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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



POETAS DO AMAZONAS

Coordenação: Donaldo Mello e Inês Sarmet

 


Inês Sarmet s/ foto de capa de SUCO DE ESTRELAS


AUREO MELLO

 

Aureo Macedo Bringel Viveiros de Mello nasceu em Santo Antônio do Madeira, MT, em 1924, mas viveu boa parte de sua vida no Amazonas. Poeta, advogado, jornalista, pintor e político (ex-deputado e ex-senador). Publicou, entre outros, os livros: Luzes tristes (1945), Claro-escuro (1948),  Presença do estudante Inhuc CambaxirraAs aureonaves (1985), Inspiração (1989),  O muito bom sozinho(2000),  Como se eu fosse um cantador (1999), Onde está Gepeto?(1999), Heliotrópios adamantinos lácteos: suco de estrelas (2004).

 

 Como se eu fosse um cantador, para mim, é uma autobiografia diferente de tantas, pioneira, em 132 sonetos caprichadamente medidos, lantejoulados de rimas ricas, sonorizantes (...)” KIDENIRO TEIXEIRA

 

Aureo vem de uma tradição poética marcada pelo metro e rima. Régua e esquadro riscando curvas que se transfiguram em “suco de estrelas”. A lira do delírio, quase, num majestoso encontro do rio com o mar, denunciando as profusões amazônicas da criação e destruição. Verdadeira pororoca desafiando. A ponta da lança, atingindo a memória e explodindo na mais nova galáxia do planisfério da invenção. Desfiando as memórias do Rio Guaporé, por exemplo, em tantos sonetos. Alexandrinos alguns, amorosos cristalinos, “de bubuia”, a flutuar sobre as águas da poesia, esplendendo alegria de menino “numas conversas de Áureo e passarinho.”    DONALDO MELLO

 

 

Como se eu fosse um cantador
( memórias do Rio Guaporé)

 

I

 

Andei rondando pelo mundo afora

E quase me esqueci de ti, poesia.

E quão mais longe caminhando eu ia

Menos pensava em ti, meiga senhora.

Mas nesta noite novamente agora

Estou contigo aqui, rezando pia

Prece de rendição e de alegria

Porque afinal tu não te foste embora.

Como viver sem ti, poesia amada,

Se tremo ao defrontar-me ao pensamento

De um dia ver chegar enfim o nada

 

E como Alphonsus, escutar um sino

Com seu dobre pesado e macilento

Apagando o meu tempo de menino?

 

 

 

XII

 

A vida é como um trem que vai passando...

Cada vagão é um ano transcorrido

Puxados por um coração sofrido

Aos poucos da estação se distanciando.

Esses tablóides cheios vão rodando

Nos trilhos do mistério indefinido,

Levando histórias do que foi vivido,

Do infante ao velho que já vai findando.

 

Às vezes passam mais de oitenta ou cem

Vagões repletos de produtos vários

(O conteúdo vivencial do trem)

 

E sempre apita um derradeiro adeus

Como se fosse um som de Stradivarius

 Se despedindo dos amores seus...

 

 

 

XXXV

 

O homem ou crê ou fica louco. A vida

É mistério, tão bárbaro e medonho,

Que o sujeito ou se pendura no sonho

Ou numa áspera corda bem comprida.

 

Que venha a fé, mesmo estando vestida

De estranhos balandraus ou que tristonho

Seja o rosto de Paulo, ou Possidônio,

Expressando uma lágrima contida.

 

Um momento há que faz rendermos loa

Àquilo que nos céus finge que voa

Ou ao da besta urrar no abismo fundo.

 

Tem de haver algo que não crer na morte

Nos faça e acreditar que um poder forte

Fará de amor o amálgama do mundo.

 

 

 

XCIII

 

Voltando a Santa Fé. Meu pai me ensina

Lições de Português, principalmente

E nós mantemos um duelar freqüente

Sobre consoantes, porque nem na China

Aceitava eu PH como genuína

Forma de dizer f corretamente,

Commércio com dois emes é indecente

No meu conceito e uma batata quente

Era Ella com dois eles. Eu teimava.

Em etimologias se apoiava

Meu pai, filho da Atenas brasileira.

 

Phantasma, Commerciante, Pharrnacia

Eram fórmulas que eu me comprazia

Em contestar, chamando-as de "besteira".

 

 

 

XCIV

 

Uns seis dias depois de o Elefante

Ter sido morto pelo jacaré

Meu pai, pela manhã, me trás, ovante

Um "Diário Oficial" que lê com fé.

Por um decreto irrevogável é

Que o nosso idioma, dessa data em diante

Se escreve na fonética falante

E que etimologia não dá pé.

 

Fora os "phantasmas", o "commercio" e os "ella"

Abaixo os "pharmaceuticos", seqüela

Do tempo antigo que traía o fonema.

Viva a revolução do tempo novo

Onde se escreve como fala o povo

Quer seja em prosa, em verso ou seja em poema!

 

Transcrito de Como se eu fosse um cantador ( memórias do Rio Guaporé)

 

 

Mandatos

 

Fui benigno. E também leal com os meus patrícios.

Não retirei o pão da.boca de coitados.

Fechei-me às tentações e dei volta aos achados

Potes de ouro e dobrões que me seriam propícios.

 

Ao sonho consagrei, qual fogos de artifícios

Palavras com clarõesque vos foram mostrados

E no potro do ideal corri nos descampados

A bandeira a agitar do Cristo os sacrifícios.

 

Só  pequei por amor a celestes fascínios

De corpos aromais e sagrados escrínios

Onde depositei meus astros lapidados.

 

Ou Heliotr6pios meus, adamantinos lácteos

Que o mistério maior, sem ter piedade, abate-os

Na campina surreal dos fatos consumados.

 

 

(transcrito de Heliotrópios Adamantinos Lácteos: suco de estrelas)

 

Os poetas Donaldo Melo, Aureo Mello e Antonio Miranda na ANE-Associação Nacional de Escritores, Brasilia 03/05/06. Foto: Robson Corrêa de Araújo

 

 


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