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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


POESIA CABO-VERDIANA
Seleção de Nelson Rossano




CORSINO FORTES

 

Pecado Original 

Passo pelos dias

E deixo-os negros

Mais negros

Do que a noute brumosa.

 

Olho para as coisas

E torno-as velhas

Tão velhas

A cair de carunchos.

 

Só charcos imundos

Atestam no solo

As pegadas do meu pisar

E fica sempre rubro vermelho

Todo o rio por onde me lavo.

 

E não poder fugir

Não poder fugir nunca

A este destino

De dinamitar rochas

Dentro do peito...
                

               (Claridade, 1960

  

Girassol 

Girassol

Rasga a tua indecisão

E liberta-te.

 

Vem colar

O teu destino

Ao suspiro

Deste hirto jasmim

Que foge ao vento

Como

Pensamento perdido.

 

Aderido

Aos teus flancos

Singram navios.

 

Navios sem mares

Sem rumos

De velas rotas.

 

Amanheceu!

 

Orça o teu leme

E entra em mim

Antes que o Sol

Te desoriente

Girassol!

 

         

Proposição  

Ano a ano

crânio a crânio

Rostos contornam

o olho da ilha

Com poços de pedra

abertos

no olho da cabra

 

E membros de terra

Explodem

Na boca das ruas

Estátua de pão s6

Estátuas de pão sol

 

Ano a ano

crânio a crânio

Tambores rompem

a promessa da terra Com pedras

Devolvendo às bocas

As suas veias

De muitos remos

 

 

De pé nu sobre o pão da manhã 

Desde a manhã os pés

Estão nus ao redor da ilha,

Nus de árvore nus de tambor

Joelhos de sol E volutas de poeira

Nos tornozelos

Em movimento

 

Desde o início

O tambor dos dedos

Sob o pão das pedras

O cão das artérias

preso

na voragem

Dos calcanhares Que agitam

Na terra polvorenta

o ponteiro dos membros

sobre a testa do mundo

 

Os membros o mundo o meridiano de permeio

 

O sarilho dos corvos na falésia

Anuncia-nos

 

À boca do povoado

Ao vento gordo sabor a fiambre hálito

de pão novo

 

À beira-mar erguemos as nossas costelas

À promessa pública do mar E

À beira-mar navegamos

Com mãos menos mãos

Com pés menos pés

De proteínas

 

  

O povo o poente o pão de permeio 

Então Djone! nosso Djone

fidje de Bia ou Maria

Despe a camisa

E vendida

Passeamos tal tronco

Entre palmeiras de secura

Assim

Falucho

de orgasmo

que caminha

Ao som de palmas

Instrumentos de corda

violão & viola

 

Há sempre o banjo o cavaquinho

Que nos interrompem

Entre duas freguesias

E dizem

       unha & bronze

Da nudez

E das árvores

Que crescem no céu da boca

E dos rios

que nascem na veia cava

E do sangue

do povo sobre o mapa

 

Desde o nascer E desde a nascença

Os pés o poente o meridiano de permeio

 

  

Não há fonte que não beba da fronte deste homem 

                       I 

Nas rugas deste homem

Circulam

estradas de todos os pés que emigram

Quebram-se

vivas! as ondas de todas pátrias

Anulam-se

de perfil! as chinas de todas muralhas

 

Na mão bíblica

No humor bíblico deste homem

crepitam de joelhos

Desertos & catedrais

Onde

deus & demónio

jogam

                   noite e dia

             a sua última cartada

E do pó da ilha à mó de pedra

Não há relâmpago

Que não morda a nudez deste homem

Nudez de liberta!

Que a dor germina

E o espaço exulta

E pela ogiva

ogiva do olho

Não há poente

Que não seja

Uma oração de sapiência

 

Sobre a face deste homem

o povo ergueu a praça pública

E os tambores transportam

o rosto deste homem

Até à boca das ribeiras

E ao redor

os vulcões respeitam

o silêncio deste homem

 

                       I I

 

Não há chuva

Que não lamba o osso de tal homem

À porta da ilha

Diz o sal de toda a saliva

O sol ondula oceanos no sangue deste homem

 

Oh cereal altivo! vertical & probo

Ainda ontem

antes do meio-dia

O vento punha velas na viola deste homem

Hoje!

A viola

De tal dor é sumarenta

E projecta

sobre as almas

a seiva

De uma árvore imensa

Oh oceanos! que ladram à boca das tabernas

Se o sangue deste homem

é tambor no coração da ilha

O coração deste homem

é corda no violão do mundo

E os joelhos

rodas que vão! hélices que sobem

com ilhas no interior

 

                       I I I

 

Sombras sobre a colina Rosto sobre o povoado

Quando

pastor & gado jogam à cabra-cega

E chifres de sol

       projectam

cidadelas no ocidente

O poente galopa a maré-alta

       E ergue

"À taça da noite

Sobre as têmporas deste homem"

 

Oh noite verde! oh noite violada

Que a noite não apague

A memória das cicatrizes

E cicatrizes de ontem

       Sejam

Sementes de hoje

Para sementeira E floresta de amanhã

 

 

Como Noé 

As espécies conhecem

A sílaba E a substância deste homem

Não há milho

Que não ame o umbigo deste homem

Não há raiz

Que não rasgue a carne deste homem

 

E na fome pública deste homem

Cresce

a ave no voo E a gema na casca

Cresce

o cabo d'enxada E a cintura da terra

Cresce

a porta do sol E o alfabeto da pedra verde

Não há fonte

Que não beba da fronte de tal homem

Que

A erecção deste homem é redonda

E tem o peso da terra grávida

 

 



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