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JOÃO DE BARROS
(1881-1960)

         O poeta João de Barros nasceu em Figueira da Foz, que fica no estuário do Mondego, rio que passa por Coimbra, a da vetusta Universidade. Pedagogo, o Figueirense participou do movimento republicano renovatório da Educação e m Portugal: trabalhou pela cooperação cultural luso-brasílica; e dirigiu com João do Rio (Paulo Barreto) a revista Atlântida, editada em Lisboa. Como sócio correspondente ocupou, em 1917, a Cadeira n° 9, de que patrono Santa Rita Durão, da Academia Brasileira de Letras.

                   A História da literatura Portuguesa, de A.J. Saraiva e Óscar Lopes, registra:

                            “A imaginária helênica torna-se particularmente insistente em João de Barros (...) que, além das suas campanhas de pedagogia e de aproximação luso-brasileira, se distingue por uma afirmativa confiança no progresso, na razão, nas reservas de energia imanentes ao homem terreno e ao povo. A melhor expressão desse ideário algo abstrato reside no poema dramático Anteu, de 1912, e numa série de poesias de que fez a antologia em Vida Vitoriosa” (10ª Ed., 1978). 

Texto e poemas extraídos da obra:
Fontes de Alencar

ANOTAÇÕES DE POESIA
no Centenário da
REVISTA AMERICANA (1909-1919)

Brasília: Thesaurus, 2010.
ISBN 978-85-7062-925-8


Excelsior

         “In memoriam’ à Maria, que soube amar a Vida.”

 

 

A tua ânsia,
O teu desejo de partir é, nos teus olhos,
Como, um barco a fugir entre espumas e escolhos
Para a livre distância!

oh! a evasão
Por uma noite de invernia
Quando o vento sacode e fustiga a energia,
E as nobres aves migradoras vão
- Buscando regiões de calmaria –
Entre o Céu em tormenta e as ondas em cachão!
Depois... a Vida
- Ser muito amada, ser desiludida,
Amar, sofrer, odiar.
Na vertigem do amor aprender a chorar;
Matar com beijos a quimera apetecida...
E na hora maior, e no instante mais puro
Despedaçar, contra o Mistério do Futuro,
A ambição – insofrida!
Mas, calmo e forte,
Mais firme que a desgraça e mais certo que a Morte,
Mais alto que o Destino,
Desfraldar sobre o mundo o orgulho de criar, o impulso de vencer,
- E brandindo-os nas mãos como fachos a arder
Entre a névoa cerrada,
Deixar curvar o seu clarão divino
Para a lama da estradas!

Ah! Todos nós
— Nós que vivemos para além da própria Vida —
Temos o mesmo gesto, a mesma inquieta voz!
Alma de Luz – em febre e amor é consumida ...
E moribundo já, quanta ilusão transida
Vem aquecer-se ainda em nós!...

Assim – resplende. Assim fulgura – e parte
Segue, cantando, o teu desejo, a tua Arte,
Vai, minha Irmã!
A dor é bela, é sempre grande o sofrimento,
Só o tédio é banal, só a mentira é vã...
Veste de esforço o mais amado pensamento.
Deixa o Passado. Exalta o sonho do momento,
E, sem receio, parte!

— Hesitas ao saber que é tão sozinho
O rumo em que se perde a tua mocidade?
Olhas, chorosa e triste de saudade,
Esses que ficam, desdenhando, sem coragem
A audaciosa viagem?
Deixa-os zombar, deixa-os ficar, e desdenhar!
O seus gesto, repara, é covarde e mesquinho,
Têm almas, bem sei, mas só para esquecê-las...
E não vêem sequer que o pó do teu caminho
É poeira de estrelas!...¹


¹          o confronto entre o texto do poema publicado na revista e o que se acha no livro revela variantes versíficas.

 

Página publicada em maio de 2010

                                                                                             

 

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