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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




C A N Ç Õ E S

P E R V E R S A S
recital lírico-musical  

 

Poemas de

Antonio Miranda

 

Músicas de

Xulio Formoso    

 

Arranjos e direção musical de

GEORGE DURAND

 


cantores:

 

ELGA PÉREZ LABORDE

GEORGE DURAND

 

com a participação especial do percusionista Jorge “Macarrão” Abreu

 

e dos atores

 

VÂNIA CRISTINA ZIMBRES

WANDER PAV ÃO

ZENILTON DE JESUS GAYOSO MIRANDA  

 

 

Estréia como parte da programação do

VIII CONGRESSO INTERNACIONAL DE HUMANIDADES

Universidade de Brasília

dia 20 de outubro de 2005



Elga Pérez-Laborde

 

 

Canção 1

O Mearim

 

Eu nasci no Mearim

um rio barrento e lento

lá no fundo da memória

carcomida, como a mim

corroeu o mesmo tempo

e o desalento; também

este rio corrompeu, assoreou.

 

O rio torto e incerto

da minha infância esquecida

palmeiras decapitadas

e eu, assustado ribeirinho

imaginando caminhos

com as águas frente a mim.

Eu nasci no Mearim...

 

Lá, mais adiante quem sabe

o mar, e o continente

lá no futuro, o passado

lá no passado presente

instigante de um desterro

e destino de emigrante

porque o rio sempre segue

o seu curso indiferente

 

 

 

O MEARIN

 

Eu nasci no Mearim

um rio barrento e lento

lá no fundo da memória

carcomida, como a mim

corroeu o mesmo tempo

e o desalento; também

o rio corrompeu, assoreou.

 

Um rio perdido ou esquecido

o rio e eu, frente a frente

como um eu diante de outro

eu, desconhecendo-se

outros eus que ficaram

ao longo do caminho

todos irreconhecíveis!

 

O rio torto e incerto

de minha infância esquecida

com aquelas palmeiras

decapitadas; eu, ribeirinho

assustado, imaginando

caminhos nas águas

moventes e errantes.

 

Lá adiante, quem sabe

o mar, o continente



George Durand

 

Canção 2

Soam campanas ao vento

 

Soam campanas ao vento

Do meu pressentimento

Daquele modo de morrer

 

Antes de ter nascido

Mesmo de ter nascido

 

Voam pássaros no vento

No momento

Deste meu confinamento

 

O horror

horror de estar preso

Do lado de fora da casa.

 

Olhando pela janela

A paisagem,

A paisagem lá dentro.

 

Andar, andar

Andar numa vida imaginária

Andar, andar

Andar em círculos concêntricos.

 

Numa caixa dentro de outra

Caixa, dentro de outra

Caixa, dentro de mim

 

Pois acabo de voltar

de onde eu nunca fui

sem nunca ter ido

de onde eu nunca fui

 

E logo, derrotado, regressar

para onde nunca estive

para onde nunca fui

 

 

 

AUTO-RETRATO

 

Às vezes sou um, às vezes sou outro:

todo mundo é assim, ou é assado.

 

Eu, sem fugir à regra, transgredi.

 

Fui, ao mesmo tempo, eu e o outro

-um para dentro, outro para os outros

mas, confesso, sou igual a todos

num disfarce que é a outra face

de uma falsa dicotomia.

 

Nem religioso eu sou, nem romântico ,

muito menos ideólogo ou assumido

de qualquer coisa, na minha infidelidade,

falta de fé. E, no entanto, obstinado

quase otimista porque realista

-na reversão da contradição.

 

Sou um pouco o Orlando da Virginia Woolf

o Patinho Feio disfarçado de Dorian Gray.

 

Li uma montanha inexpugnável de livros

tentei reescrevê-los, sem qualquer humildade

subi, letra a letra, degraus estonteantes

delirantes, construindo arquiteturas etéreas

 

no círculo vicioso das virtualidades banais.

 

Deveria rasgar todas as frases deletérias

todas as imprecações, todas as contrafações

verbais e venais que produzi – lixo execrável.

 

Deveria envergonhar-me de minha falsa polidez

de minha insensatez, minhas impropriedades

mas sempre tenho a firmeza dos inseguros

enquanto os crédulos, os convictos

não resistem às próprias contradições.

 

Transgredi mas, juro, apenas verbalmente.

No mais, sou casto na minha perversidade.

Sou beato na minha mais íntima heresia.

E mais despretensioso do que a minha soberba.

 

 

Deu para entender? Nem Deus pressente

aquela dor que finjo que deveras sinto

ao plagiar aquele poeta que nem mesmo venero.

 

 

MEU NOME

Antonio, menino, vamos conversar:
por que foges do castigo, se ele vai te alcançar?

 

Prá que tanta rebeldia, socando ponta de faca?

 

Aonde te levam estas pernas de caminhar

tantas fugas, recusas, tanto ensimesmar?

 

Antonio, menino, por que blasfemas?

 

 

Que te leva ao prazer do sofrimento

ao pensamento avesso ou travesso

a contradizer o sim e a reiterar sempre o não?

 

De onde vêm estas idéias de suicídio

enquanto amas saturado e satisfeito?

 

Tantas páginas escreves! Tantas leituras

apressadas, tanta angústia de ser

tantas perguntas impossíveis, desejos

sonhos absurdos, planos inconseqüentes!

 

Que amigos são esses que não voltarás a encontrar?

Que lugares tu buscas que deixarão de existir?

Que amores te queimam que se vão dissipar?

Que idéias te movem que logo vais superar?

 

Acaso essa birra vale o que a motiva?

 

Frente a frente, somos dois desconhecidos

que se negam, contradizem, se acusam.

 

Espelho maldito a revelar o nosso estranhamento.

 

Não me acuses do que não fostes capaz!

Nada sou daquilo que pretendias ser!

 

Nunca fui amado tanto quanto querias!

Nem amei tanto quanto querias que eu amasse...

 

Antonio, por favor, reconheça o teu fracasso

e deixa espaço para eu existir

sem ter que justificar-me diante de ti!

 

Deixa eu ser feliz no meu conformismo

- de achar que tenho o que mereço

enquanto tu deliras e deliras!

 

Por que estragas o meu sossego tão frágil

azedas a minha felicidade tão precária?

 

A partir de hoje o meu nome é Outro.




Antonio Miranda

 

 

Canção 3

Olha menino

 

Olha menino, vamos conversar

porque foges do castigo, se ele vai te alcançar

 

Para que tanta rebeldia, para que tanto blasfemar

aonde te levam as pernas de caminhar

 

Tantas fugas, recusas, tanto ensimesmar

que amigos sao esses que nao voltarás a encontrar.

 

Que lugares tu buscas que deixam de existir

que amores te queimam que se vao dissipar

Que idéias te movem que logo vais superar.  

 

 

DA PERSPECTIVA DO CORPO    

 

Meu corpo tem vontades próprias

alheias ao meu consentimento.

Transgridem valores e parâmetros

de comportamento,

descontroladas de si mesmas.

 

Um corpo precário,

perdulário.

Um corpo que contemplo fora de mim

para não deixar-me dominar por ele .

O corpo é lúcido, arbitrário.

 

Em sendo corpo,

sou temporal e finito.

Amanhã, serei outro.

 

Como corpo estou, nem sou.

Como um halo, como emanação

da matéria em combustão.

 

Corpo aberto, corpo receptivo.

 

É a mente que castra,

que inibe, que delimita.

 

Odeia a inércia,

o desuso, o descaso.

Enquanto corpo sou de todos,

e menos de mim..

 

DO DISTANCIMENTO DO CORPO

 

Saio de meu corpo

para poder contemplá-lo.

 

O corpo pode pouco.

É fraco, é frágil.

 

Contemplo-o com superioridade

e com resignação.

Só ele me move, me leva.

 

Sou mais do que o meu corpo permite.

É um volume pesado de carregar.

 

Ele envelhece antes de mim.

 

Todo jovem é belo. Belo e cruel.

Achando que a vida é,

por excesso,

infinita.

 

Mas o corpo tem sua memória,

como tatuagens indeléveis.

 

Tudo bem: o corpo dá prazer,

mas tira mais do que dá.

 

Prazeres redivivos, revividos,

ruminados.

 

Exala o corpo venenos e fragrâncias,

resistências impossíveis.

 

Insaciável, o corpo explode

em demandas que não se quer.

 

Afinal,/ o corpo / excreta/ seus próprios / humores.




Jeoge "Macarrão" Abreu

 

Canção 4

Amores frívolos

 

Amores frívolos ou de arremedo

Para vivê-los não para contá-los

E a paixão numa rinha de galos

Fogo cruzado provocando o medo.

 

Tesão de juventude e de folguedo

da carne, galopes de cavalos

carnaval celebrado mais cedo

no embate tenebroso dos falos.

 

Volúpias, clamores, nunca mais

só dores, associados aos prazeres

só dizeres, ais, furiosos animais

 

Que se estranham e que se enfrentam

neste breve festim de començais

dos imorais, que se atormentam.

 

 

ENTRE PURO E OBSCENO

 

Depois de teus sonetos ler e salivar

a revolver em busca de lascívia e mel

os vinte e cinco poemas, de um só tropel

e, acinte, é que fico aqui eu a cismar.

 

Se pode haver pornografia em amar

mesmo que o amor seja reverso e cruel

ainda que a soldo no mais reles bordel

ou mesmo na inversão de corpos a arfar .

 

Não seria no ato que se pratica

nem poderia estar naquele que fornica

ainda que na condição mais canalha

 

mesmo que nem seja amor, seja mortalha

imunda, perfídia, que só valha

o ditado: amor que fica é o de pica.



Vânia Cristina Zimbres


Canção 5

Amor Reverso

 

Oh amor, amor enquanto fura

amor reverso, enfim fugaz

oh amor, amor, amor perverso

esgarçando tecidos

amor falaz

 

Amor proibido amor

seja o que for

amor reverso amor

talvez seja dor.

 

Oh amor, amor detrás do muro

amor de soslaio reverso amor

oh amor, amor, amor à força

amor escondido, amor-paixao

 

Amor seja o que for

amor de ocasiao

amor reverso amor

talvez seja dor.

 

Oh amor, amor de perdiçao

rompendo membranas, reverso amor

oh amor, ultrajante amor

enquanto e entretanto

furtivo amor.

 

 

 

Amor-paixão, amor de perdição

talvez nem seja amor

seja dor, seja o que for

 

amor de cócoras, de soslaio

de pé detrás do muro

enviesado

de bruço, imberbe, buço

amor escondido

proibido

 

amor à força, penetrante

ultrajante

rompendo membranas

esgarçando tecidos

em assomos volumosos

prostrante, pendente

um amor furtivo

rasgando entranhas

inchando e sangrando

 

Amor que é o amar

em dar-se e recompor-se

em transformar-se

que morre e renasce

em parcerias de ocasião

amor do aqui, agora

ou nunca, do olvido

do arrependimento

precoce

 

de nomes impronunciáveis

esquecíveis, perecíveis

nomes outorgados

cambiantes

nem são nomes

 

são rótulos, apelidos, apodos

evocativos, símbolos

denotativos

de um sexo nebuloso

sem nexo ou complexo

 

mas fibroso, viscoso

e, apesar disso, escorregadio

dissimulado ou fantasiado 

orgasmo e superação.

 

Neste poema não tem

a palavra coito

que é um apelativo

 

nem sodomia, masoquismo

e pederastia...