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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



POETAS DO AMAZONAS
Coordenação: Donaldo Mello e Inês Sarmet

 




ANIBAL BEÇA
 

 

Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto nasceu em Manaus em 13 de setembro de 1946. Poeta, compositor e jornalista faz parte da geração de poetas amazonenses denominada Pós-Madrugada, surgida no final da década de sessenta. Membro da UBE e envolvido também com teatro e artes plásticas, tem dado efetiva contribuição à divulgação da cultura amazônica. Membro da Academia Amazonense de Letras e Presidente do Conselho Municipal de Cultura de Manaus, de sua obra poética poderiam ser destacados os livros: Convite frugal (1966), Filhos da Várzea (1984), Dez haicais para os olhos da amada e outros poemas tocantes (1984), Itinerário Poético da noite desmedida à mínima fratura (1987), Suíte para os habitantes da noite (1994)  - com o qual ganhou o Prêmio Nestlé de Literatura, na categoria Poesia - e Banda de asa (1998) . Site do poeta: http://portalamazonia.globo.com/anibal/

 

 

“(...) Não faço prefácio. /Faço esta serena invenção: / como de açucena o brilho /

contente perante a luz / da manhã que se levanta / e impregnando vai a vida / de sonora claridão. // Feliz dança, banda-de-asa / papagaio de famão, / assim te louvo cantando / Aníbal, meu claro irmão.”  THIAGO DE MELLO

 

 

“A obra poética de Aníbal Beça está identificada com a vertente experimental da literatura brasileira. O autor concebe o fazer literário sob uma perspectiva formal, revelando permanente preocupação com os processos de elaboração de sua produção poética.”  TENÓRIO TELLES

 

 

" É de coração aberto que lhe desejo a maior receptividade pública e compreensão para a bela poesia que está elaborando e que, espero, marcará seu nome como um dos que engrandeceram o cultivo ar­tístico do verso."CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Rio de Janeiro, 31 de julho de 1987.

 

 

“Anibal é o poeta moderno por excelência, a partir do momento em que elege a linguagem como referencial de seu fazer poético”. ZEMARIA PINTO

 

 

“Muito me encantou o seu barulho mu­dado em melodia. É como se eu sen­tisse nostalgia... Já estive em Belém do Pará, em 1950 (escrevi até uma Ode Equatorial) e senti a atração do Equador. Mas, em você, essa equato­rialidade é uma explosão!" LÊDO IVO, Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1984.

 

 

Neste ano venturoso no qual se comemora o sexagésimo aniversário de nascimento do vasto poeta amazonense Anibal Beça, a quem tantos titãs da Musa já saudaram, resta-nos tentar compartilhar a encantação proporcionada pelo seu notório “cultivo artístico do verso”, como afetuosamente destacava Carlos Drummond de Andrade.

Aníbal, usando o “poder de ave” - do vôo - que a Arte poética às vezes concede aos oficiais do ofício, produz a comunicação inconsciente do estado d´alma em que se encontra, revelando uma rara beleza musical  (mesmo cego de mim eu pude ver/e sentir no teu beijo a clara essência/que faz do nosso amor raro prazer) como nesta sonata para ir à lua.

Os artistas gregos obtiveram os seus assuntos da religião popular. Fídias recebeu o seu Deus de Homero, e os poetas trágicos não inventaram os conteúdos de suas obras. Assim também Aníbal, iluminado pela visão amazônica universal, múltiplo, cintilante, afetuoso, consegue transfigurar o poema numa espécie de magia mística semelhante ao estado de oração. Vida longa, saudável e feliz, de coração desejamos.  

DONALDO MELLO, Brasília, março de.2006

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

 

(Suíte para os habitantes da noite)  VI

 

EM TOM DE OLD-BLUES PARA PIANO, SAX,

CONTRABAIXO, GUITARRA E BATERIA

 

Quem saberia de mim

se me visse assim como estou

rendido ao aço das manhãs

pastoreando esse meu cão

por essas ruas tão tranqüilas

 

Que gemelar seria eu

linha paralela de vida

e tão parelha dessas ruas

fagulha dupla de mão única

bifurcada e sem retorno

nos afazeres do meu sonho

 

Em mim eu sou o que não fui

comigo fui o que não era:

derrotado nominado

o nominado vencedor

e resta só o testemunho

do cão que me acompanha agora

e dessas ruas que me sabem antes 

 

 

 

(Suíte para os habitantes da noite)  IX

 

CZARDAS PARA SERROTES COM ARCOS DE VIOLINO

E BERIMBAU DE LATA

 

Esta anábase é de hora aberta desnudada

tão desmedida como foi a minha vida

de nada me arrependo apenas me perdôo

porque meu vôo nem sequer se iniciou

 

E dessas nuvens que me espaçam esgarçadas

trapos e cordas dissonantes dessa lira

são acidentes de percurso em que recorro

como um Zenão o parafuso desse vôo

 

Assim nessa colméia em zíper me percorro

como um zangão no zigue-zague nos hexágonos

ando à procura de uma abelha desvairada

 

que me acompanhe na aventura pelos pântanos

exorcizando a desrazão desses escorços

essa não-ave desgarrada do meu nada  

 

 

 

(Suíte para os habitantes da noite)  XIII

 

ÁRIA PARA TENORINO E FLAUTIM

 

o gato aparece à noite

com seu esquivo silêncio

de passos bem calculados

num jogo de paciência

as garras bem recolhidas

na concha de suas patas

 

 

O gato passeia a noite

com seu manto de togado

como se fosse um juiz

de presas resignadas

a sua sentença de sombras

seu apetite de gula

 

O gato varre essa noite

facho de suas vassouras

vermelhas de olhos ariscos

E alcança nessa limpeza

movimento mais presto

o guincho mais desouvido

 

Mais que perfeito no bote

(tal qual Mistoffelees de Eliot)

do pulo que nunca ensina

tombam baratas  besouros

 peixes de aquário catitas

ao paladar sibarita

 

Nada à noite falta ao gato:

nem a presteza no salto

nem a elegância completa

do seu traje de veludo

para o baile dos telhados

roçando as fêmeas no cio

 

O gato é ato em seu salto

e a noite luz do seu palco

ribalta luciferina

lunária ária da lua

na réstia de seus dois gozos

é felix feliz felino

 

Guardei a sétima estrofe

para o canto do mistério

das sete vidas do gato

e seu tapete aziago

nas noites de sexta-feira

há provas de seu estrago 

 

 

 

(Suíte para os habitantes da noite)  XXXII

 

SONATA PARA IR À LUA

 

Desnudo já me dou de mim doendo

na doação das folhas da floresta

que vão caindo sem saber-se sendo

pedaços de nós na noite deserta

 

A lua imponderável vai ardendo

cúmplice em nossa luz de fogo e festa

Meus braços são dois galhos te dizendo

que o forte às vezes treme em sua aresta

 

Esta outra face frágil de aparência

que só aos puros é dado conhecer

no abraço da paixão e sua ardência

 

Mesmo cego de mim eu pude ver

e sentir no teu beijo a clara essência

que faz do nosso amor raro prazer  

 

 

 

COPLAS DAS ÁGUAS (Itinerário poético da noite desmedida à mínima fratura)

 

 

Dessas águas beberei com a saliva

em barro salamargo - livre púcaro

que são as minhas mãos curvada concha

 ó fruto sazonado - rio maduro.

 

No sol clave me faço sons do dia

ao encontro de peixes do silêncio

e me transporto à faina dessas águas

 com tarrafas anzóis e camurins.

 

Meu alazão minha canoa afoita

relinchando na espora do meu remo

que sai corcoveando nos banzeiros

e vai no seu ofício cavalgar.

 

Eu quero a claridade das manhãs

mansa fala dos ventos sussurrando

cardumes de segredos piracemas

ó tempo de fartura que me salva.

 

Mas a messe que traz essa bonança

vem do fundo encantado dos peraus

e por vezes a ira desses deuses

aflora nas enchentes dessas águas.

 

Ó tempo rarefeito e de amargura

onde os lumes das velas se alevantam

carpindo desesperos de viúvas

nas palafitas de alagadas preces.

 

Eis o mistério verde via crucis

das dolorosas estações de lágrimas

que se mesclam às dores desse rio:

água de viver água de morrer.

 

O ciclo desse rio é como a vida

que tem no próprio fim o seu começo

e assim o vicejar desses morrentes

é verbo solidário de esperança.

 

E o meu arpão de novo é estilete

a rasgar as nervuras dessas ondas

lâminas brilhantes - escamas novas

esteira fluvial e flamejante.

 

E os meus olhos de velho pescador

são duas flechas claras e certeiras

celebrando o reencontro desses alvos

pois pronto estou inteiro para o dia.

 

 

 

POEMETO DA PANDORGA (Filhos da várzea)

 

Para Luiz Bacellar

 

Curvado arco

o seio da linha

(mamilos ao vento)

cerol maroto bolina.

 

Arco retesado

curvo.

 

Turvo o ar da

curva do arco

(linha de tesão)

empinada

de famão.

 

O vidro brilha na cola branca.

 

A linha passeia a rabiola

da pandorga, banda de asa,

assanhada!

 

 

Poemas transcritos de BANDA DA ASA: poemas reunidos de Aníbal BeçaRio de Janeiro: Sette Letras, 1998. 



 


TEXTOS EN ESPAÑOL


ESPEJO HABLADO
 
En territorios de espejos
ví reflejos y me ví    
sin nunca ver esa faz 
que otros pretenden mirar. 
En convivencia, extranjero 
nunca me subí en mí. 
Acontecí a los otros
y me apoyo en este acaso. 
(Ahora mismo estoy ardiendo
y no sé quién se confiesa. 
Si aquel suelto de cadenas
O si el preso atormentado).
La cuestión es, más que ser,
saber ser el que se exporta.
Apenas vengo viniendo 
y no me alcanzo en llegar.
Disimulado me asumo
en la corriente del símil.
No yo mismo sino el otro
de múltiple rostro y solo.
            
Existir lejos del ser 
se construye en muchas huellas:
ardua lectura de pastos
aprendizaje de vientos
en alfabeto de nubes.
Larva escritura se larga
reseña multiplicada
prensada en la nueva piel
de reinventada serpiente.
No soy yo quien se declara
en el discurso postizo.
Soy el que piensa y que sueña
toda la magia del ser.
El que se inventa de dudas
al afirmarse criatura.
El que no vino a beber

sino inmolarse en la sed.

 

  

POEMA CÍCLICO
 
La viga de mis ojos
es polen de crisantemos:
púas cronológicas
Metro a metro la flecha ideográfica
abre comillas al viento:
                                   mandala vertical
 
¿Quién me confiere
esas alas nubladas
de arcángel del limbo?
 
Ah tiempo adiposo
la marca de tu rasgo
boligráfico
abre más una carretera
     (sin orillas)
paralela a las estrías del sueño
 
He aquí que los párpados de paja
se presentan:
de mis ojos saltan
pájaros ariscos
listos a desflorar begonias
en septiembre
y 38 punteros
(rubís ciclotímicos del silencio)
acupunturan poros fóbicos
 
Calendas
la lengua del espejo
(espectador anónimo)
muéstrame por entero:
vital consejo
entre el sudario que me hospeda
y la angustia que me habita
 
La mirada flota narcísica
el rastro de la sílaba
y el grano onomástico susurra:
Anibal
 
Cuán particular este silencio
(bies oculto)
que me sabe desnudo
encallado en atascadero:
lecho circunscrito
a las algas de mi avieso
 
Sin embargo
traigo siempre en la alforja
un fardo de estrellas:
me sé estibador
de ese muelle de agonía

atareado Sísifo.

 

 

 

ARTE DE LA INUTILIDAD
 
Ya me entrego por entero
en la entrega de mi canto
que inútil hace parejas 
al yugo de cosas simples
aquellas en que se rumian
los hervores de mil sueños.
 
Del misterio soy esclavo
de los vientos me emancipo 
consagrado en muchas nubes
con licencia más que azul
por el cielo vagabundo
en el cepo del acaso.
 
Marcado a hierro en la piel
hado firmando sentencia
la pena ensillada encuerda
la transgresora guitarra
del domador de palabras 
en los senderos de seda.
 
Esa tarea de fardos
no escanciada en apariencias
convoca al suelo olvidado
de fatigados de hambre
distantes del pan del beso
de proteína amorosa.
 
Y oso poner al mantel
mi dicha inutilidad
cubre la mesa común
para mi verso traer:
poca comida en el plato
servida en un gesto largo.
 

Traducción de Juan Carlos Galeano

 

 

LLANTO POR LOS DESAPARECIDOS

 

Rastreando tinieblas con gusanos

la noche llegó junto con tristezas

y sombras espejadas presentí

en las labores lúgubres del luto.

 

La oscuridad no vive sólo en noches

ni el día sólo muestra claridad

porque el brillo no teje privilegios

a quien es olvidado en las mazmorras.

 

En