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POETAS DO AMAZONAS

Coordenação: Donaldo Mello  e  Inês Sarmet


 

 

Inês Sarmet

s/ foto publicada em

Amazonas em Tempo de 09/12/05

 

 

ELSON FARIAS 

 

 

DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR

transcritos de Romanceiro, José Olympio Editora, 1990:

 

 

ELSON FARIAS nasceu em Roseiral, propriedade de seu pai no município de Itacoatiara, Amazonas, no dia 11 de junho de 1936. Passou a infância no local de seu nascimento e em várias cidades e vilas amazonenses por onde seu pai andou nos trabalhos de co­mércio e financiamento de extratores de produtos regionais, como Itacoatiara, Urucará, São Sebastião do Uatumã e Parintins. Estu­dou nas escolas públicas dessas cidades e vilas, até o primeiro ano do curso de formação de professores, feito no antigo Instituto de Educação do Amazonas, já em Manaus, para onde se mudou aos 18 anos e onde reside até hoje. (...) Tem dedicado sua atenção a duas atividades essenciais: a lite­ratura e o serviço público.

Ao chegar a Manaus, integrou-se ao movimento de renovação das letras conhecido como Clube da Madrugada. Ingressou mais tarde na Academia Amazonense de Letras, no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, e no Clube de Poesia e Crítica de Brasília. Com alguns companheiros fundou em Manaus a União Bra­sileira de Escritores do Amazonas, tendo sido seu primeiro presi­dente. Foi diretor do Departamento de Cultura, transformado em Fundação Cultural do Amazonas, da qual foi o primeiro superin­tendente; exerceu, ainda, em diferentes oportunidades, as funções de secretário de Estado da Educação e Cultura e da Comunicação Social. Ocupa agora o cargo vitalício de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Amazonas (...).

 

Por indicação da Associação Brasileira de Municípios (ABM) e a convite da Secretaria de Estado do Interior de Berlim, participou naquela cidade de um seminário sobre “objetivos e tarefas das ad­ministrações municipais no domínio da proteção ambienta”, promovido pela Fundação Alemã para o Desenvolvimento Interna­cional, no período de 11 a 31 de maio de 1986. Aproveitou para alongar caminho durante mais dois meses, em companhia de sua mulher e filhos, a Portugal, Espanha, Itália e França, ficando alguns dias em Lisboa, Madri, Roma e Paris, mas passando a maior parte do tempo pelo interior desses países, observando a vi­da e os costumes, e as festas populares das gentes de cidades, vi­las e aldeias. Considera essa viagem um verdadeiro curso sobre as origens de nossa cultura.

Possui poemas musicados por Guerra Peixe e pelos composito­res amazonenses, maestro Nivaldo Santiago, Aldízio Filgueiras e Pedro Amorim.

Sua poesia tem merecido estudos de diversos especialistas, sen­do em mais larga escala examinada nos livros O poeta e a forma exata, de 1972, de João Mendonça de Souza, e Uma poética das águas, resultado de tese intitulada A imagem do rio na poesia amazonense contemporânea, defendida pela professora Socorro Santiago, em 1982, na Universidade Católica de Curitiba”.

Nota:  Elson Farias é Presidente da Academia Amazonense de Letras

 

Principais obras do autor:

 

Barro verde. Manaus, União dos Estudantes do Amazonas, 1961; Estações da várzea. Manaus, Ed. Sérgio Cardoso, 1963; Três episódios do rio. Manaus, Ed. Sérgio Cardoso, 1965; Ciclo das águas. Ma­naus, Govemo do Estado do Amazonas, 1966; Dez canções primitivas. Manaus, ed. do au­tor, 1968; Um romanceiro da criação. São Paulo, Monumento, 1969; Do amor e da fábula. Rio de Janeiro, Ar­tenova, 1970; Imagem. Rio de Janeiro, Conquista/Academia Amazonense de Letras,1976; Roteiro lírico de Manaus em 1900. Ma­naus, Governo do Estado do Amazonas,1977; Made in Amazonas. Manaus, Puxinun,1978; Palavra Natural. Brasília, Clube de Poesia e Crítica, 1980; Romanceiro. Manaus, Puxirum, 1985; Balada de Mira-anhanga. Manaus, 1993, A destruição adiada , Manaus, 2002; Memórias Literárias.  Manaus, Valer, 2005.

*

"O Amazonas tem um poeta chamado Elson Farias (...). Um poeta de expressão rica, mas densa, senhor de seu artesanato, incapaz de gastar palavras só pelo gosto de mostrar-se sensível e muito menos eloqüente (a ponto de escrever um poema como um só e belo verso: "A macia serenidade do rio após a chuva".

          VALDEMAR CAVALCANTI (Jornal Literário, em O Jorna!, do Rio de Janeiro)

*

"Poemas de concisão e bom rendimento da palavra, sobretudo quando não descritivos; alguns exemplos interes­santes de sinestesia ("a chuva encharca o seu cheiro"; "O mesmo sabor das cascas de castanha/tem o som deste sol/carícia e folhas") sonetilhos musicais e três sonetos-beleza (os últimos). Nesta poesia ora de imagens verde seiva ora canções agrestes, perpassam Evas lúcidas e claros tons cânticos" 

STELLA LEONARDOS, sobre "Estações da Várzea, em Jornal de Letras, do Rio de Janeiro

*

"Através de sua contribuição (...) é que traremos para dentro de nós o conhecimento sensível do mundo em que se faz a nossa gente e o nosso tempo, do mundo em que somos, definindo-nos a todos, sem exceção, em nosso grau essencial de sermos homens, qualidade humana, Humani­dade".

                                                                                        MOACYR FELlX

*

ELSON FARIAS é a poesia viva do Amazonas. Sem desmerecer dos que fazem dos motivos poéticos a sua constante de inteligência, na sua expressão criadora, não é possível deixar de registrar o que há de profundo, de belo e de eterno na obra do poeta.

Minhas emoções, nesse particular, são escassas, muito escassas. Quando li, porém, os versos do poeta, experimentei a sensação de alguma coisa que fala realmente ao espírito e lhe proporciona momentos de abstração e de alegria intensa.

(...) Elson Farias afirma-se, com maior intensidade e maior conteúdo de beleza, como a figura de maior categoria entre as figuras novas da geração que promove a revolução intelectual em nossa terra. E essa revolução não é falha em valores, em sugestões, em dignidade cultural. Ao contrário, há nos que a realizam um grupo admirável de que o Amazonas se deve orgulhar porque realmente reflete a sua decisão de elaborar, aos imperativos de um meio áspero, mas também às seduções de uma natureza violenta que não se pode interpretar na adjetivação inexpressiva, banal, sem propriedade, a mensagem que lhe reflita o estado de espírito e como tal a inquietação da nossa gente.

                                   ARTHUR CÉZAR FERREIRA REIS, no prefácio de  Ciclo das águas, 1966

 

(...) Os seus ro­mances mostram realmente a vida do homem da Amazônia, sempre às voltas, sempre lutando com as águas dos seus imensos rios, mas sempre vencendo as intempéries das águas e da vida. Parabéns muitos e muitos pelos seus belos romances das águas.

PLÍNIO DOYLE

*

Foi uma pura alegria ler seu Romanceiro: título, textos, poemas, tudo forma um admirável conjunto que me rejubilo de conhecer, embora tão tarde: é que vejo que se trata de peças de duas décadas atrás, o que me aumenta o espanto e a admiração.

Você terá por certo recebido louvores de muitos leitores seus, pois a qualidade de seus redondilhos maiores supera o que há de melhor entre nós.

Você soube transmitir a impregnação aquosa do grande rio em todos os seus versos e em todos os seus leitores - livrando-se, ao mesmo tempo, e com muita sabedoria, dos trejeitos verbais tópicos e de um populismo pitoresco; sua fala, grave quase sempre, grácil quando convém, põe o Amazonas no coração de todos os brasileiros, insinuando em seus (nossos) corações o que há de grandeza, de mistério, de terra et aqua ignotae e de doce trivialidade de amar o berço em que se nasce: o Amazonas faz-se, assim, o rio por excelência, sobretudo como matéria poética.

Você é um grande poeta e eu o felicito por isso do meu mais fundo coração.

ANTÔNIO HOUAISS

 

*

 

 

Inês Sarmet

s/foto de acervo

do escritor Francisco Vasconcelos

 

 

FIGURAS

 

1

 

O sol ardia no roçado,

caniços secos ardiam no roçado,

folhas torradas

no sol do roçado.

 

Quero falar de ti,

curtas palavras

quero cravar

no solo claro destas pedras.

 

2

 

O verso vive nas cruzes do futuro.

Agora é o mero vento das fugaces

frases irreais,

a voz vazia dos bichos castigados

aos sons banais.

 

 

3

 

Nossa comida era branca,

peixe frugal,

favas fritas,

maxixes na água e sal.

 

4

 

A macia serenidade do rio após a chuva.

 

5

 

O jardim era encharcado no fim do inverno,

o verão era verde.

Heras medravam nas pedras sujas,

manjeronas se urdiam no pátio como cobras,

risos-do-prado japanas mucuracaás

papoulas rosas-pedra

lama seca

estalada em

retângulos de cinza.

 

6

 

Acre vento a nossa faca

feria os nós das raízes.

 

Pequenos santos, canoas,

barcos mirins e figuras.

 

Os nossos dentes trincavam

frutos verdes resinosos.

 

Rala folhagem dos galhos

moles no vento.

 

 

 

COLÓQUIO

 

1

 

Nestes dias a noite custa mais.

Nosso corpo dói de ternura.

O telhado das casas cor de barro lavrado

sossega nossos olhos.

Dois pontos no rio liso correm,

os largos pincéis do sol

riscam esboços de rosas.

 

2

 

Após a chuva a lua doura as folhas.

Tremes de medo em agosto.

Gostas da brisa incendiada na luz parda,

caules noturnos.

Tuas mãos cuidam de crivar os botões rubros

que se irão rachar de insetos

azuis

vermelhos

lilases

cinzas.

Após a chuva a lua doura as folhas

e passa em sossego.

 

3

 

O céu vive pesado de chuva,

vento frio, morna unidade.

 

Só nos teus olhos reside a graça

triste de brilhos, clara de pavor.

Estou pesado como o céu,

preciso sem dúvida chover.

 

4

 

Estes canteiros são laboratórios.

Sementes se plasmam na simbiose de cores e gostos.

Caules podres cavam a terra

e se tornam seu sal, sua seiva.

As folhas murchas caem dando lugar às verdes,

multidão de vermes coabita e reproduz,

formigas crivam as hastes de ácidos ardentes.

O sol flava a superfície das folhas,

a chuva encharca o seu cheiro,

o verde turvo do limo corrói as pedras,

o pátio é liso gelado como um lago empedrado.

 

5

 

O mesmo sabor das cascas de castanha

tem o som deste sol

carícia e folhas.

A saúde vegetal nos enche os olhos,

nos cura os poros.

Vejo passarem papagaios irreais,

curicas restritas num saguão de vinte pés,

a bacia de água e espuma,

o calor justo do dia

no verão, no verão.

 

6

 

Ao dia lavo as mãos por vinte vezes.

Exigências do trabalho,

sujeira dos arquivos

o pó que o vento varre dos cubículos do cais.

 

Lavo as mãos por vinte vezes.

 

7

 

Na época das chuvas a terra cria cravos,

ventres verdes de limo e lama.

O sabor travoso do vento esfria

o coração de mágoa macerado.

Folhas côncavas, convexas papoulas,

os pássaros pastoreiam seus doridos

trilos de açucenas e tajás.

O miúdo musgo morde as pedras túrgidas,

nódoas, caruncho, flor de urupês.

No tempo das chuvas o milho apodrece,

novos brotos bordam a terra

e o milho é louro e sua cana cortante.

dá canjica e cuscus no ápice da safra,

é pó para os pintos, cavalo de pau

do sabugo seco, para os moleques.

No tempo das chuvas o verde é a graça dos céus.

Sucos de araçá urgentes para o açúcar,

resinas de cascas áJacres,

caules sexuados, plantas prenhes,

no tempo das chuvas justas

quando a terra cria cravos.

 

(Poemas transcritos de Ciclo das águas,

Série Raimundo Monteiro, volume VI.

Edições Governo do Estado do Amazonas, 1966)

 

 

 

ROMANCE DA NOITE-CHUVA

 

Tremia o trovão na terra.

 

Talhavam a face torva

gota a gota os seringais,

era o deus que era raivoso

e vinha nos temporais.

 

Bramia o rumor do rio

nas noites de escuro e chuvas,

caía a faixa da terra,

piavam surdo as corujas.

 

Um noturno canto-pranto

cortava o céu em dois meios,

nosso deus vinha vestido

de nós e os nossos receios.

 

*

 

_ Minha mãe, onde é que eu acho

a lamparina da noite?

_ Meu filho, ela deve estar

pendurada lá no alpendre.

_ Minha mãe, por que a coruja

pia agora sem parar?

 

_ Meu filho, certo que existe

um defunto a amortalhar.

_Quero dormir, minha mãe,

dentro das trevas desta hora,

mas não posso me embrulhar,

o meu lençol me apavora.

_ Meu filho, dorme, não chora,

que o dia não custa a vir,

reza as três ave-marias,

muda a roupa e vai dormir.

 

*

A terra tremia toda.

 

 

ROMANCE DA PIRACEMA

 

Espumas de ardente brilho

era o verão que se abria.

Não há maior maravilha.

Ver o rio bem é ver

o rio vibrar de peixes.

De um lado ao outro as canoas

cruzam no centro os cardumes,

as tarrafas se desprendem

dos braços dos pescadores,

se desprendem como círculos

e voltam cheias de peixe.

Ah, a fartura infindável

desses dias de novembro!

Ter um peixe dentre os dedos

é sentir a vida inteira,

é como o abrir da janela

para o sol, a manhã vinda,

é como o acordar das trevas

de uma noite que não finda.

Há pescadores de nome

que nesse tempo se alargam

na fama que as bocas levam

de casa em casa. Os paneiros

se abarrotam e as panelas

trescalam de cheiro-verde,

ardem de pimenta e sal

todo dia nesses meses.

 

O rio brilha de peixes

como um bloco de alumínio,

ao longo longe das margens

se espalha aberta na aragem

a melodia das águas

cumuladas de cardumes,

a fuga dos lagos grandes

para os rios e afluentes,

das estreitas cabeceiras

pras embocaduras largas.

É tempo de muito peixe,

fartura de festa, a fome

deixa o corpo de quem come.

Não há casa que não tenha

o fogão cheio de lenha,

em qualquer casa que se entre

há na trempe peixe-sempre.

 

Vale viver dia a dia

esses dias de alegria.

 

 

 

ROMANCE DOS DIAS DE FRIAGEM

 

Copo azul de vidro fino

o céu nos sai nesses dias,

as estrelas tremeluzem

topázios de gatos vivos,

farrapos das alvas nuvens,

águas claras que se encontram.

No centro denso do vento

os corpos juntos se abraçam.