto ao órfão Britinho

um preto velho o levou: