DONALDO MELLO
Donaldo de Lima Mello nasceu em Manaus, Amazonas, em 1950, e reside na Capital Federal desde a década de 80. Atuou como professor universitário, economista e cientista político no Rio de Janeiro e em Brasília. Também como cronista do jornal eletrônico Ars Clara, abrigado no portal da Livraria Soletrando, de Niterói (coluna Eixo Cultural Brasília). Publicou poemas em 20 antologias decorrentes de concursos nacionais e internacionais de que participou, tendo recebido alguns prêmios por aquela via. Recentemente, teve seu nome e trabalho inscritos no livro Poesia e poetas do Amazonas(1785-2005) - Tenório Telles e Marcos Frederico Krüger, Manaus, Valer, 2006. O poeta não tem poupado esforços no sentido de granjear novos apreciadores de poesia. Dessa forma, tendo a música como importante aliada, tem participado de eventos em escolas públicas com estudantes de ensino fundamental e médio, de recitais públicos em projetos comunitários e de performances poéticas em que interpreta seus textos e de outros autores. Tem poemas gravados em CD, sendo um musicado para voz e piano camerísticos. A correspondência com o poeta e pedidos de seu livro Véspera de Azul- ilustrado por Inês Sarmet e publicado por Valer/Massao Ohno Editor- podem ser feitos pelo e-mail donaldomello@terra.com.br
"Trabalho com um grupo de pesquisadores da poesia latino-americana contemporânea, o CEPIA, e podia pensar em uma intervenção universitária a propósito da sua poesia. Gosto realmente do seu livro. (...) Espero que continuemos o nosso intercâmbio".
Catherine Dumas, professora titular do Departamento de Estudos e Pesquisas sobre Portugal, Brasil e África de Língua Portuguesa, Sorbonne, Paris
"Os textos se harmonizam com a arte de Inês Sarmet e o resultado é uma sensação de serenidade que fica no leitor. Será bom ler Véspera de Azul ouvindo o saxofone do poeta. Poesia no sentido forte de equilíbrio, de justeza. Zen. Nem acima nem abaixo da dura realidade: através".
Eliana Bueno Ribeiro, escritora residente em Paris, autora de Brésil: Littérature et Culture, publicado pela Embaixada no Brasil na França
"O seu livro Véspera de Azul chegou às minhas mãos e já tive o prazer de lê-Io. É um livro de poesias incomum nos nossos dias, porque em geral apresenta uma perspectiva promissora e positiva da existência, e principalmente do futuro provável. A sua é portanto uma poética perfeitamente em harmonia com a "poética" básica do espírito brasileiro, que apresenta uma tendência positiva em relação ao destino individual e coletivo. Não por acaso uma das principais peças do Vianinha se chamava Brasileiro, profissão: esperança."
Julio Monteiro Martins, professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira na Universidade de Pisa - Itália, escritor e editor da revista literária Sagarana (www.sagarana.net)
"O quadro impressionista que a poesia de Donaldo Mello revela é de um otimismo beirando ao tocante: "(...) Tudo flui. Suave. Pacífico estado eterno. (...)" Ainda no seu entender: Há duas palavras/que a poesia não consegue separar: ver e só. Como na indissolúvel sonata schumaniana que ele exercita com Inês Sarmet, a suprema ilustradora deste livro princeps” . Massao Ohno, editor, na orelha do livro Véspera de Azul
"A poesia de Donaldo Mello é emblemática do compromisso com a vida e com a beleza. Seu trabalho é expressivo de sua dedicação à arte do verso, também de sua exigência e rigor no plano da elaboração poética. (...). A constância e a dedicação à poesia fazem de Donaldo Mello um caso exemplar. O tempo e as dificuldades não arrefeceram seu entusiasmo pela faina poética. A publicação deste livro é uma metáfora dos desafios que ensejam a luta dos artistas que se dedicam ao ofício de encantar as palavras. Este livro, além de seu conteúdo poético, é portador de uma lição: não há sonho sem sacrifícios e toda realização nasce da paciência e da perseverança" Tenório Telles, escritor residente em Manus-AM, autor, entre outros, de A derrota do mito, Valer, 2003, professor de literatura e editor.
"É muito raro encontrarmos um poeta estreante com a maturidade de Donaldo Mello. Embora seu gosto pela literatura remonte aos anos adolescentes, ele teve paciência e suficiente autocrítica, essa rara virtude, para aguardar o momento certo de reunir em livro seus poemas. (...) Donaldo consegue atingir o que todo poeta verdadeiro almeja - a alma universal, perpassada por contradições e paradoxos, algo difícil de se transmitir por qualquer forma de arte, quando o autor não domina o seu ofício.".
Jason Tércio, escritor residente em Brasília, autor, entre outras obras, de Órfão da Tempestade (biografia do cronista Carlinhos Oliveira), Os escolhidos, A espada e a balança e Pão de Queijo em Hard Park, além de organizador da série de trabalhos de José Carlos Oliveira, que vem sendo reeditada.
"Fique certo o leitor de que Véspera de Azul não é uma obra somente sobre o tempo. Está estruturada nos sentidos: visão (do escuro), audição (do silêncio), olfato (do inodoro), paladar (do insípido) e tato (do desconhecimento). (...) Os exigentes do gênero encontrarão em Véspera de Azul uma lição de como se produz arduamente poemas (...) Poemas se constroem com arte, técnica, temperança, suor, persistência, exigência, denodo. (...) Poeta faz desprender a poesia do poema, extrai a aurora de dentro do Sol. E isso Donaldo Mello sabe fazer. Assim como sabe utilizar pincéis, tela e tinta a artista plástica que ilustra este livro-solo, Inês Sarmet"
Iterbio Galiano, escritor residente em Niterói-RJ, jornalista e produtor cultural, responsável pelo Programa Polifonia das Ruas, veiculado pela UNITEVÊ, autor, entre outros, de Doidas Conversas: João do Rio, o anfitrião de Charles Baudelaire.
"Li de uma assentada o Véspera de Azul. Uma estréia com a qualidade dos veteranos. (...).0 que chama a atenção também na confecção poética é a busca da essência com o mínimo de recursos. A economia de meios é patente. É como a homeopatia que chegou ao paroxismo da redução para encontrar a eficácia. Seus poemas têm esse condão de dizer tudo sem adereços, sem adjetivações desnecessárias. Há como que um pathos metafísico, algo que transcende a mera formalidade do vocábulo para ser entendido num plano onírico. (...). A poesia em Donaldo Mello é compromisso reflexivo com a vida (...) Véspera de Azul abre -nos as janelas para a possibilidade de vôos na imensidão metafórica de uma criação do mais alto nível".
Ronaldo Cagiano , escritor residente em Brasília, autor, entre outros, de Dezembro indigesto
“Venho agradecer o presente encantador que me enviaram: o livro de poesia Véspera de Azul - jóia criada pelo casal de artistas. Sobre a obra, escreveu um artigo admirável o confrade Jason Tércio. Apóio tudo que ele escreveu".
Cassiano Nunes, decano dos poetas de Brasília, seu primeiro editor foi também Massao Ohno, editor do Véspera de Azul.
"Agradeço-lhe com fervor e alegria o delicado e harmonioso dom que me oferecem. Como jóia e porta-jóia de belezas múltiplas e sempre generosas, diante da vida e dos homens."
Marco Lucchesi, professor da UFRJ, escritor, então editor da Revista Poesia Sempre, publicada pela Biblioteca Nacional, autor, entre outros, de Sphera e Poemas Reunidos tc ""
“(...) Caixa de Bordado é composição que, feita sob medida, calha magnificamente como texto de abertura deste livro - Bordado para Iniciantes - de Donaldo Mello. Não apenas pelo evidente nexo com a linha anunciada no título geral, mas também, e sobretudo, pelo fato de que a caixa, com suas pequenas utilidades e inutilidades (realinhavo livremente palavras usadas pelo autor), é mais do que metáfora do livro, porque metáfora da vida. (...)
Donaldo Mello conduz a sua poesia de modo harmonioso e metódico. Há certa homogeneidade nos seus procedimentos. Mas, vez por outra, de repente um clarão. Que ajuda a ver o que se oculta nas sombras anteriores e a prospectar as que virão. “Asas da Liberdade” é um desses clarões - como um relâmpago na floresta noturna.(...)
Os poemas aqui reunidos são, freqüentemente, breves, sugestivos, elípticos. A memória em blocos, em coágulos incomunicantes; contudo, pelo mistério da poesia, comunicativos. Foi o que quis dizer quando falei em sombras. E o hermetismo, que sela parte deles, pode ser exemplificado justamente num poema intitulado “Sombra”. (...)
A economia de meios, expressão que muita vez encobre ou disfarça a falta de recursos, no caso de Donaldo Mello é, de fato, uma opção expressiva. A riqueza da caixa de pertences do poeta é visível em diversas composições, mas escolherei para exemplificá-la um único poema, o de título “Assobia, Vento, Assovia”: atente-se em que a substituição da bilabial pela fricativa, longe de ser gratuita, longe de traduzir uma mera exibição da duplicidade gráfica do vocábulo, é sabiamente expressiva, criando um crescendo imitativo, onomatopaico, na passagem de uma forma para a outra, como o assovio em v, rascante, sobrepujando a mais delicada sibilação da primeira. tc " A economia de meios, expressão que muita vez encobre ou disfarça a falta de recursos, no caso de Donaldo Mello é, de fato, uma opção expressiva. A riqueza da caixa de pertences do poeta é visível em diversas composições, mas escolherei para exemplificá-la um único poema, o de título “Assobia, Vento, Assovia”\: atente-se em que a substituição da bilabial pela fricativa, longe de ser gratuita, longe de traduzir uma mera exibição da duplicidade gráfica do vocábulo, é sabiamente expressiva, criando um crescendo imitativo, onomatopaico, na passagem de uma forma para a outra, como o assovio em v, rascante, sobrepujando a mais delicada sibilação da primeira."
Sirvam estas palavras iniciais de alerta ao leitor para as possibilidades da leitura poemática, em geral, e particularmente dos poemas deste livro, singularmente ilustrado pelas digigrafias de Inês Sarmet. Mais não pretendo, acrescentando apenas que, para a vera apreciação de qualquer (boa) poesia, entrega é fundamental. Encerro-as, apropriando-me de outro dos relâmpagos inventados pelo poeta (em “Velejando”), com a afirmação de que a poesia de Donaldo Mello, neste livro, progride a “velas enfunadas, plena”. Anderson Braga Horta (fragmentos do prefácio escrito para o livro Bordado para Iniciantes, que ainda está inédito)
CAIXA DE BORDADO
O caos é uma ordem por decifrar
José Saramago em O Homem duplicado
Guardados sem utilidade,
lembranças apenas:
o Agnus Dei da viagem,
um santinho-mensagem
da Primeira Comunhão,
medalhinha de N. Sra.
do Perpétuo Socorro,
bóton da Liga Católica.
Lembranças com utilidade,
guardados apenas:
muitos botões solteiros,
botão de osso, de plástico,
de metal, de madrepérola,
forrado de pano.
Botões miudinhos, graúdos,
caídos no caminho.
Despregados.
Apenas
inutilidades,
guardadas lembranças:
carretéis variados, avariados,
vazios, incompletos.
Jardas de linha: puídas, partidas.
Despregadas.
Meadas com tons diversos: arco-íris na caixa.
Linha Corrente, Varicor, timbre variado no bordado:
entre o roxo e o encarnado, escarlate em sustenido
o azul em bemol. O caos da caixa se encaixa:
em tardes soturnas, domingos vazios, alinhavando
cascalhos de resquícios - colcha de retalhos, de sombras.
Das sobras do passado, pó,
ao futuro do presente: Vida ... só!
ASAS DA LIBERDADE
Que terás visto?
Há quanto tempo tu avisas,
bem-te-vi ...
Cora Coralina em Vintém de Cobre
Estático,
o pássaro,
canta no alto.
Embaixo, o ser,
ouvindo cantar
voa estático.
Estático,
o pássaro,
sem cantar .
Embaixo,
o ser-pássaro,
ainda a ouvir cantar.
Fundem-se no alto
os pássaros
no silêncio do vôo ...
Para Bernardo Bernardes, poeta da 7ª Arte
SOMBRA
A verdade não penetra num entendimento rebelde.
Se todos os lugares da terra estão no Aleph,
ali estarão todas as (...) fontes de luz.
Jorge Luiz Borges em O Aleph
Perfil de mão.
Oferenda de hóstia.
Flutua sobre espelho
d’água, sutil.
Relógio de sol,
sem Sol,
sem luz,
seduz.
À sombra de Borges,
seqüência
numérica apenas.
De cinco a dezenove,
haste de ferro no
centro.
Sem sombra,
o
tempo dissolve.
Bússola sem Norte.
Tempo como invenção
do homem.
ASSOBIA, VENTO, ASSOVIA
Reuniram-se em congresso
todos os ventos do mundo; ...
Joaquim Cardozo
Quando formos
tão velhos
quanto os ventos,
agora será tudo
que teremos.
O futuro ruiu,
fugiu.
Esfumou-se
com o tempo.
Como vento.
E, na parede,
talvez restarão
fixados
alguns retratos:
bisavós, avós.
Retrovisor
embaçado.
VELEJANDO
A Vera e Luiz Amorim,
carnes e livros na mesma navegação
À-toa, à-toa.
Vida é tão boa.
Navegando frágil,
como uma canoa.
A vida vale a
pena, a velas
enfunadas, plena.
(poemas transcritos de Bordado para iniciantes, livro inédito)
(DES)APONTAMENTOS DE CORTE E COSTURA
Às costureiras d´antes...
Reclame colado
em um poste de arrabalde:
“COSTURA-SE PARA DENTRO”
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Entre aviamentos dispensados:
a linha de luz
do Sol
uma linhazinha laranja
fininha
auxilia na costura
do tecido da claridade
Por desuso do amor
o uso de linhas frágeis
descostura em vácuos
de escurecimento
Pontos em cruz
se cruzam
nas sombras de
agulhas rombudas
Robustos dedos abraçam-se
em torno das agulhas finas
cerzindo meias velhas
Velhas meias-verdades jazem
envolvendo ovos de costura
como as velhas meias
furadas
Caducam no dedal
plena candura
pena!
OLHA O PASSARINHO
Desafiar a lei da gravidade,
por brincadeira,
parece ofício de helicóptero.
Desafinar a lei da gravidade,
por ofício, onde for,
parece brincadeira de beija-flor.
VENDO PASSARINHO
Cata-vento em movimento,
daqueles de domingo no zôo,
pode ser também
como olhar o decolar
de uma rolinha ao vôo.
Detrás, em linha reta,
ruidinho de bicicleta
percorre uma fuga,
fugaz, zás.
............................................
Movimento em cata-vento
Uma rolinha traz.
VOLPI ESTILIZADO
Varal de roupas recicláveis
nos quintais humildes
dos arrabaldes.
Varal de bandeirinhas amáveis
nas festas juninas
das províncias.
Varal de brinquedos infláveis
no mercado informal
do trabalho neofuneral
Varal de pessoas descartáveis
no pecado mortal
da República neocanibal < |