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POESIA ALAGOANA / PARNASIANISMO

Coordenação de Cármen Lúcia Dantas

 

 

GUIMARAENS PASSOS

(1867-1909)

 

 

Sebastião Cícero dos Guimarães Passos nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 22 de março de 1867, e faleceu em Paris, no dia 9 de setembro de 1909. Trans­ferindo-se para o Rio de Janeiro com menos de vinte anos de idade, ali fez parte da famosa roda boêmia de Olavo Bilac. Exerceu o jornalismo, escrevendo versos, contos e crônicas em diversos periódicos, às vezes com pseudônimo. Foi nomeado arquivista da Secretaria da Mordomia da Casa Imperial, cargo que perderia com a proclamação da República. Foi exilado ao tempo de Floriano Peixoto.

 

Obra poética: Versos de um simples (1891), Horas mortas (1901) e os versos humorísticos de Pimentões (1897), em parceria com Bilac, com quem assinou também um compêndio de metrificação. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.  FONTE: Parnasianismo/ seleção e prefácio de Sânzio de Azevedo. São Paulo: Global, 2006. 153 p.  (Col. Roteiro da Poesia brasileira)

 

 

                               XXXIV

 

Na terra estava quando te queria

De todas as mulheres diferente,

E olhando a altura com o fervor dum crente

Em nuvem de ouro a tua imagem via.

 

Na asa encantada que a paixão me abria

Subi, para buscar-te unicamente,

E em cima estando vi-te, de repente,

Na terra, no lugar donde eu saía.

 

Olhos de amante, que de tal maneira

Andam cheios de lúcida loucura,

Que assim se perdem na maior cegueira.

 

E vendo aquilo que não há, decerto,

Sonham longe a ilusão de uma ventura

E não vêem a ventura que têm perto.

 

 

Versos de um simples (1891)

 

 

PUBESCÊNCIA

 

A Emílio de Menezes

 

Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,

Porque a sua alegria ausente estava,

E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,

Agora a toda a tentação resiste:

 

Seria outra alma, pensa, que a animava?

Por que um desejo que a persegue insiste?

Qualquer cousa que ignora, mas que existe,

Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.

 

Triste cismando segue, e em frente à fonte:

— Um sátira, de cuja boca escorre

Um fino fio d'água transparente —

 

Ri-se, dos cornos que lhe vê na fronte,

Os lábios cola aos dele, e porque morre

De sede, bebe alucinadamente.

 

 

Versos de um simples (1891)

 

 

GUARDA E PASSA

 

... Non me destar, deh! parla basso

Michelangelo

 

Figuremos: tu vais (é curta a viagem),

Tu vais e, de repente, na tortuosa

Estrada vês, sob árvore frondosa,

Alguém dormindo à beira da passagem.

 

Alguém, cuja fadiga angustiosa

Cedeu ao sono, em meio da romagem,

E exausto dorme ... Tinhas tu coragem

De acordá-lo? responde-me, formosa.

 

Quem dorme esquece ... pode ser medonho

O pesadelo que entre o horror nos fecha;

Mas sofre menos o que sofre em sonho.

 

Oh! tu, que turvas o palor da neve,

Tu, que as estrelas escureces, deixa

Meu coração dormir... Pisa de leve.

 

 

Horas mortas (1901)

 

VILANCETE

 

Saudades mal compensadas,

Por que motivo as tomei?

Como agora as deixarei?

 

        Voltas

 

Hoje por coisas passadas,

E só por vosso respeito,

Varado vejo meu peito,

­Senhora, por Sete Espadas,

Saudades mal compensadas

Destes-me rindo, e não sei

Por que motivo as tomei ...

 

Busquei-vos por brincadeira,

Aceitastes-me por brinco;

Quis-vos depois com afinco,

Não me quis vossa cegueira.

Vejo-me desta maneira ...

Penas que eu próprio busquei,

Como agora as deixarei?

 

 

Horas mortas (1901)

 

 

... DEPOIS

 

Para mim, pouco importa a recompensa

Dos meus carinhos, quando te procuro;

Dirão que tens um coração tão duro,

Que pedra alguma há que em rijeza o vença.

 

Dirão que a calculada indiferença

Com que tu me recebes, é seguro

Condão que tens, de todo o meu futuro

Trocar, sorrindo, em desventura imensa.

 

Dirão... Que importa a mim/ Dá-me o teu leito,

Dá-me o teu corpo, fecha-me nos braços,

Une os lábios aos meus, o peito ao peito,

 

Que eu nem saiba qual seja de nós dois...

Mentem teus beijos/ mentem teus abraços?

Será tudo mentira... mas depois.

 

 

Horas mortas (1901)

 

 

NIHIL

 

Sem aos outros mentir, vivi meus dias

desditosos por dias bons tomando,

das pessoas alegres me afastando

e rindo às outras mais do que eu sombrias.

 

Enganava-me assim, não me enganando;

fiz dos passados males alegrias

do meu presente e das melancolias

sempre gozos futuros fui tirando.

 

Sem ser amado, fui feliz amante;

imaginei-me bom, culpado sendo;

e se chorava, ria ao mesmo instante.

 

E tanto tempo fui assim vivendo,

de enganar-me tornei-me tão constante,

que hoje nem creio no que estou dizendo.

 

 

XLI

Crianças fomos, como tal, tu, louca
de amores foste e eu, louco, te imitava,
então pelos teus olhos eu me olhava
e tu falavas pela minha boca.

E para nós tão cheia se mostrava
a vida que, por certo, havia de oca
ser para os outros; pena que foi, pouca
fosse para quem rindo a desfrutava.

Os anos foram breves como dias;
os dias como as horas foram breves;
esqueçamos passadas fantasias,

que, se eu fui louco, e se tu foste louca,
já por meus olhos hoje vejo e deves
ver que hoje falas pela tua boca.

 

Página ampliada e republicada em novembro de 2008

 




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