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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


POETAS DO AMAZONAS

Coordenação: Donaldo Mello  e  Inês Sarmet


 

 

Inês Sarmet

s/ foto publicada em

Amazonas em Tempo de 09/12/05

 

 

ELSON FARIAS 

 

 

DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR

transcritos de Romanceiro, José Olympio Editora, 1990:

 

 

ELSON FARIAS nasceu em Roseiral, propriedade de seu pai no município de Itacoatiara, Amazonas, no dia 11 de junho de 1936. Passou a infância no local de seu nascimento e em várias cidades e vilas amazonenses por onde seu pai andou nos trabalhos de co­mércio e financiamento de extratores de produtos regionais, como Itacoatiara, Urucará, São Sebastião do Uatumã e Parintins. Estu­dou nas escolas públicas dessas cidades e vilas, até o primeiro ano do curso de formação de professores, feito no antigo Instituto de Educação do Amazonas, já em Manaus, para onde se mudou aos 18 anos e onde reside até hoje. (...) Tem dedicado sua atenção a duas atividades essenciais: a lite­ratura e o serviço público.

Ao chegar a Manaus, integrou-se ao movimento de renovação das letras conhecido como Clube da Madrugada. Ingressou mais tarde na Academia Amazonense de Letras, no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, e no Clube de Poesia e Crítica de Brasília. Com alguns companheiros fundou em Manaus a União Bra­sileira de Escritores do Amazonas, tendo sido seu primeiro presi­dente. Foi diretor do Departamento de Cultura, transformado em Fundação Cultural do Amazonas, da qual foi o primeiro superin­tendente; exerceu, ainda, em diferentes oportunidades, as funções de secretário de Estado da Educação e Cultura e da Comunicação Social. Ocupa agora o cargo vitalício de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Amazonas (...).

 

Por indicação da Associação Brasileira de Municípios (ABM) e a convite da Secretaria de Estado do Interior de Berlim, participou naquela cidade de um seminário sobre “objetivos e tarefas das ad­ministrações municipais no domínio da proteção ambienta”, promovido pela Fundação Alemã para o Desenvolvimento Interna­cional, no período de 11 a 31 de maio de 1986. Aproveitou para alongar caminho durante mais dois meses, em companhia de sua mulher e filhos, a Portugal, Espanha, Itália e França, ficando alguns dias em Lisboa, Madri, Roma e Paris, mas passando a maior parte do tempo pelo interior desses países, observando a vi­da e os costumes, e as festas populares das gentes de cidades, vi­las e aldeias. Considera essa viagem um verdadeiro curso sobre as origens de nossa cultura.

Possui poemas musicados por Guerra Peixe e pelos composito­res amazonenses, maestro Nivaldo Santiago, Aldízio Filgueiras e Pedro Amorim.

Sua poesia tem merecido estudos de diversos especialistas, sen­do em mais larga escala examinada nos livros O poeta e a forma exata, de 1972, de João Mendonça de Souza, e Uma poética das águas, resultado de tese intitulada A imagem do rio na poesia amazonense contemporânea, defendida pela professora Socorro Santiago, em 1982, na Universidade Católica de Curitiba”.

Nota:  Elson Farias é Presidente da Academia Amazonense de Letras

 

Principais obras do autor:

 

Barro verde. Manaus, União dos Estudantes do Amazonas, 1961; Estações da várzea. Manaus, Ed. Sérgio Cardoso, 1963; Três episódios do rio. Manaus, Ed. Sérgio Cardoso, 1965; Ciclo das águas. Ma­naus, Govemo do Estado do Amazonas, 1966; Dez canções primitivas. Manaus, ed. do au­tor, 1968; Um romanceiro da criação. São Paulo, Monumento, 1969; Do amor e da fábula. Rio de Janeiro, Ar­tenova, 1970; Imagem. Rio de Janeiro, Conquista/Academia Amazonense de Letras,1976; Roteiro lírico de Manaus em 1900. Ma­naus, Governo do Estado do Amazonas,1977; Made in Amazonas. Manaus, Puxinun,1978; Palavra Natural. Brasília, Clube de Poesia e Crítica, 1980; Romanceiro. Manaus, Puxirum, 1985; Balada de Mira-anhanga. Manaus, 1993, A destruição adiada , Manaus, 2002; Memórias Literárias.  Manaus, Valer, 2005.

*

"O Amazonas tem um poeta chamado Elson Farias (...). Um poeta de expressão rica, mas densa, senhor de seu artesanato, incapaz de gastar palavras só pelo gosto de mostrar-se sensível e muito menos eloqüente (a ponto de escrever um poema como um só e belo verso: "A macia serenidade do rio após a chuva".

          VALDEMAR CAVALCANTI (Jornal Literário, em O Jorna!, do Rio de Janeiro)

*

"Poemas de concisão e bom rendimento da palavra, sobretudo quando não descritivos; alguns exemplos interes­santes de sinestesia ("a chuva encharca o seu cheiro"; "O mesmo sabor das cascas de castanha/tem o som deste sol/carícia e folhas") sonetilhos musicais e três sonetos-beleza (os últimos). Nesta poesia ora de imagens verde seiva ora canções agrestes, perpassam Evas lúcidas e claros tons cânticos" 

STELLA LEONARDOS, sobre "Estações da Várzea, em Jornal de Letras, do Rio de Janeiro

*

"Através de sua contribuição (...) é que traremos para dentro de nós o conhecimento sensível do mundo em que se faz a nossa gente e o nosso tempo, do mundo em que somos, definindo-nos a todos, sem exceção, em nosso grau essencial de sermos homens, qualidade humana, Humani­dade".

                                                                                        MOACYR FELlX

*

ELSON FARIAS é a poesia viva do Amazonas. Sem desmerecer dos que fazem dos motivos poéticos a sua constante de inteligência, na sua expressão criadora, não é possível deixar de registrar o que há de profundo, de belo e de eterno na obra do poeta.

Minhas emoções, nesse particular, são escassas, muito escassas. Quando li, porém, os versos do poeta, experimentei a sensação de alguma coisa que fala realmente ao espírito e lhe proporciona momentos de abstração e de alegria intensa.

(...) Elson Farias afirma-se, com maior intensidade e maior conteúdo de beleza, como a figura de maior categoria entre as figuras novas da geração que promove a revolução intelectual em nossa terra. E essa revolução não é falha em valores, em sugestões, em dignidade cultural. Ao contrário, há nos que a realizam um grupo admirável de que o Amazonas se deve orgulhar porque realmente reflete a sua decisão de elaborar, aos imperativos de um meio áspero, mas também às seduções de uma natureza violenta que não se pode interpretar na adjetivação inexpressiva, banal, sem propriedade, a mensagem que lhe reflita o estado de espírito e como tal a inquietação da nossa gente.

                                   ARTHUR CÉZAR FERREIRA REIS, no prefácio de  Ciclo das águas, 1966

 

(...) Os seus ro­mances mostram realmente a vida do homem da Amazônia, sempre às voltas, sempre lutando com as águas dos seus imensos rios, mas sempre vencendo as intempéries das águas e da vida. Parabéns muitos e muitos pelos seus belos romances das águas.

PLÍNIO DOYLE

*

Foi uma pura alegria ler seu Romanceiro: título, textos, poemas, tudo forma um admirável conjunto que me rejubilo de conhecer, embora tão tarde: é que vejo que se trata de peças de duas décadas atrás, o que me aumenta o espanto e a admiração.

Você terá por certo recebido louvores de muitos leitores seus, pois a qualidade de seus redondilhos maiores supera o que há de melhor entre nós.

Você soube transmitir a impregnação aquosa do grande rio em todos os seus versos e em todos os seus leitores - livrando-se, ao mesmo tempo, e com muita sabedoria, dos trejeitos verbais tópicos e de um populismo pitoresco; sua fala, grave quase sempre, grácil quando convém, põe o Amazonas no coração de todos os brasileiros, insinuando em seus (nossos) corações o que há de grandeza, de mistério, de terra et aqua ignotae e de doce trivialidade de amar o berço em que se nasce: o Amazonas faz-se, assim, o rio por excelência, sobretudo como matéria poética.

Você é um grande poeta e eu o felicito por isso do meu mais fundo coração.

ANTÔNIO HOUAISS

 

*

 

 

Inês Sarmet

s/foto de acervo

do escritor Francisco Vasconcelos

 

 

FIGURAS

 

1

 

O sol ardia no roçado,

caniços secos ardiam no roçado,

folhas torradas

no sol do roçado.

 

Quero falar de ti,

curtas palavras

quero cravar

no solo claro destas pedras.

 

2

 

O verso vive nas cruzes do futuro.

Agora é o mero vento das fugaces

frases irreais,

a voz vazia dos bichos castigados

aos sons banais.

 

 

3

 

Nossa comida era branca,

peixe frugal,

favas fritas,

maxixes na água e sal.

 

4

 

A macia serenidade do rio após a chuva.

 

5

 

O jardim era encharcado no fim do inverno,

o verão era verde.

Heras medravam nas pedras sujas,

manjeronas se urdiam no pátio como cobras,

risos-do-prado japanas mucuracaás

papoulas rosas-pedra

lama seca

estalada em

retângulos de cinza.

 

6

 

Acre vento a nossa faca

feria os nós das raízes.

 

Pequenos santos, canoas,

barcos mirins e figuras.

 

Os nossos dentes trincavam

frutos verdes resinosos.

 

Rala folhagem dos galhos

moles no vento.

 

 

 

COLÓQUIO

 

1

 

Nestes dias a noite custa mais.

Nosso corpo dói de ternura.

O telhado das casas cor de barro lavrado

sossega nossos olhos.

Dois pontos no rio liso correm,

os largos pincéis do sol

riscam esboços de rosas.

 

2

 

Após a chuva a lua doura as folhas.

Tremes de medo em agosto.

Gostas da brisa incendiada na luz parda,

caules noturnos.

Tuas mãos cuidam de crivar os botões rubros

que se irão rachar de insetos

azuis

vermelhos

lilases

cinzas.

Após a chuva a lua doura as folhas

e passa em sossego.

 

3

 

O céu vive pesado de chuva,

vento frio, morna unidade.

 

Só nos teus olhos reside a graça

triste de brilhos, clara de pavor.

Estou pesado como o céu,

preciso sem dúvida chover.

 

4

 

Estes canteiros são laboratórios.

Sementes se plasmam na simbiose de cores e gostos.

Caules podres cavam a terra

e se tornam seu sal, sua seiva.

As folhas murchas caem dando lugar às verdes,

multidão de vermes coabita e reproduz,

formigas crivam as hastes de ácidos ardentes.

O sol flava a superfície das folhas,

a chuva encharca o seu cheiro,

o verde turvo do limo corrói as pedras,

o pátio é liso gelado como um lago empedrado.

 

5

 

O mesmo sabor das cascas de castanha

tem o som deste sol

carícia e folhas.

A saúde vegetal nos enche os olhos,

nos cura os poros.

Vejo passarem papagaios irreais,

curicas restritas num saguão de vinte pés,

a bacia de água e espuma,

o calor justo do dia

no verão, no verão.

 

6

 

Ao dia lavo as mãos por vinte vezes.

Exigências do trabalho,

sujeira dos arquivos

o pó que o vento varre dos cubículos do cais.

 

Lavo as mãos por vinte vezes.

 

7

 

Na época das chuvas a terra cria cravos,

ventres verdes de limo e lama.

O sabor travoso do vento esfria

o coração de mágoa macerado.

Folhas côncavas, convexas papoulas,

os pássaros pastoreiam seus doridos

trilos de açucenas e tajás.

O miúdo musgo morde as pedras túrgidas,

nódoas, caruncho, flor de urupês.

No tempo das chuvas o milho apodrece,

novos brotos bordam a terra

e o milho é louro e sua cana cortante.

dá canjica e cuscus no ápice da safra,

é pó para os pintos, cavalo de pau

do sabugo seco, para os moleques.

No tempo das chuvas o verde é a graça dos céus.

Sucos de araçá urgentes para o açúcar,

resinas de cascas áJacres,

caules sexuados, plantas prenhes,

no tempo das chuvas justas

quando a terra cria cravos.

 

(Poemas transcritos de Ciclo das águas,

Série Raimundo Monteiro, volume VI.

Edições Governo do Estado do Amazonas, 1966)

 

 

 

ROMANCE DA NOITE-CHUVA

 

Tremia o trovão na terra.

 

Talhavam a face torva

gota a gota os seringais,

era o deus que era raivoso

e vinha nos temporais.

 

Bramia o rumor do rio

nas noites de escuro e chuvas,

caía a faixa da terra,

piavam surdo as corujas.

 

Um noturno canto-pranto

cortava o céu em dois meios,

nosso deus vinha vestido

de nós e os nossos receios.

 

*

 

_ Minha mãe, onde é que eu acho

a lamparina da noite?

_ Meu filho, ela deve estar

pendurada lá no alpendre.

_ Minha mãe, por que a coruja

pia agora sem parar?

 

_ Meu filho, certo que existe

um defunto a amortalhar.

_Quero dormir, minha mãe,

dentro das trevas desta hora,

mas não posso me embrulhar,

o meu lençol me apavora.

_ Meu filho, dorme, não chora,

que o dia não custa a vir,

reza as três ave-marias,

muda a roupa e vai dormir.

 

*

A terra tremia toda.

 

 

ROMANCE DA PIRACEMA

 

Espumas de ardente brilho

era o verão que se abria.

Não há maior maravilha.

Ver o rio bem é ver

o rio vibrar de peixes.

De um lado ao outro as canoas

cruzam no centro os cardumes,

as tarrafas se desprendem

dos braços dos pescadores,

se desprendem como círculos

e voltam cheias de peixe.

Ah, a fartura infindável

desses dias de novembro!

Ter um peixe dentre os dedos

é sentir a vida inteira,

é como o abrir da janela

para o sol, a manhã vinda,

é como o acordar das trevas

de uma noite que não finda.

Há pescadores de nome

que nesse tempo se alargam

na fama que as bocas levam

de casa em casa. Os paneiros

se abarrotam e as panelas

trescalam de cheiro-verde,

ardem de pimenta e sal

todo dia nesses meses.

 

O rio brilha de peixes

como um bloco de alumínio,

ao longo longe das margens

se espalha aberta na aragem

a melodia das águas

cumuladas de cardumes,

a fuga dos lagos grandes

para os rios e afluentes,

das estreitas cabeceiras

pras embocaduras largas.

É tempo de muito peixe,

fartura de festa, a fome

deixa o corpo de quem come.

Não há casa que não tenha

o fogão cheio de lenha,

em qualquer casa que se entre

há na trempe peixe-sempre.

 

Vale viver dia a dia

esses dias de alegria.

 

 

 

ROMANCE DOS DIAS DE FRIAGEM

 

Copo azul de vidro fino

o céu nos sai nesses dias,

as estrelas tremeluzem

topázios de gatos vivos,

farrapos das alvas nuvens,

águas claras que se encontram.

No centro denso do vento

os corpos juntos se abraçam.

Faz frio na madrugada,

madrugada que se fosse

transcorrendo por três dias

sem noite e sem meio-dia,

degelos novos dos Andes

filtrados na terra fria.

 

*

 

Se as águas na superfície

se esfriam, no fundo fervem,

os peixes bóiam atônitos

à tona dos lagos grandes.

 

Dilatam as barbatanas

e se entregam como em terra,

peixes nágua e fora dágua

exilados no seu éden.

 

Não há pescador sem sorte

nesse tempo de fartura,

os mais panemas se jactam

de pescadores de fama.

 

Peixe que ferve no fundo

vem à tona respirar,

linguagem de escama e limo

que o vento destroça no ar.

 

*

 

Frio mais que a madrugada,

madrugada mais de um dia,

degelos novos dos Andes

filtrados na terra fria.

 

 

A MULHER

 

A mulher violava as águas

com as tranças dos cabelos,

perfumava o rio rosa

como um cardume de peixes.

 

Depois recolhia o corpo

nu, rendilhado de sol,

e afagava com os braços

aquelas estrelas claras.

 

Mas ficavam nos seus olhos

lavados, negros, céu limpo,

esses luzeiros fugazes

permanentes no seu brilho.

 

As rosas dos seus cabelos,

beleza de toda a vida,

novamente trescalavam

a eternidade do dia.

 

 

ROMANCE DAS SEMENTES

 

Sementes secas das safras

passadas ele as trazia

para plantar no verão

da sua imaginação.

 

Meu tio tecia paneiros,

lavrava cruzes e hásteas,

era surdo mas previa

o rumor dos temporais,

sentia os ventos malinos,

o verão nas folhas lisas

dos fecundos bananais.

 

Meu tio pescava de anzol

encastoado de chumbo

contra-piranhas-caju.

De volta, meu tio vagava

da pesca na sombra suja

da noite da várzea, só

com seus caniços e o remo,

enfiada a larga folha

de leve na maresia

em ritmos bem cansados

iguais aos da sua fala

e aos das suas abusões.

 

Tudo do meu tio estava

no seu devido lugar,

sua faca de abrir talas

sempre limpa e afiada,

sua pedra de amolar,

pedaços de pano velho

pra os rombos das suas roupas,

calças puídas, camisas

velhas mas sempre lavadas,

vidrinhos de andiroba,

garrafas de querosene,

negros rolos de cerol,

várias braças de arpoeira,

anzóis usados e pregos

roídos pela ferrugem,

agulhas de coser roupas

e de costurar tarrafas,

tarrafas que nunca fez;

passavam as piracemas,

os cardumes de sardinha,

o verão vinha e o inverno

passava cheio de chuvas

e nunca as suas tarrafas

deixavam suas agulhas.

 

Nos finados meu tio ia

fazer a iluminação,

bem cedo apanhava o remo,

o japá e a munição,

pedaços de pano velho

caroços de algodão

para tapar as goteiras

em qualquer ocasião,

pirarucu seco assado,

farinha, sal e limão.

Na cidade o meu tio ia

visitar os cemitérios,

as cruzes dos seus parentes

ele as sabia de cor.

 

Lá pela boca da noite

ele vinha - suas histórias

nunca mais teriam fim.

Contava coisas incríveis

para nós todos assim

meu tio passava a vida

contando fatos pra mim,

ligados aos tempos áureos

do rei, do seu general,

das marchas e das cadências

do tambor a marcial,

da guerra da cabanagem

que dizia ser real.

 

Inda hoje meu tio vive

com planos para as sementes

que até hoje não plantou,

esperando o bom verão

a fim de nele plantá-las

e visitar os parentes,

as suas velhas sementes

deixadas nos cemitérios,

sementes secas das safras

da sua imaginação,

passadas que ele as traz

para plantar no verão.

 

(Poemas transcritos de Romanceiro, José Olympio, 1990)

 

 

Romance dos pecados do poeta

 

Os pássaros, os canteiros

cedo acordam com os coros,

luz plantada sobre os córregos

na chácara frente à casa.

 

Vendedores apregoando

cruzam com os automóveis,

levam nos seus tabuleiros

bananas, mangas, laranjas.

 

Uma palavra à cabeça

logo lhe sobe, sem graça,

gotejada de sinistras

notações, é o pecado.

 

Não a manhã com os coros

dos pássaros apesar

da fina chuva que cai

em todo mês de novembro.

 

O pecado da poesia,

os desacertos do poeta,

a luta para captar

a verdade das imagens,

 

o pecado de forjar

nas manhãs outra manhã,

e querer mudar o ritmo

do caminho das criaturas,

 

a teimosa gratuidade

de malhar em ferro frio,

a larva tirar da lama,

da canção da guerra, a paz.

 

Pecado de desejar

a palavra, que rebenta

com os bichos das caieiras

dos costumes diários, limpa.

 

Pecado de trabalhar

sem sujar as mãos e as unhas,

sem se mostrar no trabalho

aos irmãos, amigos, todos.

 

Pecado mortal do poeta

a poesia desdenhada

pelos pássaros em coro

na chácara frente à casa.

 

(Poema transcrito de cartaz-homenagem da Editora Valer ao poeta,

na comemoração de seus 70 anos,

Élson Farias: 70 anos VIDA & POESIA, Manaus, 2006) 

 

 

(cartaz-homenagem digitalizado por Inês Sarmet)

Leia o poema no texto da página.


FARIAS, ElsonMade in Amazonas.   Manaus: Edições Pixiru, 1978. 28 folhas soltas em cartolina. 42,5x  Xilogravura se Zuazo. 23,5 cm. Programação gráfica: Roberto Evangelista. Álbum envolvido com embalagem de juta.  Apoio S.Monteiro Ltda.  N. 05 678  (LA)

 

 

 

 

FARIAS, Elson.  Um romanceiro da criação segundo os mitos hixkayâna a Geraldo Pinheiro.  São Paulo: Editora Monumento, s.d.  61 p.   Poemas escritos em Manaus entre dezembro 1965 e junho de 1966.Inclui o texto "Algumas anotações sobre os índios da tribo Hixkariâna", por Irna Marília Kaden.  Ex. Biblioteca Nacional de Brasília, doação da família de Francisco Vasconcelos. 

 

 

         A ORIGEM DO PEIXE

 

         Perseguida pelo irmão
         a mulher foi ao marido:
         — Faça tipiti.
         Perseguida pelo irmão
         que era o homem
         que a mandou fazer.

 

                            Ele foi, fora a aldeia,
                            e ficou abismado,
                            não sabia fazer tipiti
                            e não sabia como
                            aquela gente o fazia.

 

         A mulher foi para fora a aldeia:
         — Hei, você já fez o tipiti?
         — Eu não estou fazendo-o,
         não sei fazer.

 

                            Amanheceu outro dia,
                            a mulher voltou a procura-lo
                            e ele não sabia.

 

         Perseguida pelo irmão
         ela procurava o marido
         a saber do tipiti
         mas ele nada fazia.

 

                            — Você já o terminou, traga-o,
                            meu irmão está esperando,
                            você não é você mesmo,
                            nem parece você.

 

         — Venha, ela o puxou para si
         e o lado afiado da palha
         de que se faz tipiti
         decepou-lhe a perna — "Vá,
         vá em forma de peixe."

 

                            Foi, ninguém sabe aonde,
                            no tempo da criação.

 

 

 

         UNS BICHOS DE MAU AGOURO

 

         O jupará , aquele é
         um que não se pode ver,
         jupará é um que não
         se pode ver sob pena

 

                            depois de o ver de morrer
                            ou pode ser que morramos
                            depois de ver jupará,
                            mas talvez nós o vejamos.

 

         Meu pai disse, não o veja,
         não veja o jupará,
         depois que você o ver
         você logo morrerá.

                            Espécie de coró grande
                            o hamá é aquele outro,
                            um que não se deve ver,
                            pois depois de o ver se morre.

 

         Aqueles são uns que não
         se devem ver, posto serem
         bichos da morte ou da véspera
         da morte que se aproxima.

 

                            Depois de ver a mucura
                            somos nós os que morremos,
                            são uns que se consideram
                            muito fortes para nós.

 

         Foi o finado meu pai
         que me contou essas coisas
         e me pediu que eu não visse
         esses animais de dia.

 

 

 

FARIAS, Elson.  A destruição adiada.  Manaus, AM: Editora Valer, 2002.  108 p. 12x17,5 cm.   Ilustração: Fernando Júnior. Apresentação: L. Ruas.  ISBN 85-87707-03-5   Ex. Biblioteca Nacional de Brasília, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

         OS CAMINHOS DA ÁGUA

 

         Por via fluvial a cidade é rasa,
         a quem chega parece que se alaga,
         não na legendo do herói sem caráter
         que mora na ilha do Macunaíma.

         Os caminhos do céu sempre cerrados,
         a floresta fechada de  mistérios,
         só de vapor chegava-se à cidade.

         Por via fluvial, até ao oceano,
         os rios de águas pretas e barrentas
         se assemelham, análogos em tudo,
         a dois seres que no amor se misturam.

         Um dia a lenda do herói sem caráter
         na Ilha de Marapatá, incendiou-se,
         sol glorioso, voou o Macunaíma
         na prosa eterna do Mário de Andrade.

 

 

 

FARIAS, Elson.  Ciclo das águas (poemas) . Prefácio de Arthur Cézar Ferreira Reis.   Manaus, AM: Edições Govêrno do Estado do Amazonas, 1966.   131 .  14x21 cm.     Capa: ilustração:  de Afrânio e Castro. Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

 PAPAGAIO-DE-PAPEL

 

 Na tarde pétrea, vento e luz opaca,
 o papagaio abriu-se ao infinito;
 talas, retalhos, maçaroca fraca,
 tudo fundiu-se em eco no meu grito.

O sol catava estaca por estaca,
restos de cola, sobras de granito:
(A meninada aflora, corre e ataca:
queda — morreu! — pressentimento aflito.)

 — Vai, papagaio-de-papel ovante
no sol de ferro, cinza, casca e areia
dos bancos rudos da pracinha quieta.

De ti o que ficou fêz-me esta seta
de mágoa que fará do amor futuro,
um tempo de perene viver puro.

 


        

FARIAS, Elson.  Semibreves & exercícios de harmoniaManaus, AM: Editora Valer; Prefeitura de Manaus, 2006.   162 p.  14x21 cm.  ISBN 85-7512-203-7   . Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

         PEQUENA CANÇÃO

 

         Na varandinha toda tarde
         passa o sapo,
         lá fora o passarinho pousa
         toda tarde.

         Nas suas costas duras, o sapo
         traz a noite,
         no fim do dia o passarinho
         silencia.

         A noite é tudo para o sapo,
         mas o dia
         muito mais vale para o doce
         passarinho.          

                            6.03-90

 

 

FARIAS, Elson.  Barro verde. Poemas.    Manaus, AM: Editôra Sergio Cardoso & Cia Ltda. 1961.  66 p. Capa: Getulio Alho.  "Orelha" do livro por Luiz Bacellar.  Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

(fragmento)

 

Bate o sol, cascas de cobre,
azinhavre, tacho, mel,
vento forte de bananas,
bamburrais, bandeiras verdes,
plantação de seringais
fumegando a terra bruta,
sementes de cal partindo,
meio-dia, cão de caça
a estalar ladridos cavos,
cacauais, jurubebeiras.

Era no tempo dos frutos resinosos,
mangas, laranjas pendiam dos ramais,
as goiabas se partiam como risos
das "cabôcas" estendidas nos varais.

 


 

FARIAS, Elson.  Barro verde.  Organização: Tenório Telles. 2ª. edição.  Manaus: Editora Valer; Governo do Estado do Amazonas – Edua/ Uni-Norte, 2005.  64 p.  Fotos da capa e do miolo: Paulo Pereira, Edimar Barros, Sérgio Fonseca, Wilson Prata.  ISBN 85-751-169-3   Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

         3

 

         No rio a lâmina
         transluz-se forte,
         pedaço fulvo
         de praia e sal.

         Os peixes nascem:
         escamas vivas,
         escumas salvas,
         rio coalhado.

         Lembro-te à mesa
         de toalha branca
         e pratos limpos,
         pimenta e faca.

         Lembro-te belo
         nos dedos parcos
         de edificar-te
         em sons e enigmas.

 

 

 

FARIAS, Elson.  Romanceiro. Poemas.  Manaus, AM: Edições Puxirum, 1985. 103 p.  Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

"um livro que revela a vida do homem amazonense e sua fantasia."

 

        

O PEIXE

         Desenho um peixe
         de escuma e escama,
         espuma rósea
         de folha e lama.

         Um sol nos olhos,
         ardente imagem,
         no lombo um feixe
         de aroma-aragem.

         Galhas agudas,
         faca afiada,
         cabeça e lustre
         de tudo e nada.

         Espinha e carne,
         gelo e fagulha,
         verão de várzea
         de vasta chuva.

 


 

FARIAS, ElsonPalavra natural. PoemasBrasília, DF: Clube de Poesia e Crítica, 1980.  70 p.  Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

         A BORBOLETA

 

         A borboleta voa e duas
         vezes pousa nos meus dedos.
         Deus queira suas asas negras
         tragam bons, não maus augúrios.

         Vi borboletas verdes e
         azuis, em doce revoada,
         sempre traziam alegrias
         novas, em novas notícias.

         Pelo menos a manhã a
         borboleta negra traz
         nas frágeis nervuras das asas,
         nos mínimos olhos negros.

 

 

 

FARIAS, ElsonDo amor e da fábula.   Rio de Janeiro: Editora Artenova Ltda, 1970.  53 p.  18,5x23 cm.  Capa: Vincenzo Cognac.  Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 


         O poeta

 

         Seremos para sempre relembrados
         nas luas que hão de vir, nas noites vindas,
         por simples que sejamos, acabados
         os transes da conquista, por já findas

         as dúvidas dos sonhos confessados,
         faremos coisas belas, coisas vindas
         dos traços desses móveis trabalhados
         a golpes de antiquíssimos machados.

         As lutas e os revezes destes dias
         temperarão os planos de futuro,
         as nossas mais queridas alegrias.

         Ao fim o nosso olhar será mais puro,
         seremos mais humanos, mais divinos,
         e a todos cantaremos nossos hinos.

 

 

 

FARIAS, ElsonDez canções primitivas.   Manaus, AM: Edição do Autor, 1969.  43 p.  Impresso pela Gráfica Rex. Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

         7. no lugar do verbo um peixe

 

         Abro um dicionário antigo.
         No lugar do verbo um peixe
         em bico-de-pena rico
         prende-me os olhos na página.

         Leio o verbete e me inteiro
         do peixe, seu nome exato,
         "só reproduz na água doce",
         mais três palavras, e é tudo.

         Sável se chama e em seu jeito,
         galhas, cauda e barbatana,
         não difere quase em nada
         de alguns outros do Amazonas.

         *

         Pode ser que sável seja
         um peixe bem conhecido,
         dos que vivem nestes rios
         de espécimes infinitos.

         Se no rio sável eu visse
         dar-lhe-ia um nome logo,
         nas folhas do dicionário
         não sei caracterizá-lo.

         São peixes de lama e de ouro
         os peixes da minha infância,
         curvo-me ao jugo do livro,
         banho a minha ignorância.

         *

         No livro o peixe é um signo
         sem movimento e sem guelra,
         um signo, apesar de inscrito,
         numa página amarela.

Seu universo é nas águas
ou no prato com pimenta,
limão, farinha, temperos,
peixe, prato que alimenta.

*

O que me desperta o peixe
nesta página amarela
é a paisagem, a outra
que de súbito se eleva.

 Mergulho de olhos abertos,
apetrechos de pescar,
canoa, anzóis, linhas, remos
e uns braços cheios de ar.

É a brisa que madruga
as frias casas de palha,
a rede puída e úmida
onde o homem se agasalha.

*

Toda essa vida parada
é que me traz a gravura
do peixe no dicionário,
uma vida sem bravura.

A não ser que por bravura
se entenda o lento morrer,
se troque a paz pela guerra
tal o não-ser pelo ser.

A não ser que por bravura
se troque a pura beleza
das árvores gigantescas,
pela ação da natureza.

*

Mas o que mais fundo marcam
os olhos de quem o fixa,
são os traços agressivos
da sua forma quase elíptica.

E também o seu desenho
muito nobre e muito simples
como o de uma ave que só
se alimentasse de peixes.

 

 

 

FARIAS, Elson.  3 episódios do rio. Ilustrações Álvaro Páscoa. Manaus, AM: Editôra Sérgio Cardoso, 1965.   Livro inconsútil, folhas soltas em carpeta de papel. Ex. Biblioteca Nacional, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

         I

 

         A madrugada chegara
         molhada nessa manhã,
         água da noite de véspera
         escura.  Coruja e rã
         o sítio tarde dormia.
         Desabrochava-se a carne.
         De sombra os galhos de sombra
         feriam de luz mortiça
         a paisagem da manhã.
         O rio corria sem força,
         corria com pouco afã,
         as nuvens sujas pairavam
         tal quando canta o cauã.
         Fundo cortando insalubre
         vinha o vento na maçã
         do rosto já magoado
         da menina temporã.


         II

 

         Ela descia o caminho
         que dava da casa ao rio,
         a terra estava encharcada
         da noite de chuva e frio,
         o mato de folhas moles
         roçava-lhe fino o fio
         do corpo de raros pelos
         ensopados de rocio.
         Bocejo de fogo e forma
         se lhe esboçava esse abio
         duplo, da mulher-menina,
         planta agreste do arrepio.
         Cheia de sono e preguiça
         ia buscar água no rio.

 

         III

 

         Desde aí dessa manhã
         nunca mais ela voltou,
         seus irmãos desesperaram,
         seu pai quase se matou,
         fez sua mãe nove novenas
         mas de nada adiantou,
         andava de boca em boca
         que foi boto que a roubou,
         as mulheres lamentavam
         a mulher que se apagou,
         luz de sol maduro e quente
         que sequer nem se iniciou,
         flor de carne e sentimento
         que sem viver se murchou,
         correram todos pro rio
         mas ninguém a encontrou,
         rezaram nove novenas
         mas de nada adiantou,
         seus irmãos desesperaram,
         seu pai quase se matou,
         se pobre sua mãe existe
         de chorar se definhou,

         O mistério da menina
         que em mistério se acabou.

 

        

 

FARIAS, Elson.  Imagem.  Manaus, AM: Conquista, 1976.  79 p.  21x27,5 cm.  Capa C. Barroso. Ilustrações: Álvaro Páscoa. Patrocínio da Academia Amazonense de Letras. Apresentação de Djalma Batista. Ex. Biblioteca Nacional de Brasília, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

 

         VILANCETE DOS TRÊS RIOS

 

        Um remanso de panema
        poesia nada pequena.

        Entre rios, encachoeirado,
        desce entre um delta intrincado,
        desce vazio de peixes,
        desce deserto de pássaros,
        é rouxinol de sonora
        glória maior que a dos homens,
        Rio Negro mar de estrelas
        quando a noite vem sem lua
         corre a igara serena,
        um remanso de panema
        poesia nada pequena.

        Já outro é de festa imensa
        e de compleição imensa,
        rico de peixes e povo
        de pássaros sempre novo,
        a cada dia que passe,
        a cada dia que vença,
        Solimões rio que desce
        sob o sol duro, dourado,
        ao som de uma brisa amena,
        um remanso de panema
        poesia nada pequena.

        Depois os dois se debruçam
        amplos sobre um palco aberto,
        celebram o eterno anelo
        das águas negras, das águas
        e das águas amarelas,
        misturam-se após o diálogo
        amazônico, Amazonas,
        mar Dulce em delta de amargo
        sobre o mar, canção suprema,
        um remanso de panema
        poesia nada pequena.

       

Página ampliada e republicada em abril de 2017

 



 

 

 
 
 
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