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Fonte: http://graphias.penclubeportugues.org 

 

 

JOÃO RUI DE SOUSA


 

[Lisboa, 12 de Outubro de 1928] Poeta e ensaísta. Depois de ter concluído um curso de técnico agrícola, e já a trabalhar num organismo de coordenação econômica onde desempenhou funções no sector da documentação e edições, licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas, pela Faculdade de Letras de Lisboa. A partir de 1982 e até à sua aposentadoria em 1993, trabalhou como investigador na área de espólios literários da Biblioteca Nacional de Lisboa. Foi um dos fundadores, com António Ramos Rosa, António Carlos (Leal da Silva), José Bento e José Terra, da revista Cassiopeia, que dirigiu em 1955 e onde se estreou literariamente com dois poemas e o ensaio "A Angústia e o Nosso Tempo".

 

A sua poesia, só revelada em livro no início da década de sessenta, dir-se-ia situar-se entre esta década e a anterior. Daí o modo como sabe equilibrar a distensão da linguagem com um sentido elíptico que se diria voluntariamente assumido, as preocupações sociais com a ambiguidade de uma linguagem que acaba por encontrar o espaço próprio das suas imagens e metáforas, uma dispersão surrealizante com uma maior exigência e limpidez na construção poemática. Tem colaborado em avultado número de jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, e tem participado em recitais de poesia em diversos pontos do país.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998

 

A poesia de João Rui de Sousa é a diáspora dos sentimentos humanos por todos os espaços que se revelam à existência, físicos, sociais, éticos e cósmicos. Da paz à felicidade, da injustiça ao sofrimento, da frustração á esperança, do próximo à distância, do familiar ao desconhecido, todas as gradações do sentir e do pensar são cordas de uma poética melodiosa, sem que embale. Uma poética da luz, isto é, do homem iluminado, que se deseja que o seja, para que seja um novo homem: «Azul é quando o homem se ultrapassa» (Palavra Azul e Quando, Átrio, 1991, pág. 14.). Joaquim Matos

 

 

DINOSSAURO

 

Gélida, a noite transcrevia em vitrais

as suas gargalhadas.

 

E assim me agitava no furor do escuro.

Mas não desesperava.

 

E nascia. E crescia

no silêncio dos campos que era arma.

 

Dinossauro ao vento, eu resistia

para que ninguém esmagasse a minha alma.

 

                   (Enquanto a noite, a folhagem)

 

 

ESTE AZUL QUE ME CONVIDA

 

Sou este azul que me convida.

 

E transcrevo a paz, o sol dos dias.

 

E também parto. E também ardo.

 

Depois disso desse suposto eu abreviado,

tão transparente e nítido, mas

tão transitivo

apenas gestos rasos que são cardos,

apenas pedras fundas que são sombras,

pequenos meteoritos que são conchas

de deuses antiqüíssimos e cansados.

 

                        (Palavra azul e quando)

 

 

        ROTEIRO

 

         Meu jeito visionário — meu astrolábio. 

         Meu ser mirabolante — um alcatruz. 

         De variadas coisas fiz a minha esperança

         e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

 

         Aos padrões que em vários pontos encontrei

         na rota íntima de vestes tropicais

         eu dei as mãos, serenas e intactas,

         as minhas dores mais certas e reais.

 

         Nos vários sítios que — abismos —

         toldaram minha voz por um olhar,

         eu evitei o perigo e os prejuízos

         à voz feita de calma, meu cantar.

 

         Aos rasgos que, de outrora, evocados

         foram sempre pelo seu valor,

         eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,

         o meu silêncio amargo, o meu calor,

 

         E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,

         desalentavam já meu ser cativo,

         parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança

         como lembrança para um dia altivo.

 

 

 

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