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CARLOS MOLITERNO


Poeta, jornalista, crítico literário, foi presidente da Academia Alagoana de Letras por seis mandatos consecutivos, autor dos livros Desencontro, Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas e do festejado A Ilha, considerado um clássico da poesia alagoana. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, autor da letra do Hino de Maceió, faleceu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos.

 

CAMÕES

Destemido cantor da gente lusitana,
Que ostentas do passado os louros imortais,
Modelaste no verso a glória que engalana
A nobre tradição de vultos colossais.

Cantaste no teu poema a luta sobre-humana
Da armada que venceu os rijos temporais
E rasgou pelo mar, com bravura espartana,
A rota que a levou às índias Orientais.

Vibraste em tua lira, ó grandioso artista,
Um canto sublimado e cheio de grandeza
Que traduz do teu povo as ânsias de conquista.

Revela-se aos clarões do teu poema terso
— Epopéia de amor da gente portuguesa —
A alma de Portugal na música do verso.

PALAVRA DO MESTRE

Na palavra trazia o bem
Que desejava fosse de todos.

Mas o bem da palavra
Perdia-se no abismo
Da indiferença de todos.

Todos escutavam
A palavra que traz o bem
Mas a indiferença era maior do que a palavra.

Por isso a palavra que trazia o bem
Anda perdida pelo mundo
No meio da indiferença de todos.

4ª. ELEGIA

São meus longos e tristes pensamentos,
Ecos sem vozes que ficaram imersos
Nas extintas manhãs, nas madrugadas,
Nas curvas das estradas percorridas.

São túmulos abertos na memória,
Trazendo a dispersão de imagens mortas,
De imagens sepultadas pelos ventos
Através dos caminhos que me viram.

Acumulam-se em mim ausência e magoa,
E um silêncio pesado abafa os ruídos
Da água fria da fonte das lembranças.

Na paisagem noturna há cruzes vivas,
De minutos e de horas e segundos,
Cobertas pela neve das distâncias.

 

De
MOLITERNO, Carlos
A Ilha.  Capa e ilustrações de Hércules.
 Maceió, Alagoas: Imprensa Oficial, 1969.  131 p.  formato 29x14 cm    
Este livro de Carlos Moliterno inclui 8 desenhos de Hércules impresso em folhas separadas do texto sobre papel verde claro.

 

SONETO N° 37

 

 

A Ilha se dilui pelo meu corpo

e em minhas mãos retenho a sucessão

dos litorais que nascem nos meus olhos,

das angras que confinam nas marés.

 

Ondas intermitentes se deslocam,

projetando uma azul geografia

de águas que são águas e não são,

porque no horizonte se esvaziam.

 

Agua e céu se confundem em cores várias,

em cores que retenho nos meus dedos,

entre o verde e o azul e o ouro e o chumbo.

 

Olhos procuradores se inquietam

e se perdem num mapa de água e céu,

um mapa que eu tracei para meu uso.

 

 

 

SONETO N. 6

Debruço-me na tarde sobre a Ilha,
enquanto o sol estanca no vermelho,
e derramo lembranças nas areias
e na relva, nas flores e nos frutos.

A memória na tarde é um calendário
que registra os mais lúcidos instantes
dos meus passos incertos e perdidos
na minha irresponsável geografia.

No silêncio da tarde me absorvo,
perdido nos seus pontos cardiais,
marinheiro sem rumo e sem estrela.

Percorro a Ilha sem mirante e mapas
e céu e terra escapam dos meus dedos,
como fios de luzes intocáveis.

 

 

Página publicada em julho de 2011.


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