ARLINDO BARBEITOS
Arlindo do Carmo Pires Barbeitos, nasceu em Catete, Província de Icolo e Bengo, Angola, em 24 de Dezembro de 1940. Em 1961, foi obrigado a fugir de seu país por motivos políticos. Viveu na a França, Bélgica, Suíça, e Alemanha, onde cursou Antropologia e Sociologia na Universidade de Frankfurt. Tem doutorado em Etnologia e foi professor na Universidade Livre de Berlim Ocidental e na Universidade de Angola, para onde regressou em 1975.
No tempo/em que as pacaças entravam
no tempo
em que as pacaças entravam
pelos povoados
o vôo alvoraçado das perdizes
carregava sonhos
que
a mãozinha inerme de criança
feliz
agarrava ao lusco-fusco dos muxitos
no tempo
em que as pacaças entravam
pelos povoados
(Na leveza do luar crescente)
Oh flor da noite/onde todo o orvalho se perde
Oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde
teus olhos
não são estrelas
não são colibris
teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um passado se esconde
teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma
oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde
teus olhos
não são estrelas
não são colibris
(Angola Angolê Angolema)
"borboletas de luz"
borboletas de luz
esvoaçando
de cadáver em cadáver
colhem
o fedor dos mortos em
vão
e
pelos buracos da renda
dos dias
passam alacres
do mundo do esquecimento
ao país da indiferença
levando consigo
o pólen fatal
das flores da guerra
borboletas de luz
(Na leveza do luar crescente)
"oh alambique..."
oh alambique
de saudade
destilando
álcool de poesia
pára pára
oh alambique
de saudade
(Na leveza do luar crescente)
"imersa em sereno de lusco-fusco"
imersa
em sereno de lusco-fusco
e
suspensa em vazio
São-Tomé
carrocel de montanhas
carregador de nuvens
transportados de sonhos
irrompendo
de abismo de espuma
e
sumindo
em precipício de bruma
São-Tomé
suspensa em vazio
e
imersa em sereno de lusco-fusco
(Na leveza do luar crescente)
"na leveza do luar crescente"
na
leveza do luar crescente
sobe
a ilusão da felicidade
que
teu gesto distraído
me dá
como se
plumas vogando suaves
na brisa
fossem
vida de pássaro apodrecendo
na
leveza do luar crescente
(Na leveza do luar crescente)
"na transparência da tardinha"
na transparência da tardinha
que
impávidos imbondeiros sombreiam
cantar de galinha do mato
é
eco de um tempo
em
que ilusão e verdade
cirandavam alheias ao mundo
a esperança medrava verde
verde
como rebento de capim de outubro
na transparência da tardinha
que
impávidos imbondeiros sombreiam
(Na leveza do luar crescente)
"pela névoa de pesadelo"
pela névoa de pesadelo
a dor passa
clandestina
a fronteira dos instantes
e implacável
monta guarda
ao porão dos dias
ao contorno dos gestos
ao ruído das coisas
e
ao sentido das palavras
embaciadas
pela névoa do pesadelo
(Na leveza do luar crescente)
Página publicada em junho de 2009
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