ANA HATHERLY
Ana Hatherly (Porto, 1929) é uma poetisa, ensaísta, investigadora, tradutora, professora universitária e artista plástica portuguesa.
Membro destacado do grupo da Poesia Experimental Portuguesa nos anos 60 e 70, tem uma extensa bibliografia poética e ensaística. Dedicou-se também à investigação e divulgação da literatura portuguesa do período barroco tendo fundado as revistas Claro-Escuro e Incidências. Licenciada em Filologia Germânica pela Universidade Clássica de Lisboa, doutorou-se em Estudos Hispânicos do Século de Oiro na Universidade da Califórnia em Berkeley. Professora Catedrática da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa onde fundou o Instituto de Estudos Portugueses. Membro da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores nos anos 70, foi também membro fundador e depois Presidente do P.E.N. Clube Português e Presidente do Committee for Translations and Linguistic Rights do P.E.N. Internacional.
Em 1978 foi agraciada pela Academia Brasileira de Filologia do Rio de Janeiro com a medalha Oskar Nobiling por serviços distintos no campo da literatura. Em 1998 obteve o Grande Prémio de Ensaio Literário da Associação Portuguesa de Escritores; em 1999 o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português; em 2003 o Prémio de Poesia Evelyne Encelot, em França, e o Prémio Hannibal Lucic, na Croácia.
Paralelamente tem uma carreira como artista plástico, iniciada nos anos 60, com um extenso número de exposições individuais e colectivas em Portugal e no Estrangeiro. Obras suas estão incluídas nos principais Museus de Arte Contemporânea portugueses e em colecções privadas nacionais e estrangeiras.
Diplomada em técnicas cinematográficas pela International London Film School, nos anos 70 foi docente na Escola de Cinema do Conservatório Nacional, e no AR.CO (Centro de Arte e Comunicação Visual), em Lisboa. Existem cópias dos seus filmes no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e no Arquivo da Cinemateca Portuguesa, em Lisboa. Fonte: wikipedia
Ver também: POESIA VISUAL
A corrida em círculos
I
O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero,
É ciclo, é ciência.
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
II
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa
Em nós se consumando,
Passamos a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
(As aparências, 1959)
Dar-se
dar-se
entregar-se
o querer no outro transformar-se
cegueira esplêndida esta
vitória álacre e suma desgraça
(Volúpsia, 1994)
A máscara da palavra
A máscara da palavra
revela-esconde
o rosto vago
de um sentido mundo
Paraíso acidental
metódico exercício
a máscara da palavra
colou-se ao rosto:
agora é
o nosso mais vital artifício
Com a máscara da palavra
reinventamos
o som da voz amada
que nos inunda
com seu luar de espuma
(A idade da escrita,1998)
Pensar é encher-se de tristeza
To think is to be full of sorrow
J. Keats, Ode to a nightgale
Pensar é encher-se de tristeza
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro
Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas
Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue
Em toda a parte
ouço seu imenso clamor
(O pavão negro, 2003)
De
Ana Hatherly
A idade da escrita
e outros poemas
Organização e prólogo Floriano Martins
São Paulo: Escrituras, 2005.
57 p. (Coleção Ponte Velha)
ISBN 85-7531-168-9
Gentilmente enviado pela editora
www.escrituras.com.br
Que te vincula corpo
que te vincula corpo
ao enxame tático dos afetos
terror?
deleite?
febre?
O desejo penetra-nos no corpo
De maneira cada vez mais detalhada
[O cisne intacto, 1983]
Fora os poucos recessos existentes
Fora os poucos recessos existentes
o que enche a sombra-lei do não?
que paciência é essa
ou avidez
o que enche de segredo
o medo já sem trégua?
não há desejo exterior ao poder
[O cisne intacto, 1983]
A ausência
Oh como te ex-amo
como tudo se torna díreção imprecisa
É uma coisa terrível
tudo ser tão evidente
no seu vazio
controverso
verso
Seta por dentro
a onda vive de perfil o seu ex-ato
imprecisando as criaturas
Oh como o eu-outro aflora culminando
falo contigo
mas é um outro que contigo fala
um outro
que ex-amadamente arde ainda
Não vês a curva da parábola?
A face do amor é ausência de rosto.
[A idade da escrita, 1998]
A história do mundo
A história do mundo
é uma autobiografia inventada
é a história
dum Paraíso desencontrado
dum velho-novo-mundo
para sempre ultrajado
pelo enorme cintilação do ouro
Ah
como é desigual
a viagem da descoberta!
Entre a cópia e a falta
ante o vexame do despenho
uma pergunta maléfica nos assalta:
que fazer?
A alma
não tem que fazer nada
dizia um célebre quietista...
[Itinierários, 2001]
Página publicada em junho de 2009; ampliada e republicada em janeiro de 2011.
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