*
DAS FRONTEIRAS
Na cidade onde eu vivo de lembranças
existem muitas pessoas
que só conhecem a rua principal
e a grande praça da igreja,
onde há passeios laterais, flores e um obelisco.
Tecem suas vidas numa rotina agradável
que lhes assegura a paz
que transmitirão aos seus descendentes
como uma herança legítima da palavra de Deus.
(Creio que é um costume de muitas gerações,
pois todos possuem verdades profundas e inabaláveis).
Nas minhas tardes vazias,
enquanto o céu não me espera
por total falta de méritos,
atravesso essas fronteiras
à procura de outras vidas,
e quando retorno à casa
trago a alma pesada de canções amargas.
Mas se ergo a voz uma vez,
e canto um canto rebelde
num gesto forte de amor,
todos me julgam um hostil estrangeiro.
Quando se esgotar o meu tempo de luta,
construírei minha morada entre árvores sadias e simples,
e assistirei em silêncio
força do tempo destruindo as fronteiras.
(Poema constante no livro Trilha dágua, transcrito de material gentilmente cedido pelo prof. Tenório Telles)
*
DA NOITE DO RIO
Nesta noite sem medida
eu todo banhado em sombras
fugi de casa, fugi
para o branco desta praia,
como se a aurora que busco
neste rio se afogou.
Preciso acordar o rio
que está cansado de viagens
para ver se me alivio
da morte que trago em mim
com falas de cobras-grandes
e de mortos pescadores
que fazem parte do rio
e estão assim como estou.
No céu repleto de nuvens
há nuvens cheias de chuva:
por que não chove? Quisera
molhar-me dentro da noite,
tremer de fome e de frio
por remissão dos meus males
deixar meu corpo vazio
guardando o castelo inútil
e partir buscando a aurora
para que venha depressa
banhar as águas do rio
e minha face marcada
dos ventos com que lutei.
*
ESTUDOS
VI
O amargo deste sal que me alimenta
agora, eu mesmo o consegui catando
abismos nesse mar desconhecido
que o tempo me mostrou depois de mim.
Este sabor estranho de distância
que vivo a cada hora e que me envolve,
vem da vida que vi nessa voragem.
Sei, agora, que após a ronda inútil
por além dos limites do meu nada,
voltamos mais vazios, eu e o barco
que construí para guardar tesouros.
No regresso noturno, cumpro o gesto
de buscar o local, em cada porto
onde possa esconder um sonho morto.
*
Da opção
Um belo mundo
de muitos lagos
de muitos rios.
Um belo mundo
de muitas matas
de muitas vidas
elementares.
Um belo mundo
de muitas lendas
de muitas mortes
antecipadas.
Velhas estórias
de água e florestas.
O homem e a terra.
A terra cansando
dos anos compridos
de extrativismo
na selva
no rio
na rua
na mente.
O homem cansado
de andar pelo tempo
sozinho sozinho
no meio da mata
na beira do rio
à margem da vida.
Velhas estórias
de água e florestas.
O homem e a terra.
- Eu canto para o homem.