Quero os meus amigos de volta
Primeira lição: não entrar em pânico.
Segunda lição: não entrar em pânico.
Terceira lição: perna pra que te quero!
Foi assim no Vietnã. O Amazonas-Mekong
fluía entre discursos cineclubistas
e as tropas de ocupação do Exército brasileiro
descobriam enfim um inimigo à altura
da Guerra do Paraguai
em seu próprio quintal.
Crianças, quase todo ele - o inimigo - e uns poucos
velhos que escaparam ao primeiro assédio.
Maio de 1968.
A polícia atirava em Manaus contra
as barricadas de Paris.
Luiz Buñuel dormiu na rede roída
lá de casa e o fantasma do seu Cão Andaluz
foi caçado mais de uma vez por aquela amante
do diretor do colégio que trepou
com toda uma geração de comunistas
cristãos sem ficar grávida uma só vez.
Linda espiã das escadarias do ginásio.
Lindo torneio de pernas e juventude.
Insaciáveis tesões.
Prazeres que só um Serviço Nacional
de Informação pode conceder.
Já ali só havia uma verdade
absoluta: todo fascista é um filho da puta.
E quando o Araguaia convocou 10 mil
desocupados de uma nova safra de soldados
para vencer uma guerra de ficção
o socialismo já era um tigre de papel
e títulos vencidos.
Só o comunismo dos Yanomami resiste
hoje à doença da moeda.
Mas este mesmo anda em pânico
e sem pernas para chegar a algum lugar.
Agora sabemos com quantas perdas
se faz um Muro de Berlim.
Pudemos contá-las, pedra por pedra,
aqui mesmo quando ruiu
em Manaus onde
tudo acontece à revelia da cidadania
e tudo é simulacro da realidade
Apesar das más línguas, somos modernos.
Assumimos o personality show
das máscaras sorridentes do mercado.
É quase chique ser cínico.
Mas não é a Eletronorte que nos remete
à mais ilustre escuridão, todos os dias.
Todos os dias é maio de 68.
Quem espiona sobre os meus ombros
está a quilômetros de mim
e dos meus ridículos escritos.
Mas já esteve muito próximo.
Tão próximo que meus
escritos não eram ridículos.
Quero esses amigos de volta, sem culpa.
É preciso não entrar em pânico.
Mesmo porque não existe mais para onde ir,
ainda que sobrem pernas.
É preciso encarar de vez.
Ter é ser em todo lugar.
O que quer que signifique isto.