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POESIA MOÇAMBICANA

Seleção de Nelson Rossano



LUÍS CARLOS PATRAQUIM

 

Língua

 

Mpurukuma, Língua, corpo quase,

o que sou de sobrepostas vozes,

Bayete!

E tu, pássaro da alma, Mpipi adejando

sobre o losango tumultuante de cores,

Templo onde me cerco,

não me abandones, cão inflando para o rio

uma escarninha balada que nos enforca.

Esfumou-se a Torre na praia nocturna,

a preposição que olfactava o nervo

e Ele dorme ainda e expulso.

Quando a palavra surge, inteira, das águas

e os espíritos batem a respiração do batuque,

Ele tacteia os nomes nas abóbadas de sangue

e entra pelo silêncio, dobrando-se

em número.

Leva-o nas tuas asas, ó sombra

que as patas de cinza espargiram no vento,

soluço de Leanor

em saínhos sete de capulanas mil,

Ilha mineral, Mpipi hílare no azul

onde me cego.

Que sinais sobre que mar do exílio ou

som de algas lavando-te o rosto, se inscreveram

em ti, mulher larga no Índico,

língua por dentro dos lábios cavando, obscuro,

um reino por achar?

Língua, Mpurukuma quase.

 

 

Depois das elegias

 

depois das elegias o alcandorado grito

sobre o deserto chão do poema,

desinventário de européis no fulgor

em barrocas cornijas de caniço ao alto,

a chuva,

e o chão ele mesmo vertigem,

as estiradas praias de silêncio

no tapume como ínsulas do incerto mar

na cidade dos cedros, sonetos antigos,

negreiros tijolos de incisões

a desaguar

 

 

 in Cadernos «Diálogo» 1

As Palavras Amadurecem – 1988

 

 

Metamorfose

 

a Mãe não era ainda mulher

e depois ficou Mãe

e a mulher é que é a vagem e a terra

então percebi a cor

e metáfora

mas agora morto Adamastor

tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada

das mambas cuspideiras nos trilhos do mato

falemos dos casacos e do medo

tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes

e as espigas de bronze

as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco

chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia

de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando

a natureza e o chão no parnaso das balas

falemos da madrugada e ao entardecer

porque a monção chegou

e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos

num silêncio de rãs a tisana do desejo

enquanto os tocadores de viola

com que latas de rícino e amendoim

percutem outros tendões da memória

e concreta

a música é o brinquedo

a roda

e o sonho

das crianças que olham os casacos e riem

na despudorada inocência deste clarão matinal

que tu

clandestinamente plantaste

AOS GRITOS

 

 

in Cadernos «Diálogo» 1

As Palavras Amadurecem - 1988



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